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O Natal chegou mais cedo.

No fim de Novembro, o mês que acabou agora mesmo,  já havia árvores de Natal nas casas das pessoas. Há aqui algo perverso, envolto em afecto.

Antecipa-se o afecto, mas o afecto, este que é especial, o afecto tem data marcada.

A julgar por isto perspectivei o que estaría para vir.

No fim de semana fui comprar umas coisas que me faltavam lá em casa, uns sumos, fiambre, coisas menores que os pequenos-almoços não dispensam.

Encontrei um lugar para estacionar. Um único lugar.

Não me pareceu que os lugares para deficientes estivesse ocupados com carros de deficientes o que me levou a questionar-me sobre a deficiência.

A deficiência de carácter que muitos não sabem o significado e muito poucos a usam como exemplo. Mais à frente falarei de um desses exemplos.

As caixas estavam todas a funcionar.

As filas, aquela hora do dia, eram inenarráveis. Sábado, uma e meia da tarde - devia estar toda a gente a almoçar.

Entende-se, faz-se a árvore de natal antecipadamente, compram-se os presentes antecipadamente, começa a comemorar-se o Natal fora da época, para atalhar caminho, confusões e discussões entre pais e filhos.

Estes dez parágrafos não são críticos, cada qual faz o que quer com o seu tempo, com os seus afectos. São factos e factos às vezes soam a crítica.

As pessoas, admito estar enganado, muitas vezes me engano e imensas vezes tenho dúvidas, passam ao lado do afecto.

Palavra começada com A, de amor, de amigo, de amizade, de alegria, de amanhã e de outras mais.

Deixam que o afecto seja substituído pelas filas nas caixas registadoras e nas bancas onde o papel de embrulho é o mesmo, mas de graça, e as fitas só têm duas cores, mas não se pagam. Não acredito que haja afecto e carácter dentro das grandes superfícies comerciais, a não ser quando a senhora da caixa ao lado diz com voz veemente:

- Queriam dirigir-se à caixa ao lado, pela mesma ordem!

As filas também continuavam para embrulhar os presentes.

Nestas situações costumo sorrir, enquanto ouço música e aguardo pela minha vez.

Paguei o pão, os sumos, os iogurtes, o leite e o fiambre e saí dali. Passei a porta da grande superfície. Saí de uma montanha-russa sem igual e regressei ao meu próprio planeta. Tenho um só para mim, às vezes mais do que um.

Eu, consumista me confesso! Paradoxo, contradição? Nem de perto.

Consumo sim, mas em horas mortas, a meio da semana e do dia, quando está (quase) tudo a trabalhar.

Recuso-me a entrar para o meio de uma multidão enlouquecida - qual Black Friday natalícia, a não ser que tenha que comprar 400 gramas de fiambre, ou assim.

E, foi a comer uma bela sandocha de fiambre que fui acompanhando o combate do meu “irmão” Adelino, em Paris, dias depois dos atentados do dia dos meus anos (13/11).

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Adelino foi “jogar” ( no Muay Thai não usamos a palavra lutar) contra uma das maiores estrelas francesas de Muay Thai.

Cyril Benzaquen passa modelos de Jean Paul-Gaultier, dá entrevistas no Canal Plus, no France 3, nos programas sobre Muay Thai, é seguido pelas rádios especializadas e por uma multidão que não enche hipermercados, mas enche universidades, pavilhões, teatros, para o ver combater (jogar).

Cyril é o “pretty boy” parisiense.

Cyril derrotou o Adelino, aos pontos, num dos grandes palcos europeus e ficou com o cinto de campeão do mundo para ele.

Só que o  Muay Thai é um dos desportos com mais fairplay que conheço. Tive - de novo - essa prova na segunda-feira passada.

O campeão do mundo, com o cinto ainda a cheirar a fresco, foi até ao meu Facebook e colocou um like em uma foto que publiquei.

Nessa foto eu contava o meu orgulho em treinar todos os dias com o Adelino, na nossa escola, o orgulho nos ensinamentos e no trabalho, digo sempre e não me caso: nós trabalhamos muito, com M grande. O orgulho que eu tinha nele, enquanto meu amigo.

Cyril, a estrela, o campeão, não tinha que o fazer, mas fez;  colocou o like na fotografia e eu enviei-lhe uma mensagem.

Pedi desculpa por ser em inglês. Agradeci-lhe a gentileza e o fairplay e dei-lhe os parabéns pelo título mundial e pela brilhante carreira.

França é a segunda "pátria" do Muay Thai, a seguir à Tailândia.

Cyril é uma estrela brilhante e um brilhante lutador.

Respondeu-me segundos depois da minha mensagem, dizendo que o que eu lhe escrevi reflecte o espírito do Muay Thai, sublinhando que teve imenso prazer de jogar contra o Adelino, que considera ser um fantástico atleta e desejou-me/nos felicidades e boa sorte: Chok Dee!

Ontem fomos falar sobre a esta nossa paixão à RTP - África, eu, o mestre Zé Fortes e o Adelino Boamorte. Não falámos no Cyril, mas não esquecemos que um campeão não é aquele que conquista o título. Um campeão é aquele que o sabe valorizar, valorizando os outros, por muito que brilhe a sua estrela.

Também aqui, como no hipermercado, antecipa-se o afecto, este afecto que é especial, que está apenas ao alcance de alguns poucos, porque os outros detêm-se nas longas filas do hipermercado que é a vida.

Na vida abrem quase nenhumas caixas, ao lado, para que se possam encaminhar pela mesma ordem. 

E o respeito. Longe das multidões.

O respeito, essa palavra que repito em quase todos os meus textos, em todos os meus dias.

Respeito por cada um de nós, respeito pelos outros. E afecto. Gosto dos afectos, menos os afectos plastificados, por papel de embrulho de Natal, gratuito. O papel e o Natal.

Neste meio tempo terminei a minha sandocha de fiambre, e que bem que me soube.

Agora tenho que ir comprar os presentes de Natal, mas longe das multidões.

Não acredito que o Cyril estacione o carro no lugar dos deficientes. Isso não.

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publicado às 12:23



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