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SINAIS

por The Cat, em 17.01.16

IMG_7061.JPG

(Foto by the Cat)

 

Uma página em branco.

É, provavelmente, uma das coisas mais belas que alguém pode ter à frente dos seus olhos, mal acabados de abrir.

Está imaculada, até ao momento da decisão. É livre, sem balizas ou espartilhos, para nela se escrever tudo, até uma vida inteira e para lá dela.

Passei estes últimos longos minutos a admirar esta página antes de me decidir a escrever nela.

Ainda, há momentos, ela estava possuída por um fascínio delicioso, antes mesmo de a começar a esborratar com estas linhas.

A beleza de uma página em branco, onde tudo podemos escrever, é tão só a mesma beleza da vida de alguém, de qualquer um de nós.

Porque a vida é construída por páginas.

Cada um de nós é um escritor.

Desde o primeiro momento até ao último.

É entre estes dois instantes, o início e o fim, que escrevemos a nossa história.

Um antes, um durante, um depois.

É sobre o depois que lhe quero falar.

O final da página.

Como que a baralhar o jogo, o final de página pode, na verdade, ser o começo de tudo.

O ciclo que recomeça, ou uma incerteza incondicional.

Uma desconfiança ousada, como ousado é escrever em uma página totalmente branca, ao longo da vida.

As expectativas, as ilusões e as desilusões, as conquistas e os fracassos, os passos e as pulsações, as viagens e os amores, as partidas e o resto.

Escrever uma vida inteira não é uma certeza, porque ela acaba, quando a história vai a meio, raras vezes, quando chega ao fim.

Uma vida que completa o seu ciclo natural deixa de ser uma sucessão de páginas alinhadas, passa a ser um livro, onde as páginas voltam a ganhar toda a vida.

Foi o sol quem o disse.

É nesse momento, o momento que encerra o ciclo natural, quando passa o cortejo, pelas ruas antes cheias, lento e silencioso, esse, o momento em que as portas se fecham, as pessoas se recolhem, espreitando com curiosidade escondidas atrás de caras interrogativas.

Pena no olhar. Saudade nos lábios. Tristeza no rosto.

O padre e a senhora de idade avançada à frente, o carro preto, o cortejo.

É à passagem do cortejo que os homens suspendem os trabalhos na obra, fecham os taipais e se perfilam, lado-a-lado.

Tiram os capacetes. Baixam os rostos. Alguns.

Há, pelas ruas, um silêncio imenso.

Já nem os carros passam.

O mundo parou, ali, à passagem do cortejo.

Lá dentro, no carro preto, vai uma página escrita, cheia de linhas e letras, histórias e lágrimas. Um livro que ficou para ler.

Os mais velhos, os que caminham para cá e para lá, detêm-se junto ao muro e às paredes, tiram o boné da cabeça gasta, descobrem o cabelo, desalinhado pela forma redonda em tons pastel, com quadrados largos, baixam o olhar, em profundo respeito.

Há ali um profundo respeito.

No campo, onde vivo, as pessoas respeitam os mortos e os vivos, quando passa o cortejo.

Respeitam os mortos, porque sabem que sempre que passa um cortejo igual aquele, com o padre e a senhora de idade avançada à frente, o carro preto e logo a seguir as gentes, sabem que estão na esmagadora presença de uma página, que um dia esteve em branco, que naquele dia se escreveu com a última palavra.

Eles limitam-se a respeitar a última palavra de cada um de nós.

O acto de tirar o boné e baixar ligeiramente a cabeça é o tributo dos nossos.

Naquele dia, precisamente, o cortejo passou pelas ruas, o carro preto levava uma página escrita dentro dele, as pessoas fizeram silêncio, por momentos o mundo parou, ali.

Uma bobine de cinema a desfilar numa máquina de projecção.

O passo cadenciado do prior e da velha acólita, o carro preto, sempre à frente dos nossos olhos, numa cena que terminava centenas de metros mais à frente, ultrapassado o portão final, em cortejo.

A tempestade da véspera pronunciava um funeral escuro, cinzento-escuro, coberto por relâmpagos e chuva forte, convidando o vento incómodo, para se juntar a nós.

Não foi assim.

Não foi nada disso.

A bobine continuava a girar.

A tempestade deu lugar a um novo dia.

Ele trouxe-me um sol diferente, decidido a acompanhar-nos até ao último instante.

Foi nesse momento que o olhei de frente, e deixei que me aconchegasse o rosto.

Ali mesmo, à entrada do cemitério, para lá do portão.

Lá atrás, as portas das lojas e dos cafés voltaram a abrir-se, os homens recomeçaram os trabalhos na obra, os carros voltaram a acelerar, as caras deixaram de estar interrogativas, e os velhos seguiram o seu caminho, com o boné recolocado nas frágeis cabeças. Para cá e para lá, à espera da sua vez.

Vultos que desaparecem na medida em que lhes aumenta os passos e a distância.

O mundo continuava a girar, fora do portão do cemitério, porque a vida não acaba no momento em que se escreve a última palavra, na página de cada um de nós.

Os funerais na minha terra têm duas coisas que me marcam sempre.

E nem sempre é a morte.

É mais o fumo de escape que respiramos, enquanto caminhamos atrás do carro funerário - não sei como não morre mais gente entre a igreja e o cemitério, intoxicada pelo CO2 fresquinho, nem eu próprio sei como resisti a respirara aquilo. No próximo vou com máscara.

A outra coisa que me marca sempre nos funerais da minha terra é a imagem que guardo dos velhos quietos, no passeio, a baixarem a cabeça, e com a mão direita a tirarem o chapéu.

É sinal de respeito!

Gostava de morrer assim.

 

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publicado às 23:50



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