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SEM JOGADAS POR BAIXO DA MESA

por The Cat, em 30.05.15

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Apesar de tudo já ganhei.

É que nem sempre as coisas correm todas como nós queremos.

Eu, por exemplo, tenho corrido todos os dias menos na quarta - aconteceu uma coisa importante nesse dia - e ontem.

Tirando isso corre tudo como quero, ou quase.

Quem pagou a falta de tempo foi o blog, acho que me perdoa, quem me lê.

É por uma boa causa. Não dá para tudo.

Cheguei tão tarde que ou corria ou escrevia.

Nesta correria, a escrita tem ficado meio abandonada, ao ponto de ter apagado um texto aqui publicado, sem querer.

Hei-de publicá-lo de novo. Tudo tem o seu tempo.

As coisas não tem corrido mal, como disse, a escrita é que não tem corrido como eu quero.

Na verdade farto-me de escrever.

Já vão 13 Jornais da Regata, cada um com duas peças feitas por mim e pelo Carlos Rodrigues, mas escritas por mim.

Quer dizer, nos últimos dias escrevi pelo menos 26 textos, gravei 26 pivots, fiz 10 directos e almocei duas vezes no Business Lounge da Race Village da Volvo Ocean Race. Duas ou três.

Mas, eu gosto de escrever é aqui.

Aqui a escrita faz-me feliz.

A escrita faz-me feliz.

Gosto tanto que hoje fiz uma asneira.

Não tenho conseguido escrever tanto quanto queria porque, como é público, estou responsável pelo Jornal da Regata, na TVI24, e estou desde o dia 12 de Maio envolvido na Volvo Ocean Race.

Na quarta feira não corri porque a frota chegava à doca de Pedrouços, com o sol ainda a dormir.

Bem antes da hora já nós lá estávamos. Antes das cinco da manhã.

Nunca tinha visto o dia nascer, em frente ao Tejo.

Inesquecível.

Eu gosto quando me tratam bem e envolvo-me quando me dão projectos que sei que acrescentam algo.

Fomos mais cedo porque quisemos ir.

Comecei os directos às seis e meia da manhã. Hora-a-hora. Terminei às duas da tarde.

Vi o sol nascer. Os veleiros a chegar. Os reencontros e garanto, não escapou nada. Tudo o que mexia eu e o Carlos não dava-mos hipóteses. Perdemos a conta aos directos.

E às horas.

Chegado à televisão tive que editar dois programas, de seguida.

Saí de lá nem me lembro a que horas, mas saí feliz.

Não consegui correr porque estava clinicamente morto. A coisa importante de que falei lá atrás é esta mesmo, a chegada da frota VOR, na passada quarta feira.

Admito, estou envolvido, mas sejamos honestos, consigo separar o meu trabalho do resto, só que é difícil não estar envolvido, pelas pessoas, pelo acontecimento, pelo que ele significa para o país e não só.

É aquela coisa de ser o mensageiro e viver por dentro a história, remember?

Hoje, bom hoje não estava morto, ainda assim não corri, apenas cometi uma pequena estupidez e por isso vim escrever. Quase que obrigado a escrever.

Tomei, como habitualmente, L-Carnitina. Acelera o metabolismo e faz transpirar. Também dá energia.

Bebi o gel, como habitualmente, corta o cansaço e também dá energia.

Bebi uma bebida isotónica, como habitualmente, fornece ao organismo elementos que se perdem durante a corrida.

Só que decidi ir às compras.

Aquilo devia fazer efeito durante a viagem para casa e quando fosse correr estava no ponto.

Matei-me.

Cheguei tarde a casa e sinto-me, neste momento, o Super-Homem, ligado a uma central termo-eléctrica. Canalizo toda esta energia para a ponta dos dedos.

Podia ter ido correr mas está a saber-me tão bem escrever e, depois, as pernas agradecem um dia de descanso.

Mas, daqui nada, quando acordar, vou fazer pelo menos dez quilómetros que a média deste mês só vai nos 160 e faltam dois dias para entrar em Junho.

É que eu quero contar uma história e há histórias que valem mais que uma corrida.

Mais curta que tudo isto que acabei de escrever, informo.

Convém dizer que sou fã da Carminho.

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Não me parece que ela seja minha fã, mas eu sou. Da simplicidade dela, da voz.

Também reencontrei o Sertório Calado durante o check sound.

Um dos melhores bateristas de Portugal.

É da "vila".

Não o via há milhares de anos.

 Cá vai a história:

Convivo diariamente com quatro pessoas, desde há quase um mês.

Criámos cumplicidades, criámos laços fortes, amizades, passou para lá do campo meramente profissional, estando este bem definido.

Somos gente, estas quatro, que sabem estar perante as diferentes solicitações e diferentes pessoas.

Mas, seja onde e com quem for, a nossa cumplicidade é visível.

Ontem, depois de mais um dia na Race Village, em Pedrouços - visite, vale tanto a pena - tive que gravar quatro pivots para o Jornal da Regata.

Antes disso passámos junto ao stand da RFM e fomos dar um beijinho à Ana Colaço.

Cá está, ela, eu e o Carlos somos três. O Zé Pedro Amaral e o Rodrigo faz cinco. Eu falei em quatro. Eu não conto.

A Ana aproveitou para nos entrevistar.

O Carlos, avesso a estas coisas, fugiu. Fiquei eu.

A seguir era a vez o Zé Pedro.

Gravámos os primeiros três pivots. Faltava um.

O Zé Pedro Amaral passa todos os dias no stand da RFM, a rádio oficial - a TVI é a televisão oficial - para fazer um balanço do dia e prestar homenagem a quem ele entender. Publicamente.

Ouve-se em toda a Race Village.

Decidimos então gravar o último pivot, no largo, em frente ao stand da RFM.

Enquanto nos dirigimos para lá ouvimos os nossos nomes.

Parámos.

Durante o resto da entrevista o Zé Pedro falou sobre nós e como sempre brincou comigo.

Apelou para que todos me pedissem amizade no Facebook, para verem o Jornal da Regata, algo impossível de acontecer, revelou que às vezes me chama Páscoa e é verdade.

Falou do falso alarme de incêndio nos Estados Unidos e do facto de adormecer à séria, em qualquer lado e prestou-nos homenagem. Verdade!

Chegou, enquanto falava ao microfone, a dar cabo da gravação da primeira parte do último pivot que eu estava a gravar. Ninguém é de ferro.

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A Race Village - na zona dos bares e restaurantes - estava toda parada a ver e a ouvir.

Fizemos ali uma interacção como nunca a Volvo Ocean Race viu na vida. Houve até um senhor que aplaudiu, que eu vi.

O Zé Pedro é, por assim dizer, o "número um" do Stopover (paragem) português.

Sendo que aquilo que ele fez não nos surpreendeu, afinal somos diariamente convidados para a sua mesa, no lounge VIP, para almoçar, por ele, com ele.

Afinal estivemos juntos nos Estados Unidos e se não fosse eu a esta hora ele ainda estava a dormir no hotel falsamente em chamas.

Também contou essa história ao microfone da RFM.

Esta sexta feira a Ana passou-me à frente da câmara enquanto ele fazia um liveontape connosco.

À noite, já eu não me lembrava, ligou-me, para pedir desculpa.

Mal ela, mal eles sabem, a surpresa que eu e o Carlos estamos a preparar para o final. Até lhe agradeci.

No fundo, estou a falar de como a minha profissão me coloca perante pessoas e situações tão gratificantes.

Gente que nada pede em troca. Gente que te respeita e admira pelo que és, como és.

Gente que não tenta aproveitar-se de ti, primeiro porque não faz parte, em segundo porque sabem que batia na barra. Quem não consegue ver isso não passa de um bonito par de olhos com pernas.

Isto até pode parecer pedantismo da minha parte. Não é.

É gratidão. Gratidão por ter a capacidade de reflectir nos outros algo com o qual eles se identificam.

Sem jogadas por baixo da mesa, sem compromissos e promessas falsas, sem tentativas de se aproveitarem de ti, por acharem que assim conseguem os seus objectivos. Enganando.

Esta gente de que falo não é assim, de todo. De todo.

E, raramente me engano.

Por isso hoje não fui correr.

Estou eléctrico e decidi escrever.

Precisava de tirar de dentro de mim e mostrar o quão feliz me sinto por ser tratado como sou, por estas pessoas, em particular.

Por elas tiro a camisa para que possam atravessar os riachos desta vida marinheira sem molharem os pés, já que é de amizade à vela que se trata.

O que falta é o Rodrigo, do ABC da Vela.

E só falta porque nesta parte da história estava em outro lado da Race Village.

Se não também estava aqui, agora.

Não fui correr por isto.

Às vezes as coisas não correm como queremos e falhei a segunda corrida este mês.

Já cravei a minha mulher para ir comigo de manhã.

Lembro-me agora que esta manhã é a corrida da Accenture, na Race Village.

Está na hora de pedir um favor a um amigo, o tal.

Dois dorsais.

E está feito.

É que tenho que libertar toda esta energia.

Se não, vou correr.

 

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publicado às 00:26



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