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OS REIS NAO MORREM AO DOMINGO

por The Cat, em 05.01.14


Hotel da Lapa, Lisboa.


Quinze de Março de 2003.


O Euro 2004 está a chegar e os patrocinadores lançam os trunfos para a mesa do jogo. Acções de charme junto de jornalistas de vários países, em vários países.


Passaram dez anos.


Há dez anos, o futebol ofereceu-me o momento mais mágico da minha carreira. Guardo-o a cores na memória.


No Hotel da Lapa, decorria uma acção, um evento para os media portugueses, uma promoção, vá, a troco de uma entrevista.


Uma acção organizada por uma marca de cartões de crédito.


As regras eram claras. Tudo muito organizado, profissional.


Cada orgão de comunicação social tinha um quarto de hora para fazer a entrevista, numa das suites do hotel, a dois homens.


Um brasileiro e um português.


Estavam lá todos os orgãos de comunicação social, nesse dia quinze de Março de 2003.


Um punhado de jornalistas estrangeiros, brasileiros, espanhóis, ingleses.


Hóspedes curiosos, na tentativa de perceber o que se estava a passar naquele recanto encantador da cidade.


O nosso quarto de hora, meu e do repórter de imagem, ia das três e um quarto ás três e meia da tarde. O tempo tinha que ser respeitado, tantas as entrevistas marcadas. A nossa era a primeira. Calhou!


Chegámos uma hora antes.


A rotina habitual, fazer o reconhecimento do terreno, estabelecer os contactos, mandar umas bocas, um café e mais um cigarro para matar o tempo.


Aproximava-se o momento.


Fomos encaminhados para a suite pelo director de comunicação da marca de cartões de crédito.


Entrámos na suite.


- "Dá-me licença..."


- " Olha quem é ele! Tás porreiro, Quaresma? "


- " Óptimo, e o King?"


Era assim que todos o tratavam também na intimidade. O Paulo Valente é que quase sempre lhe chamava Eusébio, mas o Paulo é a sombra de Eusébio, o grande amigo em todas as horas. O Paulo, não é deste filme. Foi ele quem me apresentou e aproximou Eusébio de mim, levando-me a intermináveis jantares ou almoços, a fantásticos jogos de futebol entre homens com barriga, torneios amadores em honra de Eusébio.


Conquistei-lhe a confiança, por causa do Paulo. Hoje, no funeral, vou dar-te aquele abraço e pedir desculpa por não ter atendido o telefone de madrugada.


Algo me impeliu a não o fazer. Havia naquele momento uma certeza em mim que quis recusar. Voltei a dormir. Desculpa, Paulo.


E, começámos na conversa, Eusébio e eu, numa suite do Hotel da Lapa, enquanto o outro entrevistado não chegava. As entrevistas era ao mesmo tempo, com os dois, para todos.


Falámos de bola. Ele, falou de bola. Eu, como habitualmente, quando nos encontrávamos, limitava-me a escutar.


Falámos de tanta coisa, em tão pouco tempo, e de Scolari também. Eusébio gostava de Scolari e Scolari gostava de Eusébio.


A conversa começava a ganhar sotaque brasileiro.


O director de comunicação do patrocinador estava a ficar impaciente. Só de conversa já iamos em uns deliciosos dez minutos.


Abre-se a porta da suite. Finalmente!


Eu e Eusébio estávamos sentados em dois cadeirões separados por uma mesa de centro.


Um cenário de entrevista, com o logótipo do patrocinador especado lá atrás.


Eusébio estava em linha recta com a porta. Sorriu e levantou-se.


Eu, rodei o tronco para trás. Pasmei e levantei-me.


Eusébio cumprimentou Pelé. Pelé abraçou Eusébio. Como irmãos. Foi o que senti naquele momento. E, hoje tenho a certeza.


Hoje, no dia em que o Rei morreu, Pelé disse: "lamento a morte do meu irmão".


Naquele dia lá atrás, naquele Março mágico, senti-me dentro de um filme sobre futebol. Um espectador interactivo, estupida e pasmadamente passivo.


Quieto. A ver no que dava. Pelé e Eusébio e eu. Numa suite de hotel.


- "Quem é esse amigo aí óh Eusébio?"


- "É o Quaresma, um amigo meu..."


- " Legau..."


- "Zé Gabriel Quaresma, que prazer, obrigado, Pelé..."


- " Senta aí, Quaresma..."


O director de comunicação do patrocinador estava à beira de uma apoplexia. Rubro. Olhos arregalados, ao mesmo tempo, assustadoramente esbogalhados.


Estava (ele) impotente. Sem coragem para interromper aqueles dois seres extra-terrestres. Eu também não tinha a coragem que lhe faltava. Era um espectador activamente passivo. Impaciente para entrar na conversa, mas já envolvido nela porque era a três. Assustado.


A minha cadeira de sonho estava, naquele momento, ocupada por um rei. A outra por outro. E eu ali!


- " Quaresma ", diz-me Pelé, enquanto roda a cabeça para a esquerda ( os reis estavam sentados quase lado a lado e eu estava de pé, entre os dois):


- "Você sabe quem foi o melhor jogador de sempre?"


O director de comunicação olha para mim e deixa escapar um sorriso denunciado. Agora quero ver como te safas, li-lhe no sorriso.


- " O melhor de sempre...Pelé, não consigo dar-lhe uma resposta..." (tremia que nem varas verdes mas não dava parte fraca. Eu!)


- " Consegue...eu, Eusébio ou Maradona?"


Quase deixei escapar aquele que para mim foi o melhor de todos os tempos, Maradona. Mas, consegui fazer um túnel a Pelé e saí a jogar, aflito.


- " Não posso, Pelé..."


Eu ajudo, diz Eusébio:


- " Foi o Pelé."


O brasileiro "irmão" de Eusébio olhou-me de novo, mostrou aqueles dentes brancos quando me sorriu e rematou:


- " O meu irmão é safado. Fui nada, Quaresma, foi esse aí. Esse é o melhor de todos."


Estou safo, pensei.


O director de comunicação voltava a picos de stress nunca antes vistos naquela suite do Hotel da Lapa.


A ronda de entrevistas ainda não tinha começado e já o nosso quarto de hora tinha ido à vida.


- "Bom, meus senhores, vamos começar?"


Respondem-me os dois que sim e quase em simultâneo...


- " Quaresma...o melhor de todos foi o Maradona".


Não acredito, pensei de mim para comigo, em pânico, sem perceber se estavam a gozar comigo ou a falar a sério.


- " A sério?"


Queria ter a certeza do que tinha acabado de ouvir.


Estava confirmado. Para os Reis o Rei era outro.


Estava tudo pronto para a entrevista.


Um momento único na vida de um jornalista de desporto, na vida de alguém que ama a bola. Pelé e Eusébio, lado-a-lado, ali, junto a mim.


- " King, posso pedir-lhe um favor?"


Eusébio acena afirmativamente.


- " O Carmona podia vir aqui tirar uma foto, não me parece que eu consiga estar mais uma vez consigo e com o Pelé juntos. Já perdemos tanto tempo que não era por mais um minuto..."


- " Vai lá chamar o Carmona".


Jorge Carmona é fotojornalista. Meu amigo, grande camarada, gente boa, que conheço há uns vinte anos. Um doido saudável.


Levei o Carmona a reboque até à suite. Corria contra o tempo e contra a vaga de irritabilidade que o atraso podia estar, eventualmente, a criar nos meus colegas. Mas tinha que arriscar.


A nossa entrevista de quinze minutos ia durar uma meia hora. Era um atraso desculpável. No fundo foram Pelé e Eusébio quem gastou a maior parte do tempo, à conversa. Eu limitei-me  ouvir. A escutar. Foi Pelé quem se atrasou. Foi Eusébio quem me deixou ir chamar o Carmona. É o Carmona que está a querer fazer arte, enquanto o tempo voa. Não faz click! Não me preguem na cruz, que eu sou pequenino.


- " Só mais uma...King...Pelé...Zé..." Click! Flash!


Ainda não estava tudo. Agora era a vez de eu fotografar o Carmona, de pé, entre Pelé e Eusébio, sentados em dois cadeirões separados por uma mesa de centro.


Deste dia quinze de Março de 2003 recordo-me como se fosse hoje.


No tempo, perdi o rasto ao dia em que, sem querer, apaguei a pasta onde estava a minha fotografia entre os Reis, que o Carmona me tirou.


Quis perder-lhe o rasto, a esse dia, muito mais hoje. Hoje, cinco de Janeiro de 2013.


O dia em que o Rei morreu!


E, a ti, Carmona, só te desculpo, por teres perdido o rasto aos teus arquivos, porque se não fosses tu esta história ficava como a fotografia que a acompanha, incompleta.


Falto eu, ali ao meio. Eu, que nunca de lá saí.


Não era esta a crónica que eu queria ter escrito. A primeira crónica deste espaço de afectos.


Eusébio morreu hoje.


Pelé lamentou a morte do "irmão" e eu sou testemunha.


 


 


 

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