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NETWORKING EMOCIONAL EM PASSO DE CORRIDA

por The Cat, em 10.03.16

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Os homens dizem que a fé move montanhas. E move.

Pois eu digo que a corrida move a fé e ajuda a contornar as montanhas. As mais altas e intransponíveis.

A corrida ensina-me que depois de cada montanha alcançada outras estão pela frente, uma após outra.

É disso que é feita a vida.

E se uma montanha se agiganta perante a nossa humilde baixa estatura - no Universo é assim -, a próxima talvez se apresente um pouco mais suave, menos inclinada.

É disso que é feita a vida.

A corrida trouxe-me algumas lições, que deixam marcas que eu gosto.

É tudo uma questão de experiência.

Ainda ontem, depois de um treino de Muay Thai, conversava com pessoas que sabem sobre a ciência do treino.

Falávamos sobre corrida.

Passei um bocado por maluco, senti, por breves momentos.

Perguntava-lhes eu se alguma vez sentiram, enquanto correm, os olhos a fecharem-se, quase que "correr a dormir".

Olharam um para o outro, abanaram a cabeça em simultâneo, encolheram os ombros, com um ou dois segundos de diferença.

Não creio que me tenha explicado bem.

Queria dizer que isto, para mim, a corrida, a corrida para mim é ir e voltar a vários pontos da minha imaginação.

Não consegui passar a mensagem.

Mudámos de assunto, até porque não era aqui que queria chegar.

Onde é que eu quero chegar?

Aqui mesmo, agora sim.

Começa a ser "normal" (normal entre aspas soa a contradição) perguntarem-me se parei de correr.

Quando digo que corro todos os dias parecem acreditar, mas assim, pouquinho.

É verdade, continuo a correr todos os dias, uns mais, outros menos.

E continuo a ir às corridas.

A coisa funciona quase como uma tatuagem, depois de te marcar não sai mais da alma.

E continuo a fazer o mesmo que fazia - mais o Muay Thai - não apenas pelo prazer que o acto de correr me transmite.

Faço-o também porque as corridas, nestes quatro anos, fizeram-me conhecer pessoas, novos amigos, gente que partilha o prazer, o prazer de viver e de correr. Dois prazeres. Duas dádivas.

E é algo que continua.

A vantagem tem a ver, sobretudo, com o facto de gostar de correr e juntar a isso interesses, sejam pessoais, profissionais, interesses sem a carga pesada que a palavra encerra.

O chamado networking. A corrida é fazer networking. Não pode haver dúvidas.

Mas, não é apenas uma cadeia natural e genuína de ligações e interesses normais, profissionais, de desenvolvimento de ideias, de confluência de opiniões e posições.

A corrida também é networking emocional.

Conclui esta noite.

"Palavras escritas pelos dedos, ditadas pelo coração".

Foi o Paulo quem me escreveu esta frase e me a enviou.

Foi esta frase que me sugou um pouco de não sei bem o quê, e me catapultou para este texto, num momento em que me sentia um pouco idiota, sem tema para escrever.

Esta frase e a conclusão a que cheguei; que a corrida permite fazer networking emocional.

Conheci o Paulo há poucos meses, talvez no final do verão passado.

Falámos umas duas vezes, pessoalmente.

Acertámos ideias vagas, mas com entusiasmo, coisas sem compromisso.

Falámos, a correr, sobre nós, sobre a vida e sobre os olhares que temos sobre tanta coisa, falámos de muitas coisas que são comuns, num ápice, que foi quanto duraram os nossos encontros.

As redes sociais, uma vez mais, aproximaram-nos, e comecei a ler com outros olhos a história do Paulo.

E, se a toco, a ela, neste texto, é porque ele me autorizou.

O Paulo é uma pessoa especial, não tenho a menor dúvida.

Ele desempenha funções em vários cargos, todos eles de enorme responsabilidade, mas de desafios feitos à medida de homens assim.

Confesso que por vezes fico cansado só de lhe seguir a timeline no Facebook.

Ele está em Lisboa, depois no Porto, depois em Évora, depois no Douro, ele está constantemente em todo o lado.

O Paulo é um homem de projectos inovadores e empreendedores, um homem cheio de raízes fora da grande cidade, mas que nela corre, como se não houvesse amanhã.

É assim que o vejo, a correr, sem parar.

O Paulo é um corredor de fundo, e isso faz-me ter ainda mais admiração pela sua enorme capacidade se subir e descer todas aquelas montanhas que lhe falei no início deste texto.

Um homem com tamanhas tarefas, responsabilidades e desafios, normalmente não tem tempo para mais nada. O Paulo tem.

Tem tempo para correr ao ritmo dos quenianos durante o dia, ao ritmo dos maratonistas à noite, quando janta com os amigos, e ao ritmo dos sprinters, quando sai de Lisboa rumo à sua aldeia.

Corre em todos os lados, todas as noites. Todas é mesmo todas.

Largos quilómetros, todos os dias, largas responsabilidades, larga forma exemplar de vida, de pessoa.

Isso mesmo que acaba de ler.

Nesta agenda, aparentemente alucinante, mas ao mesmo tempo preenchida até mais não, o Paulo tem sempre tempo para o seu maior projecto de vida e de fé, o filho.

Porque este blog não é um jornal, muito menos sensacionalista, não escrevo o nome do filho do Paulo, nem me alongo muito no assunto, mais que privado.

Apenas dizer que, regularmente, o filho do tem que recorrer ao hospital, e o Paulo, depois de centenas de quilómetros no asfalto, depois de dias com longas horas, corre sempre para junto dele.

E o apenas é apenas uma muleta para a construção da minha frase. O que o Paulo faz é milagres.

A nossa ligação é jovem, recente, mas há na história do Paulo um qualquer magnetismo, que faz com que tome, à sua história, quase como se fosse minha também.

Numa das poucas vezes que conversei com o Paulo, pessoalmente, foi para lhe agradecer o convite que me fez para a meia maratona de Évora, Cidade Património.

Fez questão de publicar uma foto nossa. Isso tocou-me, a mim, guardião dos detalhes.

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Não pude ir passar esse fim de semana e correr nessa corrida inesquecível, escrevi sobre isso, na altura, estava a trabalhar. Mas hei-de correr em Évora. Já lá corri, nos arrebaldes.

Ficou então implicitamente decidido que terei que correr uma das suas provas.

Ele é o mentor e a alma das Meias Maratonas em Patrimónios Mundiais.

É também, entre outras coisas, director geral da GlobalSport,  a empresa que organiza as corridas, que têm a chancela da Running Wonders, (não que me pedissem publicidade, mas é assim mesmo que são as designações, pelo que qualquer sinónimo não é aplicável).

Não é apenas correr, lá está, é também networking emocional, e neste caso até networking cultural.

Que raio, a corrida também é cultura.

Mas, correr é, lá bem no fundo, matar fantasmas.

Os nossos fantasmas morrem debaixo dos nossos pés e fogem de dentro das nossas cabeças, enquanto corremos o mais que conseguimos.

O Paulo decidiu, por causa da situação que tem vivido, baseado na sua própria fé, começar a correr todos os dias.

Lançou o seu próprio desafio, correr todos os dias, durante trinta dias.

E lá começaram a ser publicadas nas redes sociais as fotografias dessas corridas, todas elas com um traço comum, o Paulo a voar, com a fé a empurrá-lo para cima.

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Corridas à meia noite e cinquenta e dois, por exemplo, depois de centenas de quilómetros a conduzir e de reuniões sem fim.

Com alma.

Tenho acompanhado a saga do Paulo, e à medida que cada linha vai sendo escrita a minha admiração aumenta, ainda mais do que em algumas linhas lá em cima.

Vazio de ideias, andava a distrair-me no Facebook - na verdade é isso que lá faço - quando reparei num post do Paulo.

Reza mais ou menos assim:

"Gestos que nos marcam.

Sensibilizados com a situação do meu filho...o grupo Viriathvs Runners Viseu ligou-me para realizarmos uma corrida pelo G".

Não, não era para organizar uma prova.

Era para irem correr juntos, na companhia do Paulo, num acto de fé, de comunhão, um acto daqueles que nos fazem continuar a subir e a descer, a alcançar e a falhar as montanhas do início deste texto.

É disso que é feita a vida.

A corrida que une corações, almas, e gente.

E foram.

Foi por volta da hora do jantar.

O Paulo escreveu que conduziu (mais) cem quilómetros até Viseu.

Após dois dias terríveis fez-se a estrada só para correr "dez quilómetros com este fabuloso grupo".

Escreveu assim:

"...Regresso de coração cheio e sem palavras para agradecer tal gesto. Esta gente de Viseu é verdadeiramente impressionante".

Não meu caro, impressionante é a força do exemplo que tu consegues passar para os outros.

O "guerreiro" do Paulo passa-lhe a força e a coragem, e corrida entrou na sua fé, que o Paulo é um homem de fé, e a fé, meus caros, dizem que faz milagres. Até move montanhas.

Correr é tão apenas isto, um simples acto de fé.

Correr.

Conclui assim:

"E agora vou até casa ter com os meus tesouros e jantar!".

Eu chamo a isto networking emocional.

E enche tanto a alma.

 

 

 

 

 

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publicado às 01:40



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