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O BOSQUE ENCANTADO

por The Cat, em 25.09.16

IMG_1479 (1).JPG

FOTO: THE CAT RUN

 

 

Acordámos cedo.

Agora, depois de velho, comecei a ir ao pequeno-almoço, nos hotéis. Antes, gastava o tempo, gota-a-gota, na cama.

É uma espécie de doença; a cama.

Agora, não. Agora levanto-me e costumo ir ao pequeno almoço.

Eu adoro hotéis.

A Carla comeu aquilo a que tinha direito, sorte a dela que não engorda, que consegue correr depois de comer. Eu não.

Eu ou não como, ou como quase nada, quando corro.

Comi uma salada de frutas, um mini-pastel de nata, um chá e um sumo de furtos vermelhos.

Um café, no fim, e estávamos prontos.

Dez da manhã, manhã fresca.

Bom, não sei o que é que fizemos que começamos a correr já era meio-dia.

Eu sou uma armadilha.

-“ Não te preocupes, vamos para o Fontelo, aquilo é cheio de verde e fresco”, disse eu na minha ignorância certeira, afinal nunca ali tinha corrido, mas já me tinham contado e eu acredito nas pessoas, no ser humano.

-“Para além do mais” – eu costumo usar esta expressão – “imagina que amanhã estará calor e esta corrida é uma espécie de teste curto”.

A Carla, pouco dada a conversas, quando corre, olhou-me, com aquele olhar que eu conheço, como que a dizer:
-“Ganda armadilha”!

A “Corrida de Emoção”, daqui a umas horas, tem partida ali mesmo, junto ao estádio do grande Académico de Viseu, que hoje treinou, que eu vi-os a chegar do treino, quais Ronaldos das beiras. A cem metros do bosque encantado.

É mesmo encantado, ou não reparou na fotografia que ilustra o texto e que eu tirei, com estes dois que a terra não há-de comer, porque quando eu morrer, para além de querer ir de burro e de que batam em latas, como dizia o enorme Sá Carneiro, o poeta, eu quero ser cremado.

A meio dos seis quilómetros que fiz, para mexer os músculos e a aliviar a cabeça e afins, perdi-me da Carla.

Dei comigo a correr em trilhos, pela primeira vez, o que é uma experiência a repetir, depois fugi para o asfalto, nos dois últimos quilómetros, mas há cerca de quatro mil metros que havia perdido a minha mulher.

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FOTO: CARLA MOITA

 

Cuidem de mim e da minha família, diz o cartaz preso a uma das centenas de grandes árvores milenares e belas.

Nunca tal me tinha acontecido.

Aquele raio de luz que vê na foto estava mesmo lá.

Que raio!

Gostei de correr nos trilhos, rodeado por árvores, grandes, verdes, gostei de abrir os pulmões ao máximo, gostei de tirar fotos, de gravar vídeos, gostei de viajar nos meus pensamentos, enquanto me sentia transpirar, enquanto sentia a mudança em mim.

Gostei sobretudo dos momentos de magia.

O raio do cartaz e um outro momento.

A meio da corrida, após voltas e voltas, sem saber onde ia dar, fui dar ao cimo do parque.

Parei, olhei em frente, fantástico, uma quase avenida natural, só para mim.

Quando de repente, lá ao fundo, surgem duas personagens.

Uma cadela velhinha e o dono.

Óculos escuros, boné, estilo putos de agora, blusão preto, entre o ar de pinta e de miúdo preocupado e descrente.

Ousei pedir para lhes tirar uma foto, numa altura em que mais que o contacto visual, já nos escutávamos.

Era a foto da minha corrida, em teoria.

Enquanto caminhava em minha direcção, abrandando apenas a marcha, estabeleceu diálogo comigo:

-“ Não estou vestido para as fotos”.

É por isso que não mostro o rosto do dono nem o focinho da cadela.

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FOTO: THE CAT RUN

 

Dito assim parece rude, mas é com todo o afecto possível.

Disse-lhe que ele vivia num sítio fora de série, onde eu também viveria, se pudesse.

Sítios para praticar desporto, ao ar livre, oxigénio, qualidade de vida, disse-lhe qualquer coisa como: “a malta lá em baixo sabe lá”.

Disse-o convicto.

Não esperei pela resposta, naquela conversa que não demorou mais que um minuto.

-“Amigo, essa visão é interessante, mas sabe, eu moro mesmo ali em frente” (apontou para o portão grande, atrás de mim, uma das muitas entradas do parque), “moro a cem metros daqui, todos os dias venho passear a minha cadela, três vezes por dia, relaxamos e eu limpo a cabeça, mas sabe uma coisa”, disse-me assim mesmo;

“Isso é muito giro de dizer, mas eu, se quero ir ver a bola gasto cento e tal euros, se quero ir ver um concerto o mesmo, aqui come-se mais barato, aqui não se vive mal, nesse aspecto, mas se quero sair à noite é tudo tão pequenino”.

Calei.

Não ia estragar-lhe aquele momento, mágico, seguramente, por poder dizer a alguém que as coisas não são como parecem.

Como a magia.

Como o bosque, mágico.

Agora vou dormir.

Às dez e meia começa a “Corrida da Emoção”, e como aquilo dá em directo na televisão deixa cá ver se apareço com bom ar, não vá o rapaz que passeia a cadela, como se fosse, e se calhar é o seu último conforto cruzar-se de novo comigo.

Ainda corro o risco de ouvir: eu não lhe disse, isto não é tudo tão simples como parece, sem saber se ele se estará a referir à corrida ou à própria vida.

 

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publicado às 00:47


1 comentário

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De A rapariga do autocarro a 27.09.2016 às 13:33

Correr num cenário assim sempre tem outro encanto!

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