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Rodas & Cia. iLtda. por Mafalda Ribeiro

por The Cat, em 14.06.15

 

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Foto by Cláudia Sampaio

 

s més fàcil quan els nostres no són només nostres. Quan el nostre somni és fer realitat el d'una altra persona, és sublim."

by Jaume Pradas

 

 

Um catalão. Uma portuguesa. Um sonho que era meu e passou a ser dele também. Duas pessoas no mesmo propósito. Dois dorsais que a correr foram um. Duas pernas. Cinco rodas. A mesma vontade. Um único abraço na mesma equação que dita: venha o que vier à nossa vida, o resultado é que jamais estaremos sós.

Ele correu e empurrou. Eu acho que o puxei com o meu sorriso. E o que aconteceu foi surpreendente…

 

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Foto by Cláudia Sampaio 

 

Antes de uma prova importante, há quem tenha rituais de concentração, o nosso é o silêncio de um abraço, feito oração:

“Obrigado!

Pela oportunidade de corrermos juntos. De sermos um. Ou melhor, de sermos três, Contigo a empurrar-nos aos dois.

Obrigado pelo sinal da partida e pelo caminho que vamos correr. Pela decisão, pela força de vontade, pela atitude e pelo que construímos juntos, para que esta corrida viesse a ser corrida.”

 E abraçámo-nos, ali. Eu, o Jaume Pradas e Deus.

Senti o mundo em suspenso atrás de nós. Esqueci-me que eram as minhas rodas que estavam a pisar o alcatrão e não os meus pés. Naquele momento, eu estava “de joelhos” no tal abraço.

 

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Foto by Cláudia Sampaio

 

Era o dia 10 de Maio de 2015.

Estávamos em plena Cidade Universitária, em Lisboa. Pouco mais de 3 km, era o que me separava da Maternidade Alfredo da Costa.

Lá, há precisamente 32 anos, neste mesmo dia, os médicos disseram, aquando do meu parto, que só um milagre me daria mais de três meses de vida.

É porque esse milagre aconteceu que a minha vida é um “obrigada” diário.

Aminha fragilidade extrema e a Osteogénese Imperfeita, responsável por quase uma centena de fraturas, diagnosticaram que eu nunca iria andar.

Mas o milagre (dentro da minha cabeça e do meu coração) aconteceu outra vez: eu ia correr…10 km!

 

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Foto by Cláudia Sampaio 

 

O Jaume e eu somos amigos há cerca de sete anos e já vivemos várias aventuras juntos.

Se esta não foi a maior, foi aquela em que me senti mais agradecida pela perfeição da nossa história.

Tudo começou à saída do cinema, no final do ano passado. Eu e o Jaume tínhamos acabado de assistir ao filme francês “Com Todas as Nossas Forças”, que conta a história de um pai que leva o filho com paralisia cerebral a fazer o "Ironman".

A história não é nova porque o argumento é baseado numa história verídica bem conhecida, só que americana, a de Dick e Rick Hoyt.

Quando o filme acabou, o Jaume disse-me: "o Ironman não consigo fazer, mas uma maratona sim. Se quiseres ir, eu empurro-te!".

Sinceramente, achei que ele estava a brincar. Mas não estava.

Depois foi uma viagem maravilhosa desde os treinos até ao dia da corrida, onde pude comprovar mais uma vez que no amor de um amigo, como ele, sou mais forte do que as evidências.

A forma como vivemos a vida nem sempre cabe na lógica humana; é uma decisão que anda de mãos dadas com aquilo que nos move aos dois: a fé!

Esta foi de facto uma corrida dentro de outra maior ainda, que corremos todos os dias, que é a corrida da vida.

Como está escrito na nossa espécie de “manual do corredor”, a Bíblia: “corramos com perseverança a corrida que nos está proposta, olhando fixamente para o Autor e Consumador da fé: Jesus” (Hebreus 12:1-2).

Acima de tudo, eu e o Jaume acreditamos que quando colocamos tudo o que somos ao serviço de algo que é muito maior do que nós próprios, então qualquer que seja o caminho, em que circunstância for, vale sempre a pena. Não é superstição nem religião, é relacionamento.

É desse relacionamento pessoal com o Criador da nossa existência que resulta a nossa amizade e cumplicidade. É algo que vem de dentro para fora e que só faz sentido quando partilhado com o mundo. Não sabemos nem queremos viver de outra maneira. Se eu tenho limitações, ele também tem as dele, mas ainda assim cremos que elas não podem limitar aquilo para o qual fomos chamados.

No meu caso, sei que as minhas rodas têm sempre companhia ilimitada!

Se eu podia aceitar correr com alguém atleticamente mais em forma, e que não precisasse de fazer metade do esforço que o Jaume fez, para se preparar para correr 10 km, com uma cadeira de rodas? Decididamente, não! É que isto vai muito além do acto de correr. Isto é um reflexo daquilo que somos quando nos abraçamos. É maior do que qualquer superação individual.

É um estilo de vida: auto motivamo-nos, motivamos um ao outro e assim motivamos os outros.

Se eu tive medo de fazer uma fractura ou cair da cadeira abaixo? Em momento algum isso foi sequer uma hipótese! A minha segurança não está apenas no Jaume mas na fonte da nossa própria motivação, portanto ser empurrada por ele a correr foi em tudo uma benção e nunca uma preocupação.

Cada um dos treinos que fizemos, em pisos diferentes, tempos diferentes, velocidades diferentes, graus de dificuldade diferentes e temperaturas diferentes, ajudaram-nos a ter uma noção, pouco e pouco, mais real do que poderia ser a prova.

Os apoios que recebemos para nos ajudar a concretizar esta “loucura” (a Mobilitec, a Monavie, a Processo Natural, a Adidas e a Soul Movies) foram como confirmações de que afinal não estávamos tão loucos assim. O incentivo dos que acompanharam de perto toda a nossa trajectória deu ainda mais corpo à força de vontade, à medida que nos aproximávamos desta mini maratona  Corrida da Saúde + Solidária.

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Foto by Cláudia Sampaio 

 

 Mas não me esqueço de um dia em particular em que andei às compras - qual atleta que se preze - com o Jaume, numa loja de desporto, e comprámos luvas para eu não me queimar, não fosse a adrenalina da parvoíce me dar para tocar nas rodas, a ferver do sol, em andamento.

Parecia uma criança com um brinquedo novo!

Senti-me como se estivesse a comprar um pedaço do equipamento para a minha primeira volta de bicicleta, que nunca fui capaz de dar.

Senti-me como se o vazio da minha vida de não desportista até então não tivesse importância alguma.

Senti-me como se aquelas luvas de alguma maneira me estivessem a calçar de um super poder qualquer como uma guerreira dos desenhos animados. Implodi o choro. Daqueles choros bons, do êxtase infantil misturado com a alegria da gratidão.

O Jaume também estava a comprar umas luvas… é que ele sim ia ter de colocar as mãos no guiador a ferver da minha cadeira de rodas para me empurrar. Ele era (também) a companhia ilimitada das minhas rodas. Aquele que foi escolhido para me fazer sentir, pela primeira vez em mais de três décadas de vida, o que é aquela coisa do vento a bater de frente na cara, enquanto corremos.  

 

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Foto by Cláudia Sampaio

 

Cortámos a meta aos 55:54 minutos, em pleno Estádio Universitário.

O Jaume Pradas bateu o seu próprio record, a correr sozinho, como nunca acontecera.

Risos, abraços, felicitações da família e amigos, solicitações para fotografias e entrevistas de desconhecidos também eles emocionados; e eu mal conseguia respirar.

Por estarmos, literalmente, atrelados um ao outro por uma corda, eu não conseguia ver o meu parceiro de corrida, mas sabia que ele continuava atrás de mim. Até que o ouvi a pedir às pessoas que desimpedissem o caminho e ele correu outra vez.

Continuávamos rodeados de gente mas conseguimos ficar por momentos sozinhos; para respirarmos, olharmos nos olhos um do outro que riam e choravam, ao mesmo tempo, e agradecer:

 

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Foto by Cláudia Sampaio 

 

“Obrigado!

Porque conseguimos correr juntos e em cada cada km a força renovou-se.   Enquanto um empurrou o outro puxou.

Obrigado pela chegada e pelo caminho que (per)corremos. O nosso maior troféu é podermos ser usados por Ti para mostrar aos outros que é possível correr a corrida da vida, independentemente dos obstáculos.”

Estávamos ali os três: Deus, o Jaume Pradas e eu.

E de novo o abraço.

A seguir, apaguei as primeiras velas dos 32 anos em pleno Estádio Universitário, com centenas de participantes da corrida a cantarem-me os parabéns.

Senti-me uma atleta nas emoções.

Apesar das rodas, eu estava ali a fazer aquilo.

Porque afinal a VIDA tinha subido ao pódio do primeiro lugar e levou a melhor!

 

"É mais fácil quando os nossos sonhos não são só nossos. Quando o nosso sonho é tornar real o sonho de uma outra pessoa, é maravilhoso."

by Jaume Pradas

 

 

 

 

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publicado às 22:51


4 comentários

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De Marta Colin a 14.06.2015 às 23:59

A Mafaldinha é uma força da Natureza e por ser quem é . é que tem os amigos verdadeiros que só ela conquista . As pessoas não são amigas dela por pena ou por isto ou por aquilo , mas são amigas dela pela pessoa , pela força e vontade de viver que ela transmite , deram-lhe 3 meses e ela continua aqui passados estes anos todos para as curvas e que assim continue por muitos e muitos anos.
Adorei o teu texto . Beijinhos.
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De The Cat a 17.06.2015 às 23:55

É uma pessoa inspiradora.
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De Melissa Lopes a 20.06.2015 às 00:12

Já cá não vinha há uns tempos... Mas que belo regresso ao "templo" do gato :)
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De The Cat a 23.06.2015 às 00:31

Foi um momento muito bom 😀

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