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(Foto by the Cat )

 

Já está.

Já passou.

É hora de fazer o balanço.

Tive a oportunidade de viver a experiência, de estar dentro de uma das maiores regatas do mundo, dentro de um veleiro tão esmagador quanto a destreza dos homens que nele competem e foi aproveitar uma oportunidade única, viver um momento inesquecível.

Fiz parte da tripulação do VO65 da equipa espanhola Mapfre.

Sou sincero: percebo pouco de vela, contudo, o que me pedem é que faça jornalismo e fazer jornalismo é contar histórias, dar a conhecer.

E tem truques.

Para falar de vela existem aqueles que são da vela. Eu conto as histórias e isso conjugado dá no Jornal da Regata, na TVI24.

Também tive a oportunidade de estar dentro da regata, a acompanhar a regata, ao lado dos monstros coloridos, no Media Boat.

Outra forma de sentir uma hora de vida a alta velocidade.

Mas é sobre a equipa que partiu de Lisboa que quero falar hoje.

Sobre vela já chega.

É sobre pessoas que vou falar. E sobre corrida.

Há coisas que são como são.

Chegou ao fim uma das viagens que mais gostei de fazer enquanto jornalista, como pessoa. Embora possa não parecer, nos dias que correm, o jornalista também é uma pessoa.

Conheço o Carlos Rodrigues há vinte anos. Um enorme profissional. Um homem com um feitio "próprio", um camarada de armas.

Conheço o Rodrigo há uns cinco anos. "Profissionalão", atento, conhecedor, preocupado, amigo.

Conheço a Ana Colaço há vinte anos. Só a conhecia da rádio, mas há vinte anos. Encantadora. Que voz! Que coração! Que gentileza de mulher.

Conheço o Zé Pedro há duas semanas. Uma das pessoas mais tranquilas que conheci. A paz que transparece é acompanhada de uma coragem enorme, um pragmatismo raro e de uma vontade e saber fazer notáveis.

São estas as personagens desta história.

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(Selfie by the Cat)

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(Selfie by the "boss" - os 5 - )

 

 

Um grupo de pessoas e de profissionais que durante seis dias viveu intensamente cada um desses dias.

Rimos que nem doidos, jantámos sopas e lagostas, tirámos fotos até os iphones entrarem em sobreaquecimento, comemos hot dogs e french fries cheios de ketchup e donut´s cheios de amizade.

Andámos à vela, corremos pelo fresco da manhã, perdemos autocarros, mas nunca a união.

Conhecemos pessoas deslumbrantes, estivemos em jantares de gala à americana, em mansões de filme, fomos às compras, ouvimos falar imenso de Portugal, dos Azores, de São Miguel.

Fomos enormes companheiros de jornada.

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( Foto by não sem quem, confesso )

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(Foto by The Cat Run himself @ morning run )

 

 

Todos os norte-americanos que conhecemos e foram tantos, como o imenso Peter Silvia (escrito mesmo assim, não é gralha) à cabeça, tinham um familiar português, a mãe, o pai, uma avó, um avô, um primo, encontrámos um norte-americano que até tinha tido uma namorada portuguesa, à falta de um parente mais próximo.

O único que não nos disse isso - porque todas as viagens de carro serviam para conversar sobre coisas novas - teve azar. Perguntámos nós.

Vivi seis dias com um grupo de pessoas que tem uma matriz linear: respeitam os outros.

Durante seis dias fui o bobo da nossa corte. Não tenho outra forma de ser.

Mas um bobo de uma corte que o tratou com afecto e respeito.

Eu retribuía com a provocação de gargalhadas gerais.

É assim que encaro a vida, com gargalhadas de gente boa e feliz. É mais fácil passar essa felicidade aos outros.

Cada um de nós sabia, em rigor, o que ali estava a fazer.

O Carlos Rodrigues tinha a missão de filmar.

O Rodrigo de nos acompanhar no terreno.

A Ana de fazer reportagens para os sites da RFM.

O Zé Pedro para acertar os últimos detalhes do stopover de Lisboa.

Todos nós tínhamos a missão global de fazer networking, estabelecer contactos, representar as nossas empresas, criar laços profissionais, trabalhar a agenda.

Conseguimos tudo isto em seis dias.

Eu ainda ouço o telefone imaginário.

Desde o primeiro dia que havia um telefone no quarto que tocava sem parar.

Era lá ao longe. Nunca o descobrimos. Mas o som ficou em loop.

Pior mesmo foi naquela manhã em que ao falarmos sobre o assunto enquanto esperávamos o barco-táxi alguém diz:

-" Escutem, está alguma coisa a tocar."

As gargalhadas não deixaram ouvir o som. Mas estava. O iPad estava a despertar há 3 horas, dentro da mala, sem que desse conta.

Mas havia mais coisas a tocar, estranhos sons vindos do nada.

Desde o primeiro dia.

A Ana chegou a corrigir-me alguns dos textos que escrevi todos os dias. Aparentemente gostaram de os ler. Não sei se se aperceberam que foram eles quem os escreveram.

No avião, na vinda, o meu lcd estava em chinês.

A Ana bem tentou, mas nada feito.

Liguei para casa. Saudade! Boa!

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(Foto by Ana Colaço da RFM)

 

Os barulhos, esses sim, eram fantasmas que iamos descobrindo. Também fomos caça-fantasmas com lança chamas que lançavam pipocas com sabor Rum Runner, não foi em minha homenagem mas podia ter sido.

Rum Runner é o nome de um veleiro. Não é rum para corredores. Foi a única doce desilusão.

Perfeito.

Pedi um pacote. Eram doces, as pipocas. Os meus dois companheiros naquele momento não resistiram.

Rum Runner.

O rádio-despertador do quarto, que nunca utilizei, estava com o volume no mínimo.

Só ao fim de uns dias dei conta e zuca, ficha desligada.

Pior, ontem, quando comecei a escrever este texto estava a ouvir música, como sempre.

Estou a terminar, agora que são quatro e tal da tarde.

Ontem, quando parei de escrever não desliguei o computador.

Uma hora depois levantei-me do sofá para mandar os meus filhos desligarem a música e dormirem. Estranho, a esta hora já costumam estar a dormir.

Era a música do spotify a sair pelos auscultadores.

Respeirei fundo, o fantasma dos 19 piratas enterrados na baía de Newport continuavam lá.

Talvez tenha sido a eles que eu tenha ouvido na América.

Quando os mandaram enterrar, conta a lenda, obrigaram a que fosse num local onde a maré nem subisse nem descesse. Para jamais terem descanso.

Até que, apareceu o vereador.

Jorge Máximo chegou no sábado e voltou na segunda. Nem teve tempo para respirar, apenas para receber o testemunho e trocar de bandeiras. Newport/Lisboa, EUA/Portugal.

Teve tempo para jantar connosco e correr comigo.

Eu corri todos os dias. As manhãs frescas não me deixavam ficar no quarto.

Ainda bem que o Jorge só lá esteve dois dias. Com ele fiz os meus 8 quilómetros mais rápidos, a baixo dos 6 minutos.

Com ele corri, finalmente, na baixa da cidade, junto ao porto dos veleiros e aos edifícios históricos.

Conheci o coração de Newport nas horas em que o dia se levanta e as pessoas o vestem.

Ontem, já na Lezíria, já em casa, saí para correr.

Voltei a fazer 8 quilómetros e voltei a correr a baixo de 6 minutos por quilómetro.

Para muitos é uma lentidão, para mim é algo que nunca atingi.

Culpa do vereador.

Pensei nele ontem. Se com ele consegui, sem ele tinha de conseguir. Consegui.

Agora não penso correr mais lento, não senhor. Adoro sentir a transpiração a aquecer-me o corpo, a boca a secar, as pernas a deixarem de doer, o coração a bater.

Cautela, que qualquer dia vou daqui até à América a correr.

Não vou nada!

Até porque de Newport guardo um postal escrito por pessoas magníficas.

Cinco delas muito magníficas.

Pela primeira vez escrevi dentro de um avião e partilhei para o mundo, por duas vezes.

Uma delas no aniversário da minha mãe. Fui o primeiro a dar-lhe os parabéns. Nunca lhe tinham dado os parabéns do céu. A primeira vez.

Pela primeira vez evacuaram um edifício onde eu estava e eu em vez de fugir fiquei a filmar e a rir que nem um louco. E a Ana.

-"Ana, podemos ser presos, não estamos a cumprir a ordem de saída".

O que rimos!

Nos cartões de memória da câmara de filmar ficam os sons e as imagens.

Aqui fica o resto. 

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( Foto by the Cat )

 

É por isso que deixo aqui um obrigado especial ao Carlos, à Ana, ao Rodrigo, ao Zé Pedro e ao Jorge.

Há viagens que valem uma vida. Há profissões que não são profissões.

É por isso que sempre que decido mudar de vida deito sempre a toalha ao tapete e vou correr.

Eu sei que isso passa.

 

 

 

 

 

 

 

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