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Ontem falhei a minha primeira corrida.

Era a terceira vez que ia correr o Grande Prémio da Lezíria – 15,5 quilómetros -, mas pela primeira vez não cumpri o objectivo. Nem sequer apareci.

Passei a noite de sábado a acordar, inquieto, mal-estar, sem conseguir dormir. Pela manhã não consegui, não estava em condições. Isto nunca me tinha acontecido.

Pus-me a reflectir sobre o que, na verdade, se está a passar comigo e a conclusão não foi difícil.

Bastou lembrar-me que já marquei consulta para um especialista. É isso que me está a acontecer.

O stress a intrometer-se na parte emocional e física. Chegado ao ponto de confronto e decisão.

Cais ou segues, vives ou sobrevives, és feliz ou és só isso que és.

Afecta.

Não fui correr porque passei mal a noite, tenho passado mal as noites, porque as coisas não correm como pretendo,  mas eu continuo a correr.

Daqui a pouco vou correr os mesmos 15,5 quilómetros, mas sózinho, sem toda aquela festa pelo meio.

Falhei a prova, mas hoje não falho a corrida.

Consigo agora admirar, ainda mais, aqueles que quando não têm vontade de fazer exercício se levantam e vão. Por muitas amarras que os puxem para baixo, eles vão. São esses que eu sigo, não os outros. Os outros são banais e não gosto do banal. Sigo os enormes.

Só que, comigo acontece um fenómeno estranho, que terá explicação, mas para o qual ainda não me dei ao trabalho de a encontrar. Um dia...

Quando as coisas não me correm bem na vida, o corpo não me obdece.

Tenho que me tornar ditador e obrigá-lo a cumprir as minhas próprias ordens.

É que (durante) depois do treino viajo no paraíso, mas até aquela altura de mudar de roupa tudo custa muito.

Diz-me a cabeça: veste-te a vai, diz o corpo, não vás, fecha-te no quarto e descansa.

Uma dualidade imposta, que me testa e às minhas forças e fraquezas.

Também não me custa a admitir que se não fosse o exercício – para quem me pergunta constantemente, sim, continuo a correr todos os dias, mesmo quando treino Muay Thai, apenas deixei de escrever e de expôr as corridas, como fazia, mas continuo a correr, sempre – já teria entrado naquele estado que os especialistas chamam “Burn Out”.

Apesar da falta de vontade que me assombra, ainda mais que os fantasmas de carne e osso, que me rodeiam.

Não tinha que ser assim.

O ano de 2016, aparentemente redondo, logo simpático, logo prometedor, começou como uma verdadeira besta-negra.

Morreu-me alguém querido, alguém querido tem andado regularmente no hospital, profissionalmente atravesso a pior fase de sempre, em 22 anos de profissão, o que me levou a começar a ponderar uma radical mudança de vida.

Ela começou.

A máquina é gigante, lá dentro a pressão é muita, a verdade pouca, cá fora, mas a pele dura começa a abrir gretas fundas, a clarividência começa a misturar-se com vontades nunca antes pensadas, a vida aumenta as R.P.M. e evitar que entre em roda livre é o único objectivo.

Mas, não quero mais. Isso eu sei. Isso eu decidi. Ponto final.

O ano já vai com três meses.

O tal ano que se previa redondinho e simpático, mas que tem trazido tudo o que de pior existe.

Há três meses engoli, uma-a-uma, doze passas foram, para nada. E eu não gosto nem de passas nem de champanhe nem de gente sem carácter. As passas ainda as engulo, o champanhe também.

O resto, cuspo para o chão.

O tipo que inventou a coisa das 12 passas devia estar passado, e ser passado, a ferro.

Aquilo não resulta.

Já no outro ano não as comi, para testar, e tive um ano excelente, agora voltei a comê-las e é o que se vê.

Pedi para não me morrer ninguém, e morreu.

Pedi para haver saúde para todos os que me rodeiam, e não há.

Pedi para a minha situação profissional se manter como estava, não se manteve, piorou como nunca e melhoras não terá.

Pedi para tudo ficar igual, e não ficou, por isso vou mudar tudo e eu também. Assim que possa.

Vale-me a parte do dinheiro (é feio falar de dinheiro, em público).

Não abunda, mas não tem faltado, até ver, porque como as coisas andam é só o que me falta, faltar o dinheiro.

Isto é tudo muito bonito, mas é tudo muito duro.

Isto é tudo muito bonito, mas é tudo muito falso.

Tudo, ou quase tudo.

Tenho conhecido gente fantástica, que ao longo do tempo se revelou mais mal-cheirosa que uma ETAR.

Tenho conhecido gente tão fantástica quão enganadora.

E, publicamente admito, enganarem-me é a pior coisa que me podem fazer, e a vocês também.

É que mesmo que o corpo me diga que não, porque as imagens me assolam a cabeça, eu saio para correr, para lutar.

Correr, correr muito, bater, bater muito, escutar, escutar muito, esperar, esperar que sim.

Sei que sim.

O junco verga, não parte.

E, eu fico a olhar  a margem, lá do outro lado, enquanto o sapo deixa o escorpião terminar a viagem, antes de ser picado mortalmente.

O escorpião, no fim, pica o sapo e ele morre por causa do veneno.

As lendas são lixadas.

Agora vou correr porque não gosto de sapos.

Sejam grandes ou pequenos.

Mais cedo ou mais tarde o veneno...

Agora dava-me jeito companhia, prometo correr calado.

(O blog do Gato está parado há dois meses. O gato não tem tido alma em condições, mas está de volta. Todos os dias. Haja quem leia estas barbaridades)

 

 

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publicado às 18:28


2 comentários

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De mario catita a 13.03.2016 às 11:45

melhores dias virão e com essa força que tens vais dar a volta por cima ,tudo de bom para ti e teus .
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De The Cat a 13.03.2016 às 16:42

Obrigado, meu caro.
Bom domingo.

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