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OS PROFETAS DA DESGRAÇA

por The Cat, em 16.01.14

Um dia, num Verão "quente", já perdido nos tempos, no Estádio da luz ( no antigo ), quando cheguei com o Gonçalo Prego, para avaliar quão quente ia esse Verão, fomos recebidos por uma verdadeira guarda de honra.


Centenas de adeptos aglomeravam-se em frente à porta principal do estádio. O treinador estava prestes a ser despedido.


Quando cheguei, juntamente com o Gonçalo ( o cameramen ), fomos obrigados a passar por essa guarda de honra de sócios e adeptos que "espumavam" pela boca, ávidos de encontrar um culpado: nós, os que por ali apareceram.


Do meio da multidão surgiu uma frase que até hoje mantenho clara na minha cabeça: "Aí estão os profetas da desgraça".


Vem isto a propósito do suicídio de um menino, em Braga.


Vem isto a propósito de um "mea-culpa".


Não pretendo ser o "moralizador de serviço", até porque também eu pequei. Cometi um erro. E, é por mim que falo, apesar de todos os orgão de comunicação social terem cometido o mesmo erro.


Os profetas da desgraça!


Por vezes é isso que somos!


Não acho, no entanto, que sejamos tanto assim. Acho até que se não fosse os jornalistas a desgraça era maior.


Tenho orgulho, respeito e adoração pela minha profissão. Puno-me mais ainda, por isso.


O menino de Braga, humilhado na escola, terá colocado fim à vida. Deixou de aguentar tamanha humilhação.


Quinze anos de vida.


O meu filho fez este mês catorze. Podia ter sido ele. O meu ou o de qualquer um de nós. E, até disso nos esquecemos. Até ontem.


Mostrámos a cara, divulgámos o nome, violámos e violentámos.


Pela minha parte, involuntariamente, até ter sido alertado para o facto. Penso que pela parte de todos os outros também. 


Fomos descuidados. Imprudentes.


Era um menino. Não devia ter morrido menino. As almas bonitas não devem partir cedo.


Menor de idade, e por isso, objecto de proteção legal especial em termos de direitos fundamentais.


Citar o nome dele - uma vez que tal significa identificá-lo, situação que deve ser evitada em relação a menores de idade e em situações de fragilidade ( óbvias, neste caso, para a família), foi um erro. Generalizado. Eu, cometi-o!
Não creio que algum de nós o tenha feito deliberadamente.


Talvez, fruto da "velocidade" a que corre a informação. Um descuido. Sobretudo, um tocar de campaínhas dentro das nossas/minha consciências.


Se algum camarada meu não o fez, peço que não se identifique com o que acabo de escrever.


Hoje, depois de reflectir, peço perdão, enquanto jornalista, aos pais, aos amigos, à família do menino. 


Ontem, enquanto apresentava notícias revelei o nome, em todas elas. Alguém me alertou para o facto. Baqueei. Irritei-me comigo. Até hoje. Até agora.


O meu perdão não repõe a serenidade nem acalma os corações daqueles que perderam um menino. Quinze anos. Um menino. Nenhum menino deve morrer menino. 


Hoje, ontem, sem que o tenha feito de propósito, senti-me um "Profeta da Desgraça", por não cuidar dos outros, por ter falhado na minha profissão, na minha missão.


Podia ter sido o meu menino. Bastava pensar nisso, porra!


ZGQ

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publicado às 17:37



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