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ROOM 215

por The Cat, em 12.10.14

IMG_2832.JPG


 


 


E pronto; já estou dentro do combóio. Está na hora de partir.


Vamos a caminho de casa.


O Porto fica para trás. Ponto de passagem.


Há fins de semana que não deviam terminar.


Tudo acaba e é aqui que começa esta crónica. No fim da viagem que acaba de começar.


Um fim de semana no Douro.


Nunca tinha vindo ao Douro. O Porto serve de ponto de passagem. O Douro recorta-se mais acima.


Régua, Pinhão, Tua.


Decidimos fazer esta viagem por dois motivos - na verdade três:


1- Faz bem um fim de semana a dois.


2- Correr no Douro deve ser experiência única.


3- Três dias sem carro. Só combóio.


Em relação ao ponto 1, não parece ser relevante para quem lê, passo.


Em relação ao ponto 3, a CP mesmo em tempo de crise consegue ser criativa e colocar à disposição de quem quiser uma viagem de combóio, a partir de qualquer ponto do país e fazer a linha do Tua no combóio histórico. Acaba dia 15, mas vale muito a pena, por tudo.


Sobre o ponto 1 e o ponto 3 irei escrever mais à frente, naturalmente, quando falar do ponto 2. Não que me apeteça, mas faz parte. Já vai perceber porquê!


Correr.


Como já reparou - se é que se dá ao trabalho de ler o que por aqui se escreve - este blog é uma máquina de escrever. Escreve sobre tudo.


Como qualquer enamorado, em processo de enamoramento, este blog está a perder em auto-controle aquilo que está a ganhar em auto-estima.


O dono do blog mudou de religião. O blog, fiel ao dono, está a mudar também.


Nos últimos tempos tem se falado muito de corrida por estas bandas.


É por aí que este blog está a caminhar, a correr, as corridas, tudo o que envolve as corridas e é tanto.


Correr é viajar muito, muito intensamente.


As minhas Desconcertezas passam a ter um fio de prumo. Alinhadas.


Este blog vai continuar a escrever sobre tudo, mas vai escrever sempre sobre corrida.


A minha nova religião tem tanto de fanatismo, como de paixão, como qualquer religião.


Por isso, vai ser aqui que cada crónica será sempre uma analogia entre a vida e a corrida. Uma faz parte da outra. Para mim faz.


É por isso que os pontos 1 e 3 não são determinantes enquanto informação, mas fazem parte da construção da narrativa.


Não é fácil escrever num combóio em andamento, aviso já. (Chegámos a Coimbra B, no momento em que faço a correcção  nesta frase - nunca percebi o porquê de Coimbra B).


O Porto é passado.


Cada momento em que escrevo, em que "teclo", encaixa-se no ritmo da música que ouço. Escrevo aos pulos. Batida a batida. O combóio pula, as mãos pulam, as teclas pulam e eu encosto-me.


Aproveito as paragens, mas este combóio pouco pára. A vida não pára. Como nas corridas, a vida não passa de algumas pedras, às vezes, na pista que se quer lisa, suave. Apenas pedras pequenas que desaparecem a cada passada.


Passo de novo pelo Porto para regressar à Régua, enquanto volto para Lisboa e estou parado em Coimbra B.


A confusão instalou-se. Na minha cabeça. Não chega a ser confusão. Bom, primeiro instalou-se, depois deu lugar a um estranho lugar na minha cabeça.


Deixei de ter capacidade para perceber se a corrida me leva ou se eu corro porque quero ir.


Tem isto a ver com este fim de semana fantástico no Douro. No Douro verdadeiro. No Douro fantástico.


As motivações que nos levam a escolher destinos, viagens, locais, são milhares. Vamos pela comida, pela natureza, pela cultura, pela diversão, vamos porque vamos. Apenas por ir.


Tudo o que fazemos depois adapta-se.


Tem sido assim as minhas viagens. Ao longo da vida.


Vou com um propósito. Tudo o que tenha que fazer extra propósito encaixa-se. Não é prioridade, tal como as pequenas pedras que se atravessam no caminho e que são chutadas a cada passada. Desaparecem.


Se bem se lembra mudei de religião.


São mudanças profundas.


Reflexões que dão lugar a comportamentos, atitudes que se refazem.


Esse processo em que alguma lógica se inverte é carregado de mudança. A quantidade não releva. Mudança, apenas.


Descobri, neste fim de semana no Douro, que manda a minha religião, colocar o prazer da corrida no topo das prioridades. Tudo o resto adapta-se. Inverter a lógica. A lógica tem sempre lógica e assim será.


No sábado - ontem - acordei cedo.


Às nove e meia estava a tomar o pequeno almoço. Uns ovos, pouco pão, um ou dois doces, pouca fruta, sumo, café, muito, sem açúcar. Água.


Adoro tomar o pequeno almoço nos hotéis, de calções, havaianas e t-shirt.


A sexta feira serviu para fazer a viagem desde Lisboa, descansar, aproveitar.


O Sábado tinha uma agenda definida, mas com espaço para fazer tudo o que tivesse que ser feito.


Já não consigo viajar sem o equipamento e os ténis, os phones e a bolsa. É obrigatório. Nem que a viagem seja de casa para a TVI...


Subi ao quarto e equipei-me.


Desci e comecei a correr.A música isola-me do mundo exterior. Tem efeito imediato. É ela que me ajuda a seguir viagem.


Saí pela esquerda, uma descida íngreme para começar. Óptimo. Gosto de descidas. Quanto mais alucinantes melhor embala.


Desço a rua, contorno o hotel pela esquerda, entro na pista.


Ao meu lado direito - finalmente - o Douro. O ar está fresco, os primeiros raios de sol começam a torná-lo mais e mais acolhedor. É sábado, mas parece uma daquelas manhãs de domingo que adoro.


O rio, as margens desenhadas em socalcos.E barcos que descem. Barcos que passam. Tudo é tão transitório.


Ao meu lado esquerdo as traseiras do hotel, primeiro, árvores, sombras, relva a seguir.


Até às pontes perto de um quilómetro escoltado pela beleza esmagadora das encostas, o embalar do rio e o verde ali ao lado.


Por baixo da primeira ponte uma curva à esquerda. Uma subida que obriga quase a ir a passo. Inesperada. Estava planificado um circuito mental para os meus seis quilómetros de sábado.


Correr em redor desta pista que do lado de cima mistura a estrada com a confusão da cidade e em baixo a natureza bela. Estado quase bruto.


Como se o hotel e tudo o que lhe seguia fosse um gigantesco quarteirão.


Do lado de cima a estrada, do lado de baixo a pista e o rio. Correr à volta.


Ao fim de cada volta uma descida e de novo ao fim uma subida. Há sempre que subir quando se desce e às vezes desce-se muito. As subidas tornam-se mais duras. Desafiantes.


Meia-dúzia de voltas. Subir, descer, estrada, plano, pista, rio, em círculos.


(Ainda passei depois pelo ginásio)


A minha corrida de sábado junto ao Douro fez parte do meu fim de semana de higiene mental. Foi a parte fundamental. O "momento".


Cruzei-me com pescadores de fim de semana, sentados na margem de cá. Gente que corria mais rápido do que eu, gente apenas a caminhar. Claro, gente com cães - porque raio esta gente acha que as pistas são para os cães - e crianças.


Risos, vozes altas, gente baixa. Baixinha.


Na parte de baixo do meu percurso de sábado, na pista, junto ao rio, bem a meio, havia um pequeno parque infantil. As crianças brincavam aí.


Ao longo da margem bancos em cimento.


Fiquei com aquela sensação que quando terminava a subida que começava por baixo da ponte e contornava a esquina para descer ao hotel para á em baixo voltar pelo mesmo caminho, os senhores da loja de rações já me conheciam.


Passei ali umas quatro ou cinco vezes. A confiança foi aumentando (rir, sff).


Enquanto corria, eles bebiam uma Mini matinal e fumavam um cigarro.


Falavam do Euromilhões, que em uma das vezes eu consegui escutar.


,Sempre que passava eles baixavam o tom e miravam-me como que a pensar "o que anda este maluco aqui a fazer às voltas?"


Às onze da manhã já estava completamente noutro patamar da minha existência.


Nada para perturbar o ambiente. Tudo perfeito. Alongamentos. Muitos. Novo.


Descanso. Leitura. Sol na varanda com vista para as Caves Sandeman, para o rio e para a pista.


O fim de semana estava apresentado: eu não tinha ido ao Douro e à Régua para ir fazer uma viagem no combóio histórico da CP.


Eu tinha idoao Doutro e à Régua porque aprendi a ter prazer em correr em sítios bonitos.


Essa é a viagem. A minha viagem. A partir de agora vou correr em sítios que escolho. A viagem vem depois.


Foi por isso que quando entrámos no combóio, depois de uma manhã tranquila, e fizemos a viagem até à estação do Tua, com paragem no Pinhão, me pareceu como que o "prémio de presença".


Eu já estava integrado com a paisagem, apesar de ser esmagadora. O tempo parecia ter parado.


Agora era uma de várias peças que se iam encaixando como elos de uma corrente.


Parado no tempo. O tempo parado em mim.


Uma carruagem carregada de história, gente vestida ao passado, cantando esganiçadas notas, acompanhadas pelo acordeão.


Porto Vintage, rebuçados de Lamego.


O vinhedo. As encostas. Tons amarelos e castanhos, verde e azul.


Parado no tempo.


A viagem. O regresso.


A minha companhia atirou: " vais provavelmente ao melhor restaurante onde alguma vez estiveste".


Normalmente ela não se engana. Tem gosto refinado. É uma mulher bonita. Gosto de mulheres bonitas.


Subimos as escadas. Atrás do balcão, um jovem.


À minha frente, um menino.


Nunca fui recebido num restaurante - em toda a minha vida - com tamanha delicadeza, simpatia, vontade.


"Mesa para dois? Junto à janela? Não sei se tenho, mas vou ver, por favor, queiram acompanhar-me. Afinal sim, uma mesa junto à janela. Tenham a bondade. Um excelente jantar".


A minha companhia atirou:
"Então..."


Fiquei ali, pasmado.


O Douro In é um dos melhores restaurantes onde alguma vez jantei. É um facto. E, este empregado é o melhor empregado de mesa que alguma vez me atendeu.


O dia correu tão suave, tão feliz, tão intimamente ligado, que tive que fazer alguma ginástica mental para não passar o jantar a observar aquele Cristiano Ronaldo das mesas.


Disse-o à minha companhia: " aquele empregado é um miúdo, não tem cara de adulto. Se for um miúdo é o Cristiano Ronaldo."


Disfarçadamente, enquanto os pimentos Padrón iam acompanhando os míscaros grelhados e alheira com cama de espargos, eu reparava na forma como ele abria as garrafas de vinho, o cuidado, a subtileza a servir. A mão atrás das costas.


O meu Pacheca Superior Branco estava deliciosa e estupidamente gelado.


Não resisti a perguntar a idade. Não a ele. Nem o nome.


A empregada que nos atendia parecia a Pipi das Meias Altas. Tinha o cabelo igual e a cara sardenta.


Perguntei a ela. A idade dele. Inspirava-me confiança. Ela, igualmente excelente.


"Dezasseis anos, está a estagiar", respondeu-me.


Fiquei abismado.


Um dia vamos ouvir falar deste puto da Régua, a quem não perguntei o nome. Acho que com esta idade pode trabalhar no melhor restaurante do mundo quando quiser. Será cobiçado pelos melhores, pago a peso Douro.


Uma viagem.


Estou de regresso à cidade das pedras no caminho. O Porto ficou lá atrás, no passado. Ao Douro hei-de voltar. As luzes na carruagem estão meio apagadas, acolhedora luz. Há silêncio.


Há quem durma. A Joana vai lá mais à frente, que coincidência, a Joana na mesma carruagem.


A minha companhia, de sempre, vai ao meu lado, como sempre.


Só ainda não a convenci a começar a correr, mas está quase.


É que há viagens que são irrepetíveis.


Correr é estar a viajar. É sair do lugar.


Vou desligar o computador e dormir um pouco.


De certeza que alguém em acorda quando eu chegar, desta viagem, desta corrida.


É que o combóio não pára em todas as estações. A vida também não.


 


 


 


 

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