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MEIA NOITE E UM DE UM DIA QUALQUER

por The Cat, em 14.08.15

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Por hoje está escrito. 

Até porque ando a ler um livro, escrito por um amigo, um livro que me tem feito perder noites, durante estas férias, e manhãs de treino, compensadas à noite, antes de ler ou de escrever e ler.

Não somos próximos, eu e o meu amigo, que escreve livros, mas não tão distantes quanto achamos.

Eu gosto de ler. Não é de agora. É desde quando gostava de conversar com ele, nas manhãs verdes e brancas, sentados na bancada central, só os dois.

Uma bancada e um estádio só para nós dois.

Conversávamos, raramente sobre coisas que se conversam todos os dias.

Recordo-me.

Dissertávamos, depois divergimos.

Até agora.

Um voltar ao contacto, como se diz, através de um livro, como digo.

Leio e parece que o escuto, como desde esse tempo diferente.

Leio Muito. Todos os dias.

Na internet, jornais, blogues, redes sociais, notificações com últimas horas, leio coisas fofas, outras interessantes, leio muita merda. Mas, também leio muito, coisas muito interessantes.

Gosto de ler.

Fora da internet, jornais, revistas, livros.

Até rótulos de frascos, a composição, a morada do fabricante, do distribuidor, gosto de ler os rótulos dos shampôs, o Ph, a cena das particulas que interagem com o couro cabeludo deixando-o mais lindo e sedoso. Leio isso tudo. Leio tudo, desde que a quase meio metro dos olhos, que ainda não tive vagar de ir comprar uns óculos.

Não dá para tudo.

Escolhidos, a dedo, e outros que me caem no colo, os rótulos, os folhetos da publicidade, os jornais, as revistas, os livros.

Como na internet.

Gosto de biografias. Gosto de romances, no que aos livros diz respeito.

Por isso, leio poucos livros por ano. Porque se-me escasseia o tempo.

Não dá para tudo.

Uns dois, três, na altura das colheitas. Nos livros, como e mais uma dúzia de coisas na vida, sou selectivo.

Não leio tudo, como quase muita gente, ao contrário dos rótulos.

Aí sim, vai tudo a eito.

Um livro tem que me agarrar pela história, pela escrita, pelo cheiro do escritor, impregnado em cada letra de tinta preta.

Tenho que sentir que ele vai escrevendo a história à medida que eu vou avançando nas páginas.

Depois, a trama, o enredo, as personagens, os locais, o drama, a intensidade, e a escrita, tem que ser ao sabor da pena.

Gosto de ler quem escreve, e deixa uma sustentação criativa, uma solidez do conhecimento do assunto sobre o qual escrvere, e da técnica da escrita.

Não, como eu.

Eu escrevo à medida que as ideias fruem, que saltam para a ponta dos dedos, e se materializam em cada tecla em que carrego, umas vezes suave, outras violentamente, e mesmo quando as ideias se confundem, faço questão de retornar. Retorno sempre, e se calhar, não sei, talvez seja exactamente esse retornar que nos reencontrou, em conversas, como quando tinhamos uma bancada central só para nós, através do livro que ele escreveu.

O retorno.

Eu gosto de escrever, confesso.

Mas, isto de ter um blog, ter que escrever um estipulado número de textos, com regularidade, esta pressão extra que se me cria, às vezes retira-me vontade. E não escrevo, com os riscos que isso implica. 

Ainda por cima, preciso de acabar de ler o livro que estou a ler.

E o resto.

As ambiguidade das redes sociais, a bi-polaridade, tri-polaridade, que lá se manifestam. Também leio. Também escrevo. Também sou alarve dos tempos modernos.

Isto, não há tempo para tudo.

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Gosto de escritores, que fumam, que bebem, que vão às tascas, que apalpam gajas, que olham tão diferente das luzes da cidade, porque o horizonte é sempre o mesmo.

Não, como eu.

Eu não sou escritor, sou apenas um técnico instalador de palavras, mas gosto de ler, e de escrever, não sei se já tinha mencionado, se calhar não.

Até pensei escrever outro livro.

Já escrevi dois. Dois fiascos, de vendas. Mais ou menos. Um foi, o outro não.

Só que eu não sou escritor. É a diferença entre um médico e um enfermeiro, no que à escrita diz respeito.

Eu sou o enfermeiro.

Até pensei escrever um livro, mas só depois de acabar de ler o que tenho em mãos.

Não fala de corrida, de exercício, de Muay Thai, o livro que o meu amigo escreveu.

Tem nada a ver com esses assuntos.

É uma cena mais profunda, que só lendo.

Não fala das coisas que eu falo, que eu gosto, às quais dou tamanha importância, que altero factos do meu dia, para ter duas horas para mexer o esqueleto e os músculos e suar e moer-me.

Mói o corpo, aconchega a alma, adormece a cabeça.

O livro que estou a ler fala de coisas que estão longe de mim.

Coisas que, no entanto, me agarram e me fazem dormir para lá das quatro da manhã, já há uma semana.

O meu terceiro livro - que estou para escrever há quatro anos, escrevo e apago, escrevo e apago, vezes sem conta - será um romance.

Quase que está a começar neste momento, porque deepois de acabar de ler este livro que o meu amigo escreveu, temo que me sinta tão constrangido que não arranque uma linha do meu. Assunto não me falta.

Vinte anos de carreira. Muitas experiências ao longo da vida, que a maioria das pessoas não viveu ou viveu em outros contextos, projectos, desporto, corrida, boxe tailandês, amor, porra, o que não falta é assunto, e deixo de fora aqueles produtos tóxicos que todos conhecemos, política, futebol, religião e cenas.

Temo que durante uns tempos me sinta meio quilhado.

Mais duro que correr ou treinar luta extrema.

Mesmo fazendo o exercício pragmático do afastamento e da não comparação; cada monkey no seu galho. Mesmo assim.

Acho que vou escrever um livro só para mim.

E há-de ser à meia noite e um de um dia qualquer.

Acho que vai começar desta forma:

"Era uma vez..."

(F@€£ - ¶§, já bloqueei outra vez. Isto não dá para tudo!)

 

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publicado às 23:49


6 comentários

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De Olinda Silva a 25.08.2015 às 15:43

Eu gosto de te ler, e pelo sucesso do teu blog não sou a única pessoa, acho mesmo que devias deixar de ter pudores e fazer-te "à vida"!
Também gosto muito de ler e gostava de saber escrever, quando comecei na blogosfera, arriscava e escrevia, depois comecei a ler pessoas como tu que escrevem bem e deixei de ter coragem, deixo isso para vós. Eu escrevo como falo, falo como penso...e agora só escrevo desabafos, tretas!!
Olinda
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De The Cat a 26.08.2015 às 01:08

Olá,
Eu gosto que gostes de me ler, não sei, no entanto, onde foste buscar a ideia do sucesso do blog. Não há assim tanta gente a ler-me, apesar de quem me lê, fá-lo com fidelidade. Isso é bom.
Eu escrevo como falo, falo como penso, escrevo como penso.
Se fosse perder a coragem para escrever, quando confrontadocom aqueles que escrevem melhor, ou diferente de mim, então não escrevia uma linha. Inspiro-me em alguns deles.
Fica registado o teu elogio. Se tens vontade de escrever, escreve. Se não tens as técnicas para escrever, vai buscá-las, como eu fui. Depois, é escrever. Obrigado, de novo. O Gato (ZG)
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De Ana Colaço a 26.08.2015 às 09:18

Já és um bom "técnico instalador de palavras"... Cada vez melhor!!
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De The Cat a 02.09.2015 às 15:37

É um pouco como os engenheiros e os engenheiros-técnicos. Eles são licenciados. Eu sou Bacharel. Um dia irei escrever como deve ser. :)
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De HF a 07.10.2015 às 20:21

Eu sou fã das "cenas" que aqui escreves.E claro das corridas.
Abraço
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De The Cat a 07.10.2015 às 23:04

Grande obrigado. Um abraço.

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