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NÃO SEI SALTAR À CORDA

por The Cat, em 02.09.15

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Ontem foi um dia diferente.

Ontem, o dia foi marcado por momentos que ficam registados no disco duro da memória.

Ainda ontem falámos da necessidade de manter alguma regularidade em relação aos textos publicados no blog, e como essa intenção é difícil de levar adiante.

Foi ao fim da tarde.

Ao fim de um dia marcado por momentos, um dia diferente.

Ainda ontem falámos das corridas, da forma como gostamos de correr, em que é que a corrida nos modificou, enquanto pessoas. Falámos sobre como a corrida condiciona os nossos dias e as nossas vidas e as vidas dos outros.

Falámos dos nossos amigos, dos conhecidos, dos familiares, das famílias.

Foi ao fim da tarde.

A transição do dia para a noite, numa esplanada, na Morais Soares, um café e duas águas, a minha gelada, pessoas que sobem e descem a rua, autocarros que deixam gente, que entra e que sai, gente com ar estranho, gente com ar normal.

Observava, enquanto conversávamos.

Ainda ontem, ao fim da tarde, na esplanada, na Morais Soares, falámos sobre Muay Thai, como se fossemos dois lutadores mais que experimentados.

Acho que, momentos houve em que quase imaginámos histórias, nossas, que nunca aconteceram, senão algures no nosso sub - consciente, dos combates que nunca tiveram lugar, no Lumpinee Boxing Stadium.

Mas, ali estávamos, entre um café, duas águas e dois cigarros.

Fumei-os eu.

Foi num dia de folga. Foi num dia de treino. O dia em que conheci pessoalmente alguém que apenas conhecia das redes sociais.

Já aconteceu em outras ocasiões, mas evito o mais que posso, são muitas solicitações, por mensagem, através de posts, gente que diz gostar de mim e do meu trabalho – houve até quem me considerasse melhor amigo, até ao momento em que percebeu que por aqui as portas estão fechadas a pessoas com agenda própria.

Não por pedantismo, mas por defesa. Evito.

Ontem não evitei.

O meu dia de folga começou com uma reunião, pela manhã.

Seguiu-se um almoço com um amigo, umas compras, que o meu lado gaja não me impede de fazer. Empurra-me para as lojas.

E, ao fim da tarde fui treinar.

Quando treino, normalmente, corro. Hoje não.

Quanto treino no nosso ginásio em Arroios nunca corro. A subida é muito inclinada, fácil quando se desce. Pior o regresso. Nunca corro em Arroios.

Tinha tido dois terços de dia tranquilos, conversas francas, expectativas e olhares sobre coisas.

Fui treinar.

Quando treino torno-me um chuveiro humano.

Gosto de ver a luva a bater no “pao” e o suor a espalhar-se no ar.

O Cavaco é que não gosta muito porque diz que quase o cego. Mas, entende. Que remédio. Cavaco, enquanto houver gordura para queimar, há suor para te molhar. Vai por mim.

Liberto.

É isso; libertação física. Bum!!

Transcendo-me mais com os outros.

Gosto de ouvir o som das pernas, dos braços deles, a bater nos sacos. As suas respirações, os sons que emitem. Contagia.

Produz o mesmo efeito que os shots de bebida energética. Sente-se o power a ficar, a actuar. Vais buscar força onde já não há força.

Por muito que os músculos já não sintam.

É a ideia de um Nirvana com luvas e ligaduras nas mãos transpiradas.

Subi as escadas, um vão apenas, escadas ladeadas por uma parede com posters de combates.

Sempre que lá vou sinto-me entrar no mítico Mighty Mick´s Gym, na N- Front Street, em Filadélfia.

Por momentos, enquanto subo aquele vão de escada, sinto-me um Rocky Balboa de trazer por casa. E, sinto-me bem com a irrealidade.

Cheguei atrasado dez minutos.

Eles já aqueciam. Equipei-me rápido.

O que demora mais é ligar as mãos, e eu gosto de começar o aquecimento com as mãos ligadas, faz-me entrar filme, desde ínicio. Faz-me sentir um duro. Tangas!

Saltavam à corda. Rondas de três minutos. Um de descanso - activo -, abdominais, flexões, o costume.

Fujo da corda como o diabo da cruz. O diabo não foge da cruz, na verdade, ele apenas aguarda que lá o preguem.

Vou confessar uma coisa, publicamente, aliás, acho que é a primeira vez.

É algo que me acompanha desde os tempos de escola. Um trauma.

Eu não sei saltar à corda. É isto. Não sei. Cada qual nasce para o que nasce.

Logo, nunca podia ser lutador de Muay Thai.

Não sei saltar a corda. Ponto.

Ainda há dois treinos tentei e quase lesionei a ponta dos dedos dos pés, quando a corda lhes bateu.

Alternativa? Pneu.

Dez minutos. Não custa menos.

E, eles continuavam a saltar. E ela.

É normal, as mulheres sempre saltaram à corda, desde a escola, lembro-me que faziam quase malabarismos.

Eles, normal. Faz parte do aquecimento.

Eles e ela, a única mulher no treino de hoje à tarde.

Foi com ela que fui tomar café, ao fim do dia, à esplanada, na Morais Soares.

Dois amigos.

Conhecemo-nos, pessoalmente, ontem.

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A Gi há muito que colocava likes nas minhas fotos das corridas, ela também corre, e treina muito.

Ao início deixava passar.

São muitos likes, os que me colocam nas fotos, são muitos comentários e mensagens, muitas solicitações, se me faço entender, às quais raramente respondo.

Já tive a minha dose de amizades que eram tão, mas tão verdadeiras, que quando perceberam que o tiro saiu pela culatra, depressa deixei de ser melhor amigo, melhor profissional, melhor tudo, para ser nada.

Vacinas gratuitas.

Com o passar do tempo percebi que a Gi, que colocava likes nas minhas fotos, fazia-o pelo exacto motivo que eu faço o mesmo: as fotos servem para colocar likes.

Um dia, sem que nada o fizesse esperar, a Gi enviou-me uma mensagem. Ia começar a treinar Muay Thai, com o meu mestre, na minha escola.

Fiquei extremamente feliz, apesar de não nos conhecermos pessoalmente. Até ontem.

O Mestre chamou-me e foi ele, incrivelmente, quem nos apresentou.

Materializámos uma relação que começou no mundo virtual, aquele mundo que achamos que só existe no ecrã do tablet ou do computador, mas que existe mesmo, para o bem e para o mal.

Ontem treinámos um com o outro. Ontem, senti-me um veterano, eu que nada sei, porque dei treino à Gi – bem reparei no olhar do mestre, lá ao fundo do ginásio, como que a confirmar que tudo saía bem.

Dei-lhe “paos” – algo que fiz pela segunda vez, e não é nada fácil dar “paos”, porque estamos constantemente a absorver os golpes do outro – ela treinou directos, kicks, cotovelos, joelhos, flexões, abdominais, prancha, treinámos como cavalos de corrida, depois fomos tomar café.

Eu ganhei uma amiga. Ela ganhou um amigo. A corrida manteve os dois. O Muay Thai apresentou-nos um ao outro.

Tenho as pernas amassadas, a alma chocada: a senhora da bomba disse que eu estava mais gordo. Nem mais um cêntimo de gásoleo, naquela bomba.

Tenho os braços amassados, e parte da cara e das costelas.

Mas gosto. Gosto tanto daquilo que o desporto me está a dar. Gosto tanto de aprender e conhecer. Gosto de mim, da vida e das pessoas (algumas, apenas, não é qualquer um que passa aquele portão de ferro que fecha o meu castelo).

Gosto de dias assim.

E, enquanto conversávamos sobre nós, sobre os nossos, sobre as nossas motivações, respondi a Gi algo que na altura me deu um toque no consciente.

Quero chegar aos 80 anos assim.

Permita-me a vida, o corpo e a mente correr e lutar.

A quantidade de pessoas boas que ainda tenho para conhecer ao longo da vida.

Ainda me faltam 35 anos e muita gente para conhecer, muita corrida para fazer, muito Muay Thai para lutar.

Ontem, quando me levantei da esplanada, não virei à esquerda. Subi a rua toda. Lá em cima perguntei se estava perto de Arroios:

-“ Amigo, não vá pela igreja que se perde. Desça até aos semáforos, vira à esquerda, suba a rua toda outra vez e está lá”.

Eu gosto de me enganar nas ruas. Não gosto de me enganar com as pessoas. Não gosto que as pessoas me enganem.

Há seis meses enganaram-me, pela última vez. Pela primeira e última vez.

O canto das sereias enfeitiça, engana, sabe a fel.

Eu gosto de me enganar nas ruas, quando tenho tempo para as subir, descer, voltar a subir e voltar a descer.

Não gosto de me enganar com as pessoas.

Há pessoas que não enganam.

Tudo isto ontem, como se fossemos amigos desde os tempos de escola, agora que voltámos à escola.

Aprendemos tanto!

 

 

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publicado às 15:01



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