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O APARTAMENTO NÚMERO SEIS

por The Cat, em 07.04.15

IMG_4387.JPG

 

Correr é o maior acto de liberdade que existe.

Para mim é.

É uma frase feita e uma ideia pré-concebida.

Eu gosto de dar novos sentidos a frases com um só sentido. Eu gosto de correr em vários sentidos, gosto de contornar as ideias pré-concebidas.

É, de facto, o maior acto de liberdade que tenho em mim.

Sou eu, comigo, o tempo que aguentar, que o tempo é um ditador.

Haverá maior liberdade que sermos nós connosco (ainda que espartilhados no tempo)?

Correr é um acto livre, em todos os sentidos.

Eu sou cem porcento apartidário, não me revejo nos partidos, ninhos de gente sem sentido.

Não me demito, no entanto, da minha responsabilidade social, nem dos meus direitos mais fundamentais que tanto custaram a conquistar. Por muito que as jaulas peguem fogo comigo lá dentro.

Se calhar haverá algo de político neste post.

Talvez, porque aprendi que aquela frase batida que diz que eu sou responsável pelo que digo, não pelo que tu entendes, essa frase foi profundamente alterada.

Essa alteração tem tudo a ver com o foco deste texto e dos seguintes: a liberdade. Agora que é Abril.

Vem isto a propósito da minha corrida deste domingo.

É uma longa história, só contada em dois ou três publicações repartidas.

Cria clima, expectativa e a história flui muito melhor, estou certo.

Não sou rico, mas tenho um Monte.

Na verdade, não sou rico e o Monte não é meu, eu é que para lá fujo há mais de vinte anos, ainda o dono não vivia lá.

Foi no Monte do Sobral, no "apartamento 6" - entre aspas, porque não são apartamentos, são casas de um monte alentejano de perder de vista, como as histórias que têm para contar -, foi lá que soube que ia ser pai da Maria.

Nunca mais me esqueço dessa noite.

Foi lá que a Maria e o Rodrigo se inspiraram, sem o saber, para serem os fantásticos seres humanos que são. Livres defensores da liberdade.

Há mais de 20 anos que fujo, sempre que posso, para o Monte do Sobral. Refúgio onde me basta estar há duas horas para parecer que estou lá há dias.

Já não há cavalos, nem burros, nem o Ivan, que morreu na Moldávia e que era a pessoa mais trabalhadora e encantadora que conheci no Monte.

O Ivan morreu, duzentos metros depois de ter saído de uma festa, num carro conduzido por alguém embriagado. Muito embriagado. Mas o Ivan não devia estar naquele momento, naquele lugar, na Moldávia. Era ao Monte que ele pertencia.

O Ivan não tería morrido se as autoridades portuguesas, após uma denúncia vergonhosa - o Ivan estava há anos no Monte - não o empurrassem para fora do país, em tão pouco tempo (não respeitaram sequer a janela de tempo que a lei determina), apenas porque o passaporte, com o visto renovado, que faltava, que tinha ido para renovar, estava a três ou quatro dias da chegada às mãos do Ivan.

Correram com ele, como se o Ivan fosse um criminoso. E ele morreu na Moldávia. Longe de nós.

Lembrei-me do Ivan porque vi uma fotografia com o meu filho Rodrigo, sentado ao lado dele, no barracão das alfaias, cada qual com o seu cachorro bebé ao colo e com uns sorrisos que jamais irei esquecer. O Ivan ensinou o Rodrigod a andar a cavalo, andava com ele às cavalitas, em longos passeis pela planície.

No Monte já não há cavalos, já não há burros, já não há o Ivan, mas ainda há o silêncio que (li num site de viagens) criticado por dondocas da cidade, que aparecem nas revistas fúteis. Fúteis, portanto. Como qualquer dondoca.

"Deviam comprar uns galos. É silêncio a mais", li e sorri.

A liberdade do silêncio incomoda aqueles que cantam de galo.

Tantas noites passei à lareira no "apartamento 6", tantas sestas tirei no sofá da sala. Tantas memórias lá tenho guardadas, mas nunca lá corri. É verdade. Tomei consciência disso este fim de semana, mais de 20 anos depois.

O que eu admirava aquela pele de vaca estendida no chão, uma alcatifa que reconforta não apenas os pés cansados, mas a alma moída.

À medida que os anos passaram a chaminé típica do Alentejo que eu amo começou a encher-se de referências. Referências à Revolução e à liberdade.

Quando para lá comecei a ir só tinha duas:

" 9 de Setembro de 1973 - 1ª reunião do Movimento dos Capitães" e outra que dizia " 10º aniversário do Movimento dos Capitães".

No fim de semana passado, quando reparei, uma vez mais, quando a olhei de alto a baixo, para a chaminé que divide o "apartamento 6" do "apartamento 5", vi que está salpicada com 17 placas, todas alusivas à Revolução.

O Monte do Sobral foi expropriado em Setembro de 1975 e restituído em Setembro de 1990. Eu comecei a fugir para lá em 1995.

Foi a corrida que inspirou este texto. A corrida não terminou. O texto também não.

Segue mais à frente. Até já, caso tenha gostado.

 

 

 

 

 

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publicado às 14:38



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