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GOSTO DE VOLTAR SEMPRE AO LOCAL DO CRIME

por The Cat, em 11.06.15

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Foto by the Cat - 11/06/2015

 

Hoje voltei ao local do crime.

Aquilo foi um crime passional, por isso não resisti a voltar e voltei sem remorsos nas pernas.

As paixões acham que me levam a melhor mas apanho-as sempre na curva.

Correr é também uma das minhas paixões.

Levei na minha corrida de hoje a expectativa do reencontro com qualquer coisa inesperada. Sabia-o bem, sem saber ao que ia. Já ali tinha estado.

Sem saber o que ia encontrar.

A meio da minha corrida de hoje decidi, involuntária e inconscientemente - quero acreditar que sim -, ir até ao passeio onde encontrei a Bíblia aberta caída no chão, a meio da minha última corrida. E, como as minhas corridas normalmente terminam aqui nestas linhas, tudo se conjugou, no devido tempo.

O tempo mudou.

A tarde começou estranhamente fresca, depois do calor africano que nos fez transpirar nos últimos dias.

Senti alguns pingos gelados, na cara, aqui e ali, nos braços, ao longo dos dez quilómetros, quase diários.

Umas vezes vou mais, outras vou menos, mas vou praticamente todos os dias.

Quando comecei a corrida de hoje alguma coisa estava a acontecer-me, sem que encontrasse uma pista que fosse, que não a pista onde estava a correr, algo que me ia obrigar a questionar um sem número de acasos, até agora.

Ontem não corri porque sentia-me como que passado a ferro por um cilindro compressor. Foi dos nervos. Eu às vezes enervo-me, como as pessoas.

Pela manhã fui ver o segundo jogo da final do campeonato de iniciados ao Seixal, o meu filho joga no Vilafranquense e fomos lá jogar a segunda mão da final com o Benfica.

Empatámos, eles empataram a 3 minutos do fim, perdemos o título, mais, na última jogada falhámos o título de baliza aberta. Aquele golo e...e acabou assim mesmo.

Estivemos sempre a ganhar, nos dois jogos que fizémos.

A equipa empatou os dois mas o Benfica é que ganhou, no final, a final.

À tarde o corpo reclamava do stress. Moído. Não, nem pensar. As pernas estavam feitas com o resto do corpo. Um complôt contra mim. Eles lá sabem. Eles sabem lá. E elas.

Já lá vou à Bíblia aberta caída no chão, aliás, vai reparar que ainda não a fechei, apesar de não ser crente ortodoxo, sou pouco ortodoxo numa mão cheia de coisas na vida, mas sou ultra-ortodoxo em outras, nos princípios que me devem orientar, por exemplo, e que a corrida tão bem traduz e personifica.

Eu não gosto de futebol.

Desencantei-me, desapaixonei-me, perdi-lhe a admiração. Simplesmente não gosto e isso faz confusão quando o digo.

Reforço que há pessoas no mundo inteiro que não seguem o futebol, que têm prioridades diferentes. Fair enough?

Eu gosto de futebol, na verdade até gosto, porque sou de cá.

Gosto do futebol que a equipa onde joga o meu filho pratica, gosto de o ver jogar, joga bem o puto e é feliz.

Gosto do clube onde o meu filho joga porque é o clube da minha terra, já lá joguei, foi o primeiro clube onde joguei, ainda o campo era pelado - eu a fazer-me de velho - tenho um ligação afectiva com aquilo, admito.

Mas, não gosto do futebol que a maioria das pessoas gosta.

Já gostei.

Deixei-o quando tive a certeza que a nossa relação tinha chegado ao fim. Sou de (quase) repentes.

Foi há uns anos.

Vivemos juntos 15 anos, mas não dava, ele era muito emocional nas reacções e para isso já bastava eu.

O campo era pequeno demais para nós dois.

Foi já longe desse mundo que o mundo quase me escapou entre os dedos.

Há uns meses vivi o episódio mais desagradável da minha vida "pública", é público, não acrescento mais nada à história por não haver nada, a não ser dizer que continuo a perceber a reacção que aconteceu, percebo as pessoas, os outros, e sublinhar as minhas desculpas, sérias e sinceras, aos que ofendi, sem que alguma vez o tenha pretendido.

Foi. Passado.

Apelei à dignidade que me incutiram na vida e aos valores e aos princípios e pensei nos outros e nos seus valores também, aqueles que me ameaçaram e ofenderam. Sim, pensei neles e nos seus reais valores que não são materializados num qualquer teclado de computador.

São pessoas como eu.

A vida ofereceu-me mais uma lição, tantas em apenas meio ano. Esta lição.

Em comunicação, puxar assuntos complexos para a conversa não é boa técnica, eu sei, mas tive que o fazer.

Isto por causa da corrida de terça feira e a de hoje (quinta feira).

E, da Bíblia aberta caída no chão.

É ela e o que ela provoca e que está no centro deste texto. E no último, antes deste.

Aqui, ao blog, chegam comentários sobre o texto anterior, o último.

Retive e reflecti em algumas passagens de alguns comentários, como esta:

"...Quanto à Bíblia, eu teria lido. Não resistiria a saber em que Livro estaria aberta... Há sinais, mensagens que nos tocam e nos transmitem Algo que nos ultrapassa, que nos transcendem enquanto seres humanos..."

Reparei que houve comentários, reacções e destaque ao texto anterior.

Reparei agora, quando visitei o blog, para escrever.

A minha corrida de hoje foi à tarde.

A minha decisão de voltar ao local do crime também.

Houve mais passagens de outros comentários que ficaram retidas na minha linha da escrita. Como esta:

"...Fiquei curioso com o que diria, ou melhor em que capitulo estaria aberta..."

É impressão minha ou há aqui algo para lá da - minha - lógica?

Ou só eu é que sinto?

Na próxima semana voltarei - cinco meses depois - a apresentar noticiários, uma das coisas que mais gosto de fazer, quase tanto como gosto de correr.

Parei de os apresentar, por causa do tal episódio, que do nada se transformou num momento de enorme reflexão pessoal.

Por respeito aqueles que me ofenderam e ameaçaram, que são exactamente aqueles para quem trabalho, de forma séria, digna, respeitadora e honesta. É para eles que também escrevo todos os dias.

Nas vésperas de voltar ao que mais gosto de fazer e não faço há cinco meses, hoje, antes da minha corrida, fui abordado pessoalmente, pela primeira vez (e única) desde esse terrível episódio.

Foi no café onde bebo a bica e como uma queijada, todos os dias antes de ir correr.

-"Queria pagar os nossos cafés e o café deste senhor..."

Olhei este homem na casa dos sessenta. Fitei-o bem.

O relógio branco, clássico, com um leão verde.

O símbolo do Sporting Clube de Portugal.

Tinha uma voz amigável. Camisa clara, com finas riscas castanhas. O filho e uns amigos esperavam-no lá fora.

- "Agradeço-lhe, mas não, por favor..."

Insistiu.

Foi a primeira vez (e única) que um desconhecido me abordou pessoalmente sobre o sucedido.

- "Lembra-se de uma mensagem que recebeu a dizer-lhe que havia de tomar um café consigo, porque sabia que você era uma pessoa às direitas e que aquilo foi mal interpretado pelas pessoas, pois era eu!".

Nesse momento fiz o meu luto. Pasmei. Sorri-lhe. Apeteceu-me dar-lhe um abraço. Ficou para o fim.

Ainda a queijada ia a meio.

Passaram cinco meses. 

Senti as consequências de algo que entendo, mas que não teve, nem nunca tería a intenção e a dimensão que lhe foi dado. Nunca. Assumi-as e às responsabilidades, como me foi ensinado ao longo da vida.

Era o momento de virar a página.

Nada mais havia para duvidar.

Falei com este desconhecido, que me pagou o café, sobre o terrível momento que vivi, sobre como o ultrapassei e fui buscar forças e coragem, justifiquei-me a ele, personificação daqueles que ofendi, sem querer ofender.

Como se diz, desabafei e concluí o meu luto no momento em que este senhor, a quem não perguntei o nome, me deu o tal abraço na despedida e me disse:

- "Tivessem todos os seu carácter, a sua coragem e o seu profissionalismo e o mundo era tão melhor. Foi um gosto conhecê-lo. Eu sabia, tinha a certeza."

Podia estar a inventar esta história, mas era chato se o senhor a quem não perguntei o nome mas não esqueço as feições, ou o filho, se um dos dois pesquisar pelo blog do Gato e encontrarem estas citações inventadas.

Foi assim que se passou. Como tudo o que aqui se passa. Tudo aqui é verdade.

Continuo a não gostar de futebol, daquele futebol que a maioria das pessoas gosta.

Gosto de pessoas e do Vilafranquense.

Fica também publicamente subinhado: o meu clube é o U.D.Vilafranquense, não é o Benfica, com quem eu simpatizava, mas não ao ponto de levar espectadores do meu trabalho, da minha carreira e da minha vida ao engano, isso não. Terminou, porque sou mais do que apenas isso.

E, é possível viver sem gostar de futebol como a maioria das pessoas. Acredite que é!

Eu provo-o.

Houve nesta abordagem, deste homem, que me fez sentir o mais humilde dos sacanas, algo de anormal, tão anormal como aquela Bíblia aberta caída no chão, a meio do meu caminho.

Aquele é um caminho de peregrinos. Há marcas que o assinalam. Há peregrinos todos os dias a caminho do norte.

Foi algo anormalmente bom.

Foi por se ter passado este episódio, de manhã, no café, que decidi correr novamente na minha pista, a pista da vila, sem me importar ou me irritar com os mais negligentes. Hoje não havia cães, só os dejectos secos agarrados ao asfalto.

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Foto by the Cat - 11/06/2015

 

Havia quase ninguém, como quando nos sentimos sós.

Negligentemente no meio de tudo.

O tempo mudou, não estava para passeios.

O que me empurrou até onde a Bíblia estava aberta caída no chão foi precisamente este encontro que tive pela manhã.

Ele foi o selar de um curto ciclo. Nasceu, viveu, morreu.

A Bíblia já não estava lá.

Talvez se eu tenho corrido na quarta feira a tivesse encontrado, hoje já lá não estava.

Uma das suas páginas, que jamais alguém irá ler, estava intacta, num local para onde o vento a levou. Cruzou-se comigo.

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Foto by the Cat - 11/06/2015

 

Uma outra, das centenas delas, estava amachucada, por uma mão que não a respeitou.

Talvez, se tenho corrido na quarta feira de futebol e encontrado a Bíblia, no mesmo sítio, o ciclo nunca se fechasse.

O tal fim que encerra um começo.

Talvez as páginas dispersas, caídas no chão, em locais diferentes, embora semelhantes, sejam o ensinamento maior, tão grande como aquele café, curto, quente.

O ciclo fechou-se.

A aprendizagem aconteceu.

O sofrimento foi ultrapassado. Os medos também.

As páginas voaram, uma levada pelo vento, intacta, a outra pela mão do homem, amachucada.

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Foto by the Cat - 11/06/2015

 

As pedras da calçada são as mesmas, sujas, gastas, carregadas de cimento de anos e anos.

Aquele passeio ladeia a cimenteira que está há séculos instalada na vila, não na minha vila, na vila vizinha.

Hei-de lá voltar. 

Fica em caminho, a meio do caminho, por baixo da ponte, junto à fábrica do cimento e da estação dos combóios.

Hei-de pisar aquelas pedras da calçada de novo e correr ao longo do jardim acinzentado.

Engraçado, parei sempre, nunca corri em cima delas.

Parei sempre.

Estava uma Bíblia aberta caída no chão.

Não a li.

Quando lá regressar vou certo que já não haverá páginas espalhadas. O vento levou-as.

E, eu nunca irei revelar o que nelas li.

Naquela única página intacta que nunca alguém ousou amachucar.

Apenas tentou.

É tempo de voltar para trás e continuar a correr.

Há metade do caminho para fazer.

Houve nestes dias algo que me ultrapassa.

Que ultrapassa a minha própria lógica.

Só não vou correr agora cá por coisas...

 

 

 

 

 

 

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publicado às 23:53


2 comentários

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De Francisco Carita Mata a 12.06.2015 às 18:20

Texto muito bem escrito. A estrutura narrativa, parafraseando o desporto, lembra-me um jogo de basquetebol. Pancadas secas, curtas, sem rodriguinhos e encesta!
Muito poético! Fez bem em voltar à Bíblia.
A narrativa apresentada é uma metáfora da vida.
Imagem de perfil

De The Cat a 12.06.2015 às 19:33

É tão só o que me proponho: escrever sobre as minhas corridas. Elas são só isso, metáforas da vida.
Obrigado. ZGQ

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