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REPARA BEM NO QUE NÃO DIGO

por The Cat, em 08.07.15

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“I have walked that long road to freedom. I have tried not to falter; I have made missteps along the way. But I have discovered the secret that after climbing a great hill, one only finds that there are many more hills to climb. I have taken a moment here to rest, to steal a view of the glorious vista that surrounds me, to look back on the distance I have come. But I can only rest for a moment, for with freedom come responsibilities, and I dare not linger, for my long walk is not ended.”

NELSON MANDELA

 

A liberdade é uma estrada sem fim.

Asfalto, areia, gravilha, montanhas, descidas, vertigens, sem fim.

Não tem fim a estrada da liberdade.

É sempre um caminho.

Mesmo quando um pedaço dela parte, ela não tem fim, apenas temos que continuar a percorrê-la.

E não temos que o fazer sózinhos. Podemos. É uma opção tomada em função de tantas variáveis.

Mas, uma opção. Livre.

Cada um caminha por essa estrada como melhor sente esse seu caminhar.

Todos falhamos aqui e ali. Todos damos passos a mais ou passos a menos.

As nossas opiniões, as nossas visões, as nossas atitudes, as nossas posturas, o que dizemos, como dizemos, o que fazemos, o que não fazemos, o que escolhemos, porque o fazemos, tudo isto passa por optar.

Escolher.

Eu escolho sempre a liberdade, em todos os momentos. Um exercício. Quantas vezes um desafio?

Traço várias vezes a linha da liberdade. Não creio que liberdade seja Babel.

Mas quem sou eu para estar aqui a dissertar sobre a liberdade.

 Infelizmente, para mim, não conheci Maria Barroso.

Ao longo destes 20 anos de televisão - dia 4 de Agosto passam 20 anos de TVI - estive talvez em duas ocasiões próximo de Maria Barroso.

Em cada uma dessas ocasiões, do que me recordo, ficou a forma como me lembro de a ter observado.

Havia nela o tom de mãe e de avó, mulher de família, aquele sorriso terno, aquelas rugas assumidas e cheias de histórias, tinha, depois, lembro-me, uma pose altiva mas humilde e discreta que não enevoava aquela espécie de luz em seu redor.

Lembro-me que vestia com um rigor admirável.

Duas ocasiões. A mesma pessoa. O mesmo registo.

Por força da minha profissão, ao longo dos anos e das horas, devo conhecer alguns - muitos - assuntos.

Não sublinho o grau de conhecimento. Tenho que os conhecer. Ponto.

Conheço eu e, seguramente, quem me está a ler neste momento.

Toda a internet está carregada -  e bem - de referências a Maria Barroso.

Não sei no que respeita às televisões e/ou às rádios. 

Há mais de uma semana que não vejo televisão e no carro ouço música, não por nada, também tenho direito a férias.

Mas não consigo viver desligado do mundo (dá para perceber).

As redes sociais são parte da minha rotina diária. 

Não vou, por isso, sobrecarregar com referências ao trajecto de vida de Maria Barroso, até porque não sou a pessoa mais indicada para o fazer. Conheço a sua vida pública, como qualquer pessoa, nada mais.

É obrigatório, se calhar raro, saber sobre a história recente da nossa sociedade, a portuguesa.

Por obrigação profissional, por gosto pessoal, porque vivi - e vivo - parte dessa história recente da nossa sociedade, tenho Maria Barroso como uma imagem que associo sempre à calma que a liberdade transmite.

Ela personifica-a. 

Não falemos da Grécia, da União Europeia, do FMI, do Passos, do Cavaco, do Portas, da Albuquerque, do "dissélblum", do "cherôdére" ( ai querem acordo ortográfico? então gramem estes neologismos criados agora mesmo por mim).

Não falemos do Tsipras (uso o artigo deliberadamente), da austeridade, da pobreza, da vergonha, da falta dela, das apostas com as vidas, não falemos disso.

Isso é o lixo que nos invade os olhos, a cabeça, por vezes até a alma. A alma. Mais vezes do que às vezes temos consciência. Mas é com ele que levamos. É com ele que vivemos.

Lixo na lógica das agências de notação financeira, obviamente.

Bastava-me desactivar as contas das redes sociais, qual acto masoquista, tão masoquista quanto participar e utilizar as redes sociais.

Não gramava com o lixo.

Uma nova forma de liberdade, as redes sociais e as suas notícias e alogaritmos, com princípio, meio e fim, como a liberdade que nos dão. 

Liberdade condicional, condicionada.

É de liberdade que vos falo, carago ( obrigado Porto por esta expressão e não só ), não é de coisas dessas que toda a gente fala, eu também.

Desta vez não é sobre essas coisas.

E, não é  sobre essas coisas, em primeiro lugar, porque dava espaço a abordagens diferentes da que estou a dar a este texto.

Em segundo lugar, as redes sociais têm espaços onde podemos trocar esse tipo de opiniões. São tantas, as opiniões. Os espaços também, felizmente. Para todos.

Não me compete avaliar cada lado da moeda. Por isso não o faço. Apenas mostro o meu lado dessa moeda.

E, tudo isto em liberdade. Condicionada, condicional. Como tudo.

Nasci de uma colheita do caraças. 

1969.

A minha vida tem sido toda ela assim; apanho sempre a última oportunidade, no limite.

Nasci no último ano da década que mais me fascina.

Não é sequer um contra-senso com o que escrevi em cima.

A anarquia estava naturalmente estruturada. Era a liberdade a nascer.

E eu nasci no último ano dessa década.

Só que entrei nesta coisa da liberdade, em ditadura.

Não estive preso, não fui torturado, não era sequer do Partido Comunista, não ouvia Beatles nem Janis Jopplin, não metia ácidos e não nadava nú no rio.

A liberdade chegou meses antes de fazer cinco anos.

O meu filho tem 15 anos. Não se lembra de coisas que aconteceram há 10 anos.

Eu tenho 45 - mas corpinho de 44 - e recordo-me de coisas que aconteceram há 42 anos.

O ser humano é ou não é uma máquina perfeita?

Nessa altura de ferro e quase fogo, Maria Barroso estaría com Mário Soares no exílio.

Confesso que não sei a história ao milímetro.

Fica o registo que estavam a lutar por uma liberdade que chegou, pé ante pé, pela calada da noite, qual vadia, vaidosa, charmosa e bela.

Anos mais tarde, bem depois dos GNR terem batido "Portugal na CEE", Mário Soares fez-lhes o favor.

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Junho de 1985, tinha eu começado a namorar com a minha mulher há uns seis meses - juro -, nesse dia Portugal assinou o tratado de adesão à Comunidade Económica Europeia.

Mário Soares era primeiro-ministro. Marido de Maria Barroso.

Ontem, Mário Soares viu partir a mulher que passou a vida a seu lado.

Tal como em 1985, também hoje Portugal atravessa uma grave crise financeira.

Não discutamos.

A Grécia também.

Não discutamos.

Maria Barroso estava ao lado do marido em ambas as ocasiões: quando ambos lutavam por esta liberdade, a mesma que encharca este texto, que é minha e de todos, mesmo de quem a condiciona e a tenta transformar em algo que não é incondicional.

Sim, a liberdade das redes sociais. Condicionada. Condicional.  A liberdade incondicional.

A estrada é longa.

Maria Barroso esteve na primeira fila da plateia, nos Jerónimos, quando o marido assinou o tratado que mais tarde deu origem à União Europeia.

Ambos personificavam mais liberdade, a liberdade de pensar, de direitos iguais, de harmonia, de prosperidade das sociedades, de felicidade das pessoas dessa Comunidade Económica Europeia.

É curioso, o nome inicial indicia austeridade. A mim, pelo menos. E, tem nada a ver com austeridade, nos seus pressupostos.

A União Europeia, esta, a que temos, indicia mais liberdade, a palavra União. A mim, pelo menos. E, nada tem a ver com liberdade, nos seus pressupostos.

Podem discutir, comentar, decidir a nossa vida comum, que tem no espelho a nossa vida indívidual, nas instituições, nas redes sociais, nos media, nos gadgets e nisso tudo.

A liberdade é do carago - o Porto cada vez mais no meu coração por esta palavra. Do carago!

Partiu um pedaço da nossa liberdade colectiva.

Partiu alguém com que estive apenas duas vezes e troquei quatro palavras: bom dia. São quatro, bom dia duas vezes.

Partiu alguém que me deixa sem mais um pedaço.

É assim que me sinto sempre que a liberdade parte por outra estrada.

É tão longa, esta.

E eu acho que a liberdade, condicionada e condicional é uma mágua sem reparo para quem por ela deu a vida.

Quem por ela viveu a vida.

Depois de subirmos à montanha mais alta, como diz Nelson Mandela, é que percebemos que há mais montanhas altas para subir.

É isso, a liberdade, a estrada que não tem fim. 

 

 

 

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publicado às 02:26



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