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QUE OUTUBRO TRAGA ABRIL

por The Cat, em 15.04.15

blogphotohoje.JPG

                                                                  (Foto by The cat) 

Sobre a Liberdade!

Ontem, depois de escrever o texto diário fui correr. Não foi logo depois.

Quando saí da televisão decidi ir até casa dormir um pouco. Assim fiz.

Acordei já a população residente estava a jantar. Equipei-me, apresentei desculpas e saí.

Precisava de passar na farmácia. Eu trato a gripe mal ela começa a dar sinais. A fórmula não falha ou raramente falha. Gengibre, dento de alho cru, Griponal, vitamina C em comprimidos e corrida.

A noite estava fresca, os gatos gostam de correr à noite.

Tinha apenas seis quilómetros para fazer. Dava para ir a farmácia, um pouco mais à frente, voltar e estava feito.

A app deu-me as instruções, que passei com a ajuda  da caneta para as costas das mãos, para não me esquecer, como faziamos na escola, com as cábulas.

Mil e 600 metros de aquecimento. Mil e 400 metros a ritmo acelerado. Quatrocentos metros lento. Mil e 200 rápidos e mais 1.200 de desaceleração. Seis mil metros.

Foi já no regresso que parei na farmácia, a única que estava de serviço lá para as minhas bandas, por volta das dez da noite.

Entrei transpirado, de calções, ténis e camisola fluorescentes. Já me conhecem, não se espantaram.

À minha frente entrou uma senhora, baixa, não propriamente em forma, todos os traços de sofrimento no rosto. Nem o olhar a desmentia.

Enquanto fazia tempo para ser atendido fui pesar-me. As balanças das farmácias provocam-me stress.

Percebi que ela estava a pagar. Dirigi-me para o balcão.

"Olha, querido, esse eu não levo agora, tenho o IRS para pagar, mas depois venho cá, sabes que não falho", disse ela a quem a atendia.

"Sabe que só posso guardar isto até ao fim de mês, depois tem que trazer outra receita", respondeu-lhe ele.

"Tem que ser assim, a gente trabalha e o que ganha é só para eles, para os importantes, vai tudo para eles" e olha-me de alto a baixo.

Reconheceu-me. Não é difícil, moro lá na terra há quase 13 anos. Senti que eu era um dos visados, um dos importantes.

Mas, não sou.

De todo. Nunca fui, nunca serei.

E, como a percebi, como a percebo.

Há quatro anos Portugal estava "falido", os "mercados" fecharam os cofres, houve eleições, abriu-se uma janela de esperança.

Fechou-se tão cedo!

Há quatro anos, falido, Portugal tinha gente feliz dentro, gente com trabalho, gente que podia comprar medicamentos, passar um fim de semana fora, jantar num restaurante. Com metade do que se paga agora enchia-se o depósito do carro. Os ordenados eram justos, as reformas eram justas, as pessoas era felizes.

O problema das pessoas são os divórcios.

As pessoas nunca casaram com a democracia nem com a liberdade. Juntaram-se, viveram em união de facto. Só dão pela sua falta quando já nada há a fazer. As mesmas pessoas que se demitem do seu maior direito, decidir. São elas a tal taxa de abstenção, as mesmas que são obrigadas a decidir entre pagar os impostos ou comprar um medicamento.

Há quatro anos Portugal era feliz. Um país feliz. Falido, mas feliz. Quatro anos depois Portugal não está falido.

Quatro anos depois, esta senhora, não levou o medicamento porque tinha o IRS para pagar, os jovens com menos de 18 anos ainda podem beber bebidas alcoólicas e perderem-se nas ruas, os hospitais são decalques vindos do Burundi, minuciosos, as escolas ensinam cada vez menos, a justiça protege declaradamente aqueles que têm poder e só esses, há mais desemprego, muito mais gente sem trabalho, muito mais pobreza e violência que ela leva consigo, milhares de lojas, empresas, fábricas falidas, gente sofredora, há menos de tudo, milhões de pessoas estão mais pobres, milhões de pessoas perderam empregos, muitos milhares foram para destinos do Terceiro Mundo à procura de melhor vida e, só este êxodo diz tudo, tudo o resto é palha. Estatísticas, discursos com caspa nos ombros e mau hálito nas palavras.

Portugal não está melhor, os portugueses não estão melhores, as contas não estão melhores, as dívidas não estão melhores, a saúde não está melhor, a justiça não está melhor, o ensino não está melhor, é tudo mentira, não há nada que esteja melhor, quatro anos depois, em Portugal.

Uma mulher sem dinheiro para medicamentos, porque tem que pagar o IRS, num país em sub-rendimento, com os impostos mais altos da Europa é um país que não teve um governo, que não foi sequer governado. Ponto. Ponto por ponto, porque basta multiplicar esta mulher, basta multiplicar as linhas deste texto.

Um país que teve à frente uma equipa que cumpriu em rigor as instruções dos DDT (Donos Disto Tudo), os donos da União (?).

Esta é uma excepção que abro na minha apatia crítica, escrever sobre o estado destas coisas, porque cada vez me custa mais ouvir os soundbites nas tv´s, todos os dias, todos, sem excepção.

Uma excepção, porque tenho pago aquilo que escrevo, na alma e nos ossos, a tal liberdade que existe mas, não existe para toda a gente, mas essas são histórias para outros tempos. Tempos que mereçam que elas sejam contadas e este ainda não é o tempo. A seu tempo!

Abro esta excepção, porque este blog é assumidamente o meu espaço, de opinião, a minha, individual, do cidadão José Gabriel Pereira Quaresma, não é o espaço de opinião do jornalista. Auto censura.

Apenas o prazer de escrever, sobre corrida e sobre a vida. Ainda não é o tempo...

O episódio que acabo de relatar é um episódio sobre a vida de alguém, num país que é este, um país que eu não construi, que não escolhi que fosse assim, um país do qual tenho vergonha e muita pena.

Falhei porque não lhe perguntei se queria que eu lhe pagasse o medicamento e ela pagava o IRS dela. Não o fiz.

Faltavam-me 3 quilómetros até chegar a casa.

Voltou a doer-me mais a alma que as pernas e quando assim é as coisas passam para o domínio do quase surreal.

Fui de raiva até casa, a correr.

Que Outubro traga de novo Abril.

 

 

 

 

 

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publicado às 18:39



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