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HÁ SEXTAS FEIRAS SANTAS

por The Cat, em 04.04.15

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Quem faz três quilómetros faz cinco e por aí fora.

Estava decidido desde início que ia experimentar o prazer da caminhada. Reparei nessa altura que nunca caminhei, caminhada, como muita gente faz.

Corro sempre em sentido contrário ao do trânsito, quando corro na estrada. Um amigo meu, atleta de alta competição morreu esmagado por um carro e nunca me esqueço disso. Evito correr na estrada. Sabia que desde ali até ao fim da recta eram mais uns três quilómetros. Caminhei.

 

Enquanto caminhava debatia-me com esse dilema: a cabeça só queria correr, as pernas devagarinho que devagar se vai ao longe, também.

Fiz um fartlek (zinho) - variações de ritmos - mas aldrabado. Caminhei mais do que corri. Já só faltavam três quilómetros. Era fazer a recta já dentro da vila, passeios largos, bom, e depois virar no Ginguinha e voilá!

Um dia hei-de perceber porque é que a corrida me custa enormidades nos primeiros cinco a seis quilómetros e depois ganho asas. Hei-de perceber, um dia.

Seja como for, ali já não dava para aldrabar. A senhora, na casa dos quarenta, equipada de preto e prata, corria em sentido contrário. Tão lenta quanto eu. Acelerei só naquela de não dar parte fraca. Cem metros à frente, walk on the wild side again.

Os gémeos não davam tréguas, mesmo assim.

Lá ao fundo duas trintonas, calças de licra, coloridas, elegantes, não conseguia perceber se eram giras, cada qual com a sua bolsa para o telemóvel pendurada ao pescoço, camisolas justas, passada larga, reparei só depois ao passar. Conseguia perceber que caminhavam.

Acelerei só naquela de não dar parte fraca. Cem metros à frente, walk on the wild side again.

Vinham em sentido contrário. Dá ideia que o passeio do outro lado da estrada tem uma enorme tendência feminina.

Sempre que um corredor passa por outro ou passa em silêncio, ou sorri, ou cumprimenta. Às vezes apenas se trocam olhares. Foi o caso.

Parei para molhar a cara na lavandaria de carros low cost. Segui a corrida, já estava quase e tinha cada vez mais vontade de correr, mas caminhava. Estava a aprender a caminhar. O corpo é quem mais ordena.

Wrong!

Cruzei-me com mais um casal, a passo, eles. Há cada vez mais gente a caminhar e a correr nas ruas e isso é bom.

Fiz os dois últimos quilómetros a um ritmo que me fazia ouvir os gémeos a gritar que iam rebentar. Páraaaaaaaaaa, gritavam a plenos tendões! Tentei abstrair-me. Fui sorrindo as carros que passavam, estava a metros de casa. A vendedora que estava na beira da estrada olhou-me de forma estranha. Outra ves. Quase uma hora antes já me tinha visto a passar, em sentido contrário, a caminhar.

E a barba por aparar. Não há meio.

Cheguei ao condomínio, alonguei, subi, fiz o que tinha a fazer e segui viagem, de carro.

Fui trabalhar. Gostei dos ténis coloridos da senhora que corria equipada de preto e prata.

Amanhã a ver se passo por lá. Tenho a barba por aparar e não posso ir à noite. Não porque seja pardo, mas porque o salão está fechado.

Há sextas feiras santas.

 

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publicado às 16:00



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