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Alice nunca esteve no País das Maravilhas. É mentira o que dizem, é mentira a mentira, é mentira a verdade.


Mentira no amor, mentira sabor, mentira a tristeza, quando começa a tristeza não se vai.


Tudo é mentira neste mundo, tudo é verdade, tudo é mentira, porque será?


Não sei se é do coração.


Alice nunca conheceu a rainha de Copas, e eu posso provar. Não há corações em terra do Diabo.


A mentira é a verdade, por isso houve em mim, sempre, qualquer coisa de revolta. Romântica, porque a revolta não é um sentimento redutor, é revoltar, voltar a dar.


Não é a revolta da raiva. É a revolta de gostar. Eu gosto da verdade, embora, às vezes, a mentira magoe menos.


Por vezes ter-me-ei revoltado com nada, tamanha revolta. Não gosto da mentira nem do mal. Nem do Diabo.


Gosto da Alice, mesmo que nunca tenha posto um pé no País das Maravilhas.


Mais tarde caí, cansado de tanto amar. Tantos corações. Tombei.


Caio abaixo, caio acima, não caio da vida.


Um dia me virão buscar e, na saída, sairei sem pagar.


Depois subo as escadas, doem-me as pernas, sinto-as a puxar-me para baixo, mas os braços não me largam e as mãos colam-se á pele da cara. A música toca veloz, pesada. Sonho com os teus olhos e olho para o lado.


E, depois de subir as escadas sento-me contigo.


Ecoa ainda: " o que fará sentido se as coisas terminam assim?"


"Parece que há um saco, um saco destinado a levar socos. De tão habituado, o saco já só reage à primeira pancada. Depois encaixa o que por aí vem. Um atrás do outro".


Esta noite sonhei com sonhos que eram realidade.


Coisas que são boas para mim, coisas que são uma emergência para mim.


A vida é uma emergência.


A loucura é uma emergência. A morte e a vida. A emergência.


Estive tentado a ligar ao meu médico do foro psiquiátrico, já não conversamos há uns dois anos. Ele é especialista em emergências da vida. É um tipo imparcial. Às vezes inclina a cabeça para trás e semi-cerra os olhos. Parece adormecer.


Do nada faz uma pergunta.


Gosto de pessoas que fazem perguntas do nada. Ficámos amigos há uns bons anos.


Ele é do Sporting, eu sou do Benfica. Ele é o meu médico e eu sou o seu paciente saudável.


É assim que me trata o meu médico especialista em Gastro, o paciente saúdavel. Sou seu admirador. A música que tem no telemóvel em modo espera é "Satisfaction", dos Stones.


"Sabe que foi considerada a música do século?"


Os meus médicos são meus amigos. Gente para lá do comum.


Gosto de gente não-comum.


Lembrei-me dos dois porque eles tratam das emergências da vida, mais do que de cabeça ou do estômago de cada um.


E, eu gosto de pessoas que me façam viajar.


Viajar é uma emergência.


As coisas não tem que terminar assim. Não deviam terminar assim.


É tão difícil encontrar o sentido das coisas.


Eu, com a mania que mudo o mundo.


O mundo é uma bola que vive à flor do pé.


As coisas não tem que terminar assim. "A vida podia ser tão simples".


Ouves isto depois de sentires a preocupação que vem de algum lado, ali à tua frente.


O que dizer mais, quando passas a saber que aquelas estatísticas sobre a violência doméstica não são meros números.


Já antes sabias, no fim deste texto explico, mas não vai fácil este caminho que se caminha por entre espinhos e baús com moedas de ouro no fim de arco-irís a preto e branco.


As crianças são o grupo de maior risco, em Portugal. As crianças, em Portugal, são o grupo social mais afectado com a crise dos ricos. As crianças, em Portugal, são o grupo social que mais sofre entre quatro paredes.


É isto que criaram. É isto que criámos. Uma tômbola com gente lá dentro. Gente louca, gente pequena, gente que não sabe rezar, gente que não tem coração de esperança.


Foram linhas cruas.


O saco de pancada, habituado a levar pancada, começa a ganhar vida própria.


Morreu gente que não devia morrer já.


São linhas cruas.


Estou cansado de correr pelas minhas perdas. Quero correr para ser feliz. Não quero perder mais gente, pelo menos este ano, já não era pedir muito.


Quero correr para ser feliz.


Comecei a correr há um ano.


Um ano em que tenho perdido pessoas de quem gosto.


O Diabo terá feito uma aposta comigo. Desconfio. Não me avisou porque é o Diabo.


Como Diabos ao pequeno-almoço. Avisem o gajo.


Tenho corrido por elas, pelas pessoas que perdi, por aqueles que gosto. Por mim.


Estou cansado.


Isto chegava.


Mas, não...


Tive que conhecer a personificação das estatísticas que queimam tanto quanto o sal vertido pela perda.


Este fim de semana entrevistei uma senhora, lutadora contra a violência doméstica, que mata, em Portugal, mulheres às centenas.


Como nos países mais fundamentalistas.


Infinita pobreza!


Não conversámos sobre as crianças. Era sobre as mulheres, o tema.


Não conversámos sobre os homens.


Pouco falamos da violência doméstica sobre crianças e homens, em separado, em conjunto.


Hoje, tive conhecimento de um raro caso destes.


Tem sido um ano difícil, este.


Ou acaba rápido ou acabo rápido com ele!


Em alternativa, aceito boas notícias, ou isto será vingança do Mafarrico por eu dar muitas más notícias?


Vamos lá correr as cortinas, abrir as janelas e acabar com as sombras.


Hoje foi dia de corrida. Amanhã é dia de corrida.


Se me cruzar com o Diabo prego-lhe uma rasteira e digo-lhe que sou amigo de Alice.


( Um dia conto a história da directora do INE que me ligou para desabafar, depois de uma peça minha sobre este tema. Quis contar-me o que sofrem e como sofrem as pessoas que nos tratam como números. Um dia.)


 

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publicado às 01:21



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