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PERDI O MEDO DAS MEMÓRIAS

por The Cat, em 09.12.15

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As memórias não me largam e eu vivo nelas e com elas.

Quando me assaltam sou capaz de sorrir, sou capaz de me emocionar, por vezes fico deprimido. Também na corrida há algo de masoquismo, um pouco como nesta questão das memórias.

Quando corro canso-me, tenho dores de alma e de pernas, tenho memórias, tenho prazer, como nas memórias, elas dão-me prazer, mesmo quando me roubam o sorriso.

Estou a ficar velho, cada vez – por isso mesmo – com cada vez mais memórias. Já não deixo coisas por dizer e já não recuso o confronto, seja com quem for. Perdi o medo.

Aplico este princípio em tudo, na minha vida, no meu trabalho, nas minhas relações.

Perdi o medo. Só não perdi o medo delas.

Não perdi o medo das minhas memórias.

Quando me assaltam nunca sei como o farão e isso inquieta-me. Às vezes chegam sem se fazerem anunciar, como no Domingo passado.

 

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No Domingo resolvi ir comprar móveis e modificar a minha casa.

Uma maratona que demorou oito horas, a montagem dos móveis, bem menos – de longe – que o tempo que demorei a comprar os móveis que depois montei até às tantas da manhã.

Dizem que é o Lego dos adultos, na verdade aquilo é giro, mas cansa.

Domingo de manhã, antes de ir às compras, fui correr, e naturalmente, ao longo do dia as pernas estavam pesadas. Quatro móveis e duas mesas depois estavam elas, as pernas e eu de rastos, cansado, vá.

Por breves instantes atirei-me para o sofá da sala.

Comecei a admirá-la. Estava a ficar bonita, toda em tons de branco.

Inclinei a cabeça para olhar a estante atrás do sofá, para admirar os livros que lá tenho, tenho livros interessantes, alguns autografados, pelo Carlos do Carmo, pelo cartoonista António ou por José Mourinho – “para o meu amigo Gabi”, escreveu ele –, são, por isso, alguns exemplares que guardo religiosamente.

Estava a passar os olhos por eles, inclinado no braço do sofá.

O meu olhar percorria as prateleiras da estante, na horizontal. O meu olhar parou, repentinamente. Humedeceu.

Breves foram os segundos de silêncio, estranho silêncio.

“Auto-Retrato Do Escritor Enquanto Corredor De Fundo” – Haruki Murakami.

É um livro que em teoria não devia estar na minha estante.

É um livro que me marcou, que me ensinou muito sobre o acto de correr e de viver.

Um livro que me foi emprestado.

Um livro que tentei entregar em mão a quem me o emprestou.

Uma entrega que foi sendo adiada: “depois trazes e dás-me”.

Adiada eternamente.

Quando alguém parte e ficamos com as suas memórias conseguimos ser felizes ou tristes, conforme assim queremos.

Quando alguém parte e ficamos com um objecto físico pertencente a essa pessoa, a memória fica eternizada, viva, ali mesmo em frente aos meus olhos, na minha prateleira.

Materializei a memória.

Um dia hei-de devolver-te o livro, Vargas.

Sou um sacana com palavra.

Neste e no outro mundo.

Um dia.

Prometo.

Neste meio tempo vou tirá-lo da estante e vou reler vezes sem conta, até fartar, até matar as saudades.

Depois ele volta para a minha estante, até te o entregar.

É lá que ele agora pertence.

É na minha estante que te recordo todos os dias, a partir de agora. Basta olhar para trás, como fazemos com as memórias.

E tudo porque resolvi ir ao IKEA numa tarde de Domingo.

A sala ficou bonita, não ficou?

 

 

 

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publicado às 21:12



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