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PHOTOBLOG

 Os gatos que correm à noite são todos pardos. Eu gosto de correr ao fim do dia, mas adoro correr noite dentro. Sou pardo, faço o quê?

Ninguém é perfeito. Por isso fui correr de manhã. Só para ser do contra. De manhã só na caminha. Custa-me. A transição do aconchegante para o chão real, custa-me.

Não me posso queixar da minha relação, no último ano, com o descanso, com o sono. Não ando cansado. Durmo o que quero. E gosto de correr em datas singulares. Corro quase todos os dias, mas a Páscoa, o Natal, o aniversário, não escapam. É raro acordar bem disposto - porque se calhar durmo com fusos horários constantemente trocados -, não foi o caso nesta sexta-feira santa.

 

Tinha tempo para correr, preparar-me e ir trabalhar, que feriado não é quando um homem quiser. A app dizia-me que devia correr oito quilómetros, seis quilómetros e meio a um ritmo confortável e um quilómetro e seiscentos a um ritmo mais acelerado. Não percebo os cem metros a mais. Era música para os meus gémeos. Decidi caminhar. Oito quilómetros a caminhar.

Nunca tinha caminhado assim, à séria.

Bem dito bem feito. Ando há três semanas para aparar a barba. Sempre que lá vou nada feito. A culpa é minha, nunca telefono a marcar.

Saí de casa direito ao local do crime. São uns dois quilómetros. Mal me fiz a estrada, a caminhar, já me saltavam estrelinhas na cabeça: aqueces nesses dois quilómetros, aparas a barba e fazes o resto como deve ser.

De imediato o diabo pequeno, pousado no meu ombro esquerdo se apressa a dizer:

- Não vás nisso. Faz os oito a caminhar. Amanhã - hoje - tens 19 para fazer. Relaxa. Estás com as pernas todas amolgadas.

Fiz os primeiros dois a caminhar, berma da estrada fora.

- Bom dia, já vi que não é desta?!

- É difícil, tenho este senhor, depois estes dois rapazes, só lá por volta da uma.

- Isso já não dá, vou trabalhar por volta dessa hora. Depois passo outra vez por cá.

Achei piada às pessoas que entravam e saíam da superfície comercial, numa manhã santa de sexta feira. Não propriamente ao que faziam, mas aos olhares que me dedicavam enquanto contornava, correndo, o perímetro do parque de estacionamento até à saída. Mais uns trezentos metros. Estava quase nos três quilómetros, ainda me faltavam uns cinco e com a barba por aparar. Podia ter ido de carro.

Sou mesmo pardo.

 

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publicado às 10:30



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