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MAIS LOGO NO SÍTIO DO COSTUME

por The Cat, em 03.09.15

1

 

 

Isto parece que é tudo cor-de-rosa, mas é um engano.

Isto, aquilo a que decidimos chamar vida, define as suas próprias cores em função de um dia e de outro. Não somos nós. Nós apenas adulteramos as cores. Manipulamos.

O resto são fotografias. Umas com mais filtros que outras.

Quem disser o contrário está a faltar à sua própria verdade, por muito que os tons rosa salpiquem uma qualquer timeline. O contrário de tudo.

A timeline é uma plateia, em casa cheia, pronta a apontar, o que quer que seja, um dedo, uma arma, um sorriso, um like. Um like, o poder do like.

Às vezes fujo dele.

Eu gosto de dias assim, como o de hoje.

Gosto dos dias que parecem longos, embora o ponteiro do relógio do tempo esteja a fazer uma média competitiva, a cada quilómetro que roda sobre si mesmo. As horas passam rápido, o que não impede que eu goste dos dias que parecem longos.

Aqui, sentado no sofá que ocupa um terço da varanda virada para o pasto e para o jardim, enquanto uma brisa de fim de verão me refresca os pés, encostados ao gradeamento, quase gelados, pernas esticadas, aqui faço tempo. Mato o tempo. À queima-roupa. Como na música.

I shoot him down!

Estes dias longos, saboreio-os como se fossem os últimos dias de um verão frio, como a morte.

A morte que me têm atirado às trombas todos os dias.

A morte vinda de todo o lado.

A morte mostrada até à exaustão.

Não é uma opinião. É um facto.

 

Um facto que provoca um arrepio sempre que ligo o Facebook.

Tenho-o feito muito pouco nos últimos dias.

Não é uma opinião. É um facto.

Eu não tenho opinião sobre a morte que me é atirada às trombas, sim, trombas, não será o que tem a humanidade no lugar da cara? A minha, a tua, a de toda a gente, menos a gente que aparece nas fotografias que me fazem pensar que há mundos que não são reais como o meu.

E não o são.

Não consigo ter opinião, porque as imagens toldam-me o pensamento, saltam, umas atrás das outras, incessantemente, acompanhadas de opiniões, que não consigo formular.

Não tenho opinião, porque engulo em seco, mas certo estou de uma coisa; há um nó dentro de mim.

É ele que me impede, sobretudo ele,  de dizer o que quer que seja.

Nunca o Homem me chocou de tamanho modo.

Em choque.

Sem opinião. Há-as que sobram.

Por isso, ao contrário de outras vezes, em dias longos como este, vim para a minha varanda escrever, enquanto lá em baixo, uma criança corre à volta do jardim, o pai vai atrás.

Aquilo é sol de pouca dura.

Acho que os chineses cá do bairro já me devem ter visto a correr, quando o sol se vai.

No outro dia, o vizinho do bloco F também andava a dar umas voltinhas.

Já no fim de semana a piscina estava cheia, como nunca em 15 anos.

A família indiana, que vive no rés-do-chão, costuma trazer o resto da família indiana, e lançam aromas de cravinho na piscina. Algumas entram e saem vestidas dos pés à cabeça.

Quando cá estão os vizinhos ingleses o bairro parece mais fleumático, é verdade, mas não sei quem são aquelas duas miúdas engraçadas que falavam alemão. Vive muita gente aqui no bairro. Alguns portugueses também. São mais os portugueses que os chineses, aqui no bairro.

Eles pararam de correr, enquanto eu escrevi o último parágrafo.

Vim escrever porque preciso de respirar da dor dos outros.

IMG_5683.JPG

 

Por volta do meio dia deixei a minha filha em casa de uma amiga.

Ela acordou-me com uma festa no rosto, como há muito não o fazia. Ela cresceu. 

Sorri-lhe.

- "Pai, estou pronta, quando quiseres vamos".

Fomos. A companhia da minha filha, o sorriso que ela me dá, os seus traços belos, a minha filha também vê as fotos que, estou certo, todos gostaríamos de nunca ter visto.

Ela é uma menina bonita. Ela fez-me uma festa no rosto, ao acordar.

Deixei-a onde tinha que a deixar.

Voltei.

Fui às compras, sim, aquele meu lado de gaja, e comprei umas ligaduras novas, uma cera para o cabelo - há semanas que tinha acabado -, e depois fui até à minha igreja.

A minha igreja fica ali, entre a linha do combóio e o rio. Vai daqui até lá ao fundo. Começa e acaba no jardim.

O rio.

Durante quase uma hora vi-o polvilhado por gente, dentro dele, o rio transformado mar, o mar sem barcos, sem nada, só com gente dentro dele. Gente que a gente acha que são nada e não são, são gente que não quer vir para junto de nós, gente que apenas quer a sua própria terra.

Em cada metro corrido, cada pensamento morto.

Obriguei-me.

Correr, olhar o rio, ver o rio. É meu. É vida.

Não foi para isso que ali fui.

Mas, no metro seguinte, as imagens voltavam a prender-me os músculos do meu tormento.

Corri entre a vida e a morte dos outros. E, em momento algum senti que ter opinião sobre o rio, que se transforma em mar de morte carregado, fosse o mais importante.

Naquele momento o que importava era apagar aquele filme da cabeça e olhar a minha realidade, ali, onde queria estar.

Fustiguei com o sol, com o calor, com o vento de frente, com os músculos das pernas e a sua loucura, e a loucura dessas imagens, que me atiram às trombas, e que as revi nos frames de cada passada. Sempre que olhava o rio, o rio sempre no horizonte.

Não tinha como não o olhar. Não tinha como não olhar as fotos que não queria ter alguma vez visto.

Não é opinião. É um facto.

E, só me atiram as imagens às trombas porque eu só agora delas fujo. Antes fiquei e vi.

Já as vi.

Não as esqueço.

Acho que ninguém alguma vez as esquecerá.

No fim da corrida, no fim do arco-íris, eu encontrei o meu pote de ouro.

Quão sortudo sou eu. 

Eles são como eu, não são crentes, mas frequentamos o mesmo santuário.

Esta a imagem também não a esqueço. É ela que quero levar, daqui a pouco, quando for trabalhar.

É esta imagem que me vai dar a coragem que me falta agora, quando eu próprio tiver que atirar as imagens que já vi às minhas próprias trombas.

Porque isto parece que é tudo cor-de-rosa, mas é um engano.

A imagem com que fico é a que ilustra este texto, lá em cima, sempre a primeira, a mais importante, a mais bela.

Não consigo encontrar beleza na tragédia.

Ela, a nossa vida, não é cor de rosa. Tem as cores que tem que ter.

Até logo, à meia noite, quando vira o dia, no sítio do costume.

 

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publicado às 17:15



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