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MÉNAGE À TROIS

por The Cat, em 06.08.15

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Começar um texto, qualquer que seja o tipo de texto, com uma negação, é matar, desde logo, esse texto. É como as vírgulas, essas doidas.

Por isso é que não comecei por escrever o que vou escrever agora. Esperto!

Não sou homem de uma só paixão.

Uma afirmação, uma negação, que não me matou o texto à nascença.

E nunca estive tão apaixonado.

Tenho em mãos - em pés, em pernas, em braços, joelhos, cotovelos, cabeça - duas paixões, ao mesmo tempo. Com o corpo todo, e a cabeça envolvida. Não dividida. Nem por sombras.

Eu, quando me apaixono, sou tramado. Apaixonadamente tramado.

Presentemente, vivo uma relação que começou há três anos, a par de uma outra relação que começou há dois meses.

Relações paralelas. Uma ménage à trois. Assumida. Together.

Esta, tão recente, já tão intensa, como as paixões devem ser, montes de intensas, loucura, devoção e no fim, sinto-me bem.

Ambas (as paixões) sabem ao que vou, nunca engano. Aceitam-me e querem-me. Fazem sentir-me desejado, e eu desejo-as. Como nunca.

Só que ontem voltei a ter um desatino com uma delas. Com a paixão mais longa no tempo.

Sou um tipo que era um tipo desorganizado. Continuo a ser. Mas, gosto de organização. Estranho, não é?

É. Não tem como ser de outra forma.

Todos os dias, novos dias, são vida para mim e eu sinto-me bem, porque vivo estas duas paixões. Mais outras, tantas, tudo.

Dedico parte do meu dia, às segundas, quartas e sextas a uma delas.

Às terças, quintas e sábados à outra delas.

Às vezes ignoro-as, apenas um dia. A minha solidão faz-me falta.

E o corpo não é de ferro. São duas paixões, atenção.

Ao domingo não.

Ao domingo páro. Não lhes escrevo mensagens, nem publico fotos delas.

Quer lá ver.

Ao domingo - diz o meu pai que é dia de ir à missa, não há compromissos - só abro excepções se não as vejo já há algum tempo, o que tem sido raro, nestes últimos tempos.

Não sou homem de uma só paixão, já havia dito. E escrito.

Organizado, portanto, como se vê.

Pois esta terça-feira desatinei com uma delas. E já é a segunda vez. Mas, começo a ser um homem com paciência para as minhas paixões.

A outra paixão complementa-a, complementa-me, complmenta a paixão, e que raio, fazer entender isso?!

Não entende.

A minha outra paixão não se queixa.

Transpiramos muito, os dois, quando estamos juntos. é libertação incondicional.

Agarramo-nos muitas vezes, encostamo-nos.

Eu e ela descarregamos imensa energia. Molhados. Trocamos sorrisos, enquanto nos batemos, em cadências de três minutos, mágicos, e um de descanso.

Às vezes dura menos, poucas vezes, uma hora e meia é o tempo que damos, em entrega total, comunhão perfeita entre duas paixões, três vezes por semana.

Ela é muito exigente, mas entende-me, e eu não sei passar sem ela.

Sinto-a.

Em mim.

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Este exercício é extremamente difícil. A minha mulher, felizmente, nesta fase, está absorvida em trabalho. Uma das profissionais mais capazes e competentes que conheço, e conheço muitas(os).

Felizmente, porque assim a exigência não é aquela que podería ser.

Os miúdos estão a crescer, estão crescidos, entendem. Tudo às claras. Só ela é que não entende.

Na terça-feira tive o cuidado de descansar. Dormi algumas horas e bem.

No dia antes tinha estado com a paixão mais recente, aquela que me entende, que me quer tal como sou, apesar de só estarmos juntos há dois meses.

Tinha que estar com bom ar e fresco. Para não haver queixas.

Dormi, tarde, até tarde, mas bem.

Vesti-me a rigor - com ela, chega uma altura em que tiro sempre a camisola, apesar de tudo.

Saí de casa e encontrei-me com ela.

Bem sei que estava um dia quente. Muito quente.

Deitei-me tarde, acordei tarde. Fui ao seu encontro às três da tarde.

Sempre o três. Hei-de ver o seu significado. 

Estava muito quente. Ela.

Fazia vento. Rajadas quentes, umas vezes travava-me a mim próprio, inexplicavelmente petrificado..

Olhei-a de frente.

O meu corpo ficou rígido, de repente, mal a vi. Assim que a vi. Sem reacção.

A minha cabeça tentou processar tudo, mas não foi capaz.,

Um destes dias, da semana passada, fui almoçar com um amigo.

Falámos das minhas duas paixões. Às quais me dedico mais que - quase - ao meu próprio casamento.

Contou-me uma coisa, esse amigo, ali bem no meu nariz; ele também era apaixonado pela minha outra paixão, a mais recente.

Perguntei-lhe se queria sobremesa ou café.

Não levei a mal. Até lhe agradeci. Paguei o almoço.

Disse-me ele, nesse almoço, que a cabeça supera o corpo, quando a situação nos é adversa, a cabeça toma conta dela, da situação.

Raciocinar rápido e certo.

Comandar, dar ordens de comando. Agir.

Quando a vi, na terça-feira, quando bloqueei, nesse instante, quando nada o fazia prevêr - isto já me aconteceu duas ou três vezes, nos últimos três anos de relacionamento -, quando pensei virar costas, lembrei-me do que me disse esse meu amigo, apaixonado pela minha outra paixão. Cada um na sua. Cada qual com a sua. Nada a obstar.

Bem me lembrei, mas não surtiu efeito.

Eu já conhecia aquela sensação. Sabia que ia ser um terror.

Só que não a podia abandonar, aí sim, ela tinha motivos para escândalos, por não entender que eu dou para as duas. E dou, de caras. Física e mentalmente. Sou um tipo de várias paixões. O verdadeiro amante da coisa.

É isso que está a começar a consumir-me.

Não é justo, dedico-me a ela como me dedico à outra paixão, que nada me cobra, sem tirar nem pôr.

Na verdade, contas feitas, dedico-lhe tanto ou mais tempo do que lhe dedicava quando era só a dois.

Quando estou com ela sou só dela.

Viro o mundo ao contrário, e ela protesta?

Um homem não é de ferro.

Nem o corpo. 

Tive sorte, tenho cabeça. Às vezes ela pensa.

Não consegui satisfazê-la na plenitude, como antes. É certo.

Não tive como.

O meu corpo não teve reacção. A minha cabeça estava absorvida em sofrimento ou falta de prazer, ausência de estímulos sensoriais, do toque, apesar de me lembrar do que ele me tinha dito, o meu amigo, especialista nestas coisas da paixão.

Fui com ela até ao fim da rua e voltei.

Conversámos, gritámos, momentos houve em que nos entendemos, mas foram mais aqueles em que nos olhámos, com alguma raiva mútua à mistura.

Ela quis tramar-me, vingar-se, e conseguiu.

Hoje, não consegui ir encontrar-me com a minha jovem paixão.

Acordei como se uma manada de elefantes com dentes cor-de-rosa me tivesse passado por cima do cérebro, por dentro, e um enxame de gigantes abelhas-africanas me tivessem picado tanto que as fibras do meu corpo estavam rubras de inchadas.

Desliguei o despertador, virei-me para o outro lado, e dormi.

Como se todo este enredo não fosse suficiente, comecei a ler um livro que um amigo de outras guerras acabou de publicar.

Como estou no turno da noite, esta semana, quando chego a casa não consigo dormir logo.

Preciso relaxar.

Costumo pilotar um heli, às vezes um avião, que tenho no iPad.

Outras vezes sou um sniper, tão certeiro quanto psicopata, e abato o alvo ao primeiro tiro. Às vezes falho. À primeira.

Antes jogava Sim City pra relaxar. Há meses que não visito a minha cidade.

Quando vou deitar-me ainda tenho que ler o livro que o meu amigo de outras guerras escreveu.

Aquilo absorve, de bom e bem escrito. Vírgulas e tudo. Não é como aqui neste blog.

É fácil perceber porque é que nem tenho aparecido por aqui, para conversar um pouco, tranquila e pausadamente, como a noite, aqui mesmo em frente aos meus pés, às minhas pernas esticadas, encostadas ao varandim branco em ferro forjado, que tem vista para o jardim e para a piscina.

As luzes apagaram-se.

À noite as paixões dão lugar a este silêncio.

A noite não se vê.

Mas, os gatos são pardos.

Uns pardos apaixonados.

Amanhã é dia de corrida.

Andamos nisto há três anos.

Na sexta é dia de Muay Thai.

Esta é a minha segunda, e mais recente paixão.

Andamos nisto há dois meses.

Espero que ambas me deixem passar um domingo sossegado.

Hoje ainda é terça. Já foi terça. Para mim, que trabalho até domingo, voltou a ser terça.

É que, no meio disto tudo eu ainda trabalho, para ganhar o sustento, senão nem uma nem outra paixão me valia.

E, muita sorte têm ambas, a minha mulher não se importa e os miúdos  também não.

É sempre a abrir.

 

 

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publicado às 09:45



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