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O CAÇA-FANTASMAS

por The Cat, em 27.11.15

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Correr é mais que um vício, algo que se entranha nas veias e na alma.

Correr é uma batalha contra os meus próprios fantasmas.

As pernas cansadas, a música que marca o ritmo, a respiração ofegante, o vento na cara. Frames que partilho comigo, que julgo importantes, que me empurram metro a metro.

Mas é de batalhas que eu gosto.

Gosto de ganhar uma-a-uma, sem qualquer garantia que ganharei a guerra, se é que a guerra terá fim.

Diferentes cores, diferentes nomes difíceis de dizer, um tempo, há sempre um tempo, antes de Deus.

As minhas corridas tornaram-se menos visíveis, apesar de correr todos os dias. Raros são os dias em que não calço os meus ténis já gastos, ainda não fizeram um ano nos meus pés.

Eu só uso um par de ténis. Não sou homem de várias mulheres. Crio, com eles, uma relação que só a nós diz respeito.

Eles nascem para mim, comigo vivem e em mim morrem.

As minhas corridas são menos visíveis o que não implica a ausência do esforço.

Esta semana corri todos os dias noite dentro, enqaunto muitos já dormiam, enquanto outros jantavam, enquanto outros celebravam, enquanto outros enfrentavam os seus dramas.

Enquanto isso eu enfrentava os meus fantasmas.

Foi uma semana daquelas!

Consegui o pleno de ter o meu pai e o meu irmão hospitalizados, ao mesmo tempo, no mesmo hospital.

Já estão em casa.

Matei os meus fantasmas, no fresco das noites, que ficaram para trás, para não deixar pistas. Passam por aqui quase sem se dar por eles.

Não lhes dou tréguas, aos meus fantasmas, nunca.

É quando eles me assombram que mais gosto de os enfrentar.

Todos os dias corro. Corro todos os dias.

Mas há oito dias - faz hoje - que não treino Muay Thai.

Há oito dias o meu mestre chateou-se.

Puxou por mim - com razão, fiz um treino totalmente desconcentrado - e puxou de tal forma que perdi a conta às flexões que fiz, que me fizeram uma tendinite no cotovelo, que deram direito a um "calduço" no final, como que a dizer: faz-te homem, pá!

E sinto falta.

Incrível: sinto falta.

Sinto falta do Muay Thai, de tomar café e de conversar sobre tanto com o meu mestre, não lhe contem mas aprendi a gostar dos "calduços" dele e nem me atrevo a responder, não vá ele olhar, como costuma fazer, profundamente, dentro dos meus olhos e sorrir. É melhor não arriscar!

O cotovelo continua com dor, mas amanhã não lhe dou desculpas.

Há treino à tarde.

É tão engraçado; a corrida fortaleceu-me para treinar Muay Thai, tornou-me forte mental e fisicamente.

Agora, oito dias sem treinar Muay Thai, é ele que me faz correr quando tenho dor de cotovelo e alguns fantasmas para caçar.

É ele que diz aos músculos exaustos que consigo chegar ao fim da corrida.

É ele que me faz esquecer enquanto corro. Eu esqueço enquanto corro, ao longo deste caminho.

É ele que me ajuda a matar os meus próprios fantasmas.

Correr é pensar na vida, nos problemas, nas motivações.

Quando corro é nisso que penso.

Organiza-me a cabeça, fortalece-me as decisões, sublinha-me o que é realmente importante.

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Hoje à noite não vou correr.

Também não vou treinar Muay Thai; o meu mestre está em Paris com o Adelino para tentarem trazer mais um cinto de campeão para a nossa escola.

Estou ansioso e nervoso por eles. Devia ir correr, mas não vou.

Hoje vou jogar futebol.

Não jogo futebol há mais de um século.

Hoje vou jogar futebol porque o meu filho me pediu, porque o meu filho me vai ver, porque vai, em silêncio, torcer por mim.

Isso vale qualquer corrida.

Espero não me magoar, porque amanhã quero correr e quero treinar.

Sou como um viciado, que como qualquer viciado alimenta o seu vício.

E não quero cá cura nenhuma.

Nem ajudas, nem rehab´s como agora se diz.

Não quero porque aprendi uma coisa com aquele "calduço" que levei;

 "Se não puder voar, corra.

Se não puder correr, ande.

Se não puder andar, rasteje, mas continue em frente, seja de que jeito for."

A frase de Martin Luther King, não é minha.

O golo que daqui nada vou marcar é que é meu.

E vou dedicá-lo ao meu filho, como ele já me fez tantas e tantas vezes.

É que esta semana já matei todos os meus fantasmas.

Para a semana volto à caçada.

Preciso de matar os meus horários de trabalho, afinal é de fantasmas que falo.

 

 

 



 

 

 

 

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publicado às 18:05



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