Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



GOOD MORNING COM UM SORRISO NA CARA

por The Cat, em 23.04.15

MAICKEL.png

 Eu acho que aquilo que nós (seres humanos) mais precisamos são histórias de superação.

São elas a lenha que alimentam a fogueira de cada um.

Também acho que precisamos de histórias que nos atirem por terra. Só assim conseguimos perceber que não andamos com os pés na terra, embora tenhamos essa permanente sensação.

Há dois anos o mundo chocou de frente.

Dia 15 de Abril de 2013, dez para as três da tarde, duas bombas explodem na rua Boylston, em Boston, bem próximo da meta da maratona.

Morreram três pessoas, centenas ficaram feridas.

O atentado terrorista chocou todos aqueles que amam a corrida e todos aqueles a quem a corrida nada diz. Um atentado choca-nos sempre.

Dois anos depois a maratona de Boston voltou a ter não uma mas várias histórias brilhantes para contar. Já falei da sobrevivente de Auschwitz, que aos 84 anos anos faz uma perninha, de vez em quando, nos 42 quilómetros, a distância mítica. Hoje, a história é igualmente bela, por isso os media em todo o planeta lhe deram eco.

Estou a falar do último classificado da Boston Marathon 2015.

Cada prova oficial, seja de que distância for, tem um tempo limite para terminar, até a maratona tem. Mas, há sempre uma excepção, quando justificada.

Maickel Melamed é a excepção. Ele foi o último a cortar a meta. Demorou muito mais do que o permitido. Maickel, tratemos assim este venezuelano, só chegou mais de 20 horas depois de ter partido. Normalmente o limite ronda as seis horas.

Há, como escrevi, imensas histórias brilhantes, esta é, provavelmente, uma das mais incríveis, disse o presidente da câmara de Boston quando recebeu Maickel na linha de chegada.

Na verdade, aos 39 anos, o venezuelano é ainda um jovem para a maratona. A justificação para ter cortado a meta às quatro da manhã, debaixo de forte chuva e vento é simples, bela, encorajadora e estonteante. Maickel Melamed sofre de distrofia muscular. Ponto. Arrepia ler?

Arrepia!

Mas arrepia mais ver o vídeo da chegada, ora veja.

 

 Maickel transformou a chuva e o vento fortes em cinzas que lhe alimentaram os músculos e a alma.

Vinte horas depois, já de madrugada, Maickel tinha centenas de pessoas à espera junto à linha da meta. Assim que o viu ao longe, a multidão começou a contar-lhe os passos, novamente e já vamos perceber porquê, marcou-lhe o ritmo e as vozes carregaram-no até ao fim.

“Por vocês. Eu corro por vocês. Eu corro para mandar uma mensagem, para que elevem a fasquia das vossas próprias expectativas”, disse Maickel no momento em que recebeu a medalha, a grande vitória de todos aqueles que correm, a medalha que certifica que cumprimos o objectivo dos objectivos: chegámos ao fim.

A distrofia muscular é, de uma forma geral, considerada rara, como raro é encontrar tão motivante exemplo. Maickel Melamed nasceu com o cordão umbilical enrolado à volta do pescoço. Ficou muito tempo sem oxigénio.

“O amor é muito mais poderoso que a morte. Foi difícil, mas foi maravilhoso”, disse Maickel, que cortou a meta numa cadeira de rodas. Símbolo da superação, ele surpreendeu ainda mais:

“Para vocês, pode ser que eu estivesse apenas caminhando, andando, mas eu estava a correr”.

Temos à frente dos nossos olhos este exemplo. É incontornável e bela esta história, até porque, apesar de ter demorado 22 horas a fazer um percurso, que tem no limite seis horas para ser completado, Maickel Melamed, como qualquer pessoa que corre maratonas, teve que definir uma estratégia.

Ele manteve religiosamente uma rotina: descansava dez segundos a cada 46 passos, por isso, no final, a multidão contou-lhe os passos finais, em voz alta.

Estava a metros da superação.

A multidão carregou-o ao colo e à cadeia de rodas. Há incentivos que nos fazem sentir que vamos carregados ao colo, embora sejam duas rodas que nos levam.

Só na parte final Melamed usou a cadeira de rodas. No limite da força humana. Foi nela que recebeu a medalha, vestindo o blusão púrpura da maratona de Boston.

maickel 2.png

No fim, se eu lhe disser que Melamed se magoou algumas horas depois da partida, ainda vai ficar a admirá-lo mais, porque sei que o admira já, pois foi isso mesmo que aconteceu.

Este exemplo de querer é também um exemplo e uma referência, sobretudo, na América do Sul.

Ele já correu, assim, neste estado, as maratonas de Nova Iorque, de Berlim, de Chicago, de Tóquio e agora a de Boston.

Para ele esta foi a mais especial de todas.

Foi a Boston que os pais o levaram, um dia, para tentar a sua recuperação. Significa mais do que uma corrida, aliás, como todas as corridas significam sempre mais que uma corrida.

Maickel Melamed foi acompanhado durante toda a maratona por um grupo de voluntários da ONG Vamos. E ele foi, até ao fim.

Literalmente.

Esta foi a última Maratona deste brutal exemplo da coragem que eu gostava de ter, da força que eu gostava de ter, da capacidade que eu gostava de ter.

Se eu fosse assim, um destes dias pensava correr uma maratona.

Mas, eu não sou o Maickel, não tenho a sua doença, felizmente, mas tenho aquilo que ele me acabou de dar e isso não tem palavras. Talvez um dia eu corra uma maratona.

“Com esta aventura aprendi a dizer good morning, com um sorriso na cara”.

Também eu, Maickel, também eu.

Obrigado.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:43



Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D