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ORDEM DE PRISÃO

por The Cat, em 30.04.15

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Devo começar com um pedido de desculpas.

Depois de ter criado uma regularidade, no que aos posts diz respeito, nas duas últimas semanas a periodicidade em termos de produção caiu. Reconheço.

Mas tudo tem uma explicação.

Esta vida de marinheiro não é fácil.

Falei no último texto de uma base naval imaginária, onde corro, normalmente e, curiosamente, ontem mesmo estive numa base naval, real, mas não corri. Tinha corrido de manhã. Azar.

Escrever com regularidade exige tempo. A regularidade cria adição por parte de quem lê, porque gosta. É para me lerem que escrevo, por isso prometo voltar à regularidade a partir de hoje.

Estamos sempre a aprender, eu estou a aprender a encaixar-me nesta nova realidade.

Quando decidi manter este blog fi-lo pensando no seu crescimento, dentro do seu próprio tempo.

Eu sou jornalista, trabalho na televisão, na televisão à séria, a pressão é imensa, no meu caso tenho horários que me obrigam a sofrer de algum jet lag, próprio de viagens aeronáuticas meio alucinadas. Isso tira-me tempo.

Por isso, continuo a correr todos os dias mas,  por isso, abrandei a escrita.

Ainda na sexta feira passada estava num horário, que sería o meu horário no próximo mês. Isto foi durante o dia. Ao fim do dia entregaram-me a gestão, planificação e execução da edição 2015 da Volvo Ocean Race.

Hoje foi tornado público, posso anunciar, a TVI e a TVI24 são as estações de televisão oficiais da maior regata do mundo.

Isso tirou-me tempo para escrever, apanhou-me na curva.

Desde sábado que tive que reagir.

Desde segunda feira que estou no terreno.

Antes, pesquisa, reuniões, troca de informação.

Esta vida de marinheiro não é fácil. Eu disse.

Ora, deixei de ter horário fixo até dia 7 de Junho.

Dia 13 vou de viagem até aos Estados Unidos e regresso a 18, precisamente o dia em que a TVI começa a emitir o Jornal da Regata - Volvo Ocean Race, diariamente.

O objectivo é deixar sete episódios prontos, até dia 12 deste mês em que estamos a entrar, para garantir que se cumprem os timings.

Esta semana estive no terreno a recolher material. Para a semana visiono as horas de filmagens e entrevistas. Começo a escrever 21 peças (histórias). Alinho sete programas. Entrego na edição de imagem. E fui.

Depois volto e a saga continua.

Eu tenho um acordo com os santinhos, eles não fazem tv e eu não faço milagres. E não dou borlas.

Portanto, desde segunda até hoje não parei um bocado, nem para escrever aqui. Até hoje.

Acho que tenho desculpa.

E porquê a base naval?

No último post, há dois dias (http://thecatrun.blogs.sapo.pt/corredor-quase-marinheiro-de-guerra-25249 ) contei que no sítio onde costumo correr há um pedaço de trajecto que atravessa umas instalações militares da Marinha.

Aquela passagem remete-me para uma base naval, não sei bem onde, mas no Sul.

Foi há dois dias que escrevi esse texto.

dia depois, de acordo com a minha planificação, precisava de ouvir dois especialistas da Marinha de Guerra portuguesa.

A Marinha portuguesa, tal como a Força Aérea, menos, o Exército, está cada vez mais aberta, a mostrar-se às pessoas. Serviço público.

No caminho das casualidades, um dia depois de escrever sobre a minha base naval imaginária, dei comigo numa base naval real.

Também dei comigo a pensar que, aos 45 anos e com 22 de carteira profissional de jornalista, nunca tinha estado numa base naval real.

Fomos recebidos pela tenente Natacha e encaminhados para o Creoula, um dos navios emblemáticos da frota portuguesa.

À nossa espera parte da guarnição. Rituais que são quotidianos. Continência, autorização, entrámos.

O comandante Cruz Martins tem cara de actor de Hollywood, anos setenta. Traços bem vincados. Pele obscenamente morena. Voz pausada, ritmo tranquilo, volume baixo. Um galã.

- "Aceitam um café?"

Aceitámos.

Eu fui militar. Sei que os militares gostam de briefings. Cumprem-nos, em rigor, como os rituais do respeito, solidariedade e honra. Gostam das coisas explícitas e organizadas.

Devo dizer que o navio Creoula é um navio antigo, chão em madeira ( disse-me o comandante que o melhor para manter a madeira saudável é a água do mar ), cordas, roda do leme, varões dourados. Velas e mastros enormes.

Descemos umas escadas e fomos desaguar numa pequena sala oval.

Ao longo da parede redonda uns sofás e ao centro uma mesa, também ela redonda, em madeira trabalhada.

Eu não via o Portugal há mais de 15 anos. O Portugal, não façamos confusões.

É, quando me aparece pela frente o comandante do navio escola Sagres, o comandante Alcobia.

Quando troquei emails com o departamento de relações públicas da Marinha fiquei com a pulga atrás da orelha. Eu sabia que o Paulo Portugal tinha sido comandante da Sagres, não estava certo que continuasse. Não nos via-mos há muito muito tempo. Mais de uma década. Muito mais do que isso.

Alcobia, dizia-me nada.

O abraço foi como antigamente. O sorriso também. A voz, pausada - deve ser predicado dos comandantes da Marinha de Guerra - a imagem afável.

Fiquei meio atrapalhado.

Eu, o João Paulo Delgado, o repórter de imagem, a tenente Natacha, a médica naval Filipa Albergaria o comandante Cruz Martins e o comandante Alcobia Portugal.

- " Peço desculpa" (disse a rir) "neste momento não sei como me devo dirigir ao comandante Alcobia..."

Não me recordo o que decidimos, todos falámos quase ao mesmo tempo, do género:

- "Portugal."

- "Comandante."

- "Paulo."

- "Alcobia é que não", disse eu.

Estava quebrado o gelo.

Eu estava numa base naval, pela primeira vez, com o meu amigo de infância, que eu tinha perdido nas marés dos oceanos, comandante da Sagres.

Porra, não é qualquer um que chega a comandante da Sagres.

E, é isto que a minha profissão tem de muito bom, permite-me rever e conhecer gente, que admiro e permite-me aprender.

Gastámos dois terços da conversa a falar de nós, das famílias, dos filhos, das carreiras. A inteligência do Paulo Portugal permitiu incluir no diálogo, em alguns momentos, o resto dos nossos acompanhantes, em redor daquela mesa redonda.

Era hora de trabalhar.

Entrevistei o comandante do Creoula, sobre preparação psicológica de homens para longas travessias oceânicas - pode ver depois no Jornal da Regata -, de seguida o comandante da Sagres, falámos sobre o paralelismo entre as rotas dos descobridores e as rotas da Volvo Ocean Race.

Por fim, a médica naval, Filipa Albergaria, sobre como se trata da saúde de alguém em alto mar, em situações de emergência.

Fiquei encantado com tanta sabedoria.

Quando estou junto de pessoas com relevo na sociedade, adapto-me ao seu registo. Sou meio camaleónico. No entanto, não abdico de ser eu, muito menos quando estou junto de amigos.

Separo as águas, como os marinheiros mas deixo sempre qualquer coisa de mim. Sou assim.

Antes de partir aproveitámos todos os momentos para conversar. Eu e o Paulo.

Ele explicou-me como enfrentam as tempestades e as ondas gigantescas, como decidem se enfrentam um furacão ou o contornam, como calculam as rotas, falou-me de todo o protocolo e agenda que a Sagres tem que cumprir, as contas que se fazem aos ventos e às marés, para se estar na hora certa, no local determinado.

Falou-me da vida. Foi pai um pouco fora de timing.

Trocámos números de telemóvel e prometemos manter o contacto.

A Sagres está há seis meses em doca seca a reparar. Daqui a dias ele vai tirá-la de lá. O meu amigo Portugal, o comandante Alcobia Portugal.

Começam então os preparativos para mais uma viagem, até aos Estados Unidos. Curioso, também eu vou para lá.

Antes, a Sagres fica fundeada umas horas, na zona da Volvo Ocean Race, para partir rumo ao outro lado.

Matei saudades, recolhi material para três reportagens, visitei uma base naval e um navio carismático, reencontrei o meu amigo de sempre e estive com pessoas extremamente interessantes.

Há coisas que nunca mudam.

Entrámos, eu e o João Paulo, dentro do carro de reportagem.

A tenente Natacha entrou no carro da Marinha, onde o motorista a aguardava e, o Portugal começou a caminhar.

- "Senhor comandante quer boleia?

- "Não, o meu carro está ali, vou a caminhar. Obrigado."

E foi.

Mãos nos bolsos, fato preto, galões dourados, chapéu de oficial superior, branco, comandante com sentido de missão, ao contrário de outros comandantes.

Caminhava, cambaleando muito lentamente, compassado, como as ondas que contorna ao leme do navio, como aquelas ondas das histórias que me contou. Caminhar à comandante.

Mas, há coisas que nunca mudam.

Ontem não corri. Aquilo era uma base naval real.

Ainda o Paulo me dava ordem de prisão. Livra.

 

 

 

 

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publicado às 22:36



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