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FILHO DE PAI INCÓGNITO

por The Cat, em 04.08.16

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 As coisas sempre me aconteceram por acaso.

Eu sempre procurei aquilo que queria, mas há sempre uma dose de acaso, em tudo.

Foi o caso.

Nasci (profissionalmente) de pai incógnito.

Mais acaso que isto, para começo de conversa...

Hoje é quinta feira, 4 de Agosto de 2016, correcto?

Correcto!

Faz hoje 22 anos que comecei a aprender a fazer televisão, num cinema.

Aquele não era um cinema qualquer. 

Era o Berna, colado à igreja de Nossa Srª de Fátima, em Lisboa.

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Mas, hoje, hoje também passam 24 anos desde que recebi a minha carteira profissional, que - lá está -, por acaso, renovei hoje. Um dinheirão que se paga para trabalhar.

Sim, eu tenho carteira profissional e tive três padrinhos de carteira, naquela altura usava-se, dava prestígio ter padrinhos com relevo profissional. Nomes feitos, os mais velhos (na profissão).

O Francisco Prates, que ainda hoje trabalha comigo, a Dina Soares que é uma brilhante jornalista e o Paulo Sérgio, que era meu editor na TSF e que tinha ido para a TVI, o Paulo Sérgio que hoje exerce cargos de chefia na RTP/RDP.

Ainda todos no activo

Não sei, confesso, se chegarei ao quarto de século de carreira, não faço ideia do que estarei a fazer de hoje a um ano, amanhã, não sei o que será amanhã, daqui a um ano é longa a estrada.

Sei que se acontecer irei convidá-los para um jantar.

Sei que se não acontecer, o que foi já me marcou como homem, como gente, como pessoa, como profissional.

É metade da minha vida inteira, quase, para ter uma ordem de comparação.

Durante quase metade da minha vida trabalhei num ambiente competitivo, naturalmente competitivo.

Cresci ali, casei ali, fui pai ali, vi partidas, vi chegadas, estive nos altos, fui o primeiro nas quedas, ali fui tudo, tudo me fiz ali.

Corre-me na medula. É tinta que já não desaparece com o pisar dos passos. Corre-me nas veias, entranhado na carne, por dentro, nos tendões, nos músculos, na boca seca, nos olhos salgados, assim mesmo, sem grandes merdas, tal e qual.

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O que sou veio muito de onde vivi esta quase metade da vida, mas eu nunca baixei os braços, nunca, quando era preciso puxar cabos, para que as velas inchassem e a viagem tivesse, por fim, início.

Não se trata de dedicação. É retribuição. Retribuir, sempre, o que me foi dado.

A ordem natural das coisas, as coisas que faço, as únicas que, credo cruzes canhoto, as únicas que sei fazer com "alguma dignidade", como diz um amigo meu que é realizador.

Quando me perguntam assim: 

"Então, estás a gostar de editar?", respondo invariavelmente que sim.

E, acrescento, também gosto quando estou a montar um off, a fazer uma reportagem, um directo, ou simplesmente a escrever um pivot ou um lead.

Ficam assim tipo a olhar para mim, quase de lado, sinto-o na escrita, quando é por escrito, obviamente.

"Sim", respondo. 

"Gosto de tudo o que faço, porque é aqui que me sinto bem, as minhas ferramentas estão afinadas, executam todas as tarefas. Fazer televisão é muito mais que escrever, editar imagens, falar, ouvir, partilhar, fazer televisão é fazer magia e ninguém pede a um mágico que revele as suas técnicas.

Nem a um mago. Os reis magos.

Eles entram na história só para fazer esta ligação quase espiritual, um non sense técnico, chamemos-lhe assim.

Os reis magos fizeram-me lembrar que quando entrei pela primeira vez na TVI havia um crucifixo na parede principal da redação.

Havia uma linha conservadora na forma de fazer televisão.

Uma máquina desadequada, mas cheia de peças brilhantes, as pessoas.

Naquele dia cocei a cabeça, assim como que a pensar; "que cena, marquei entrevistas com todos menos com estes".

O meu estágio prolongado e remunerado estava a terminar.

A TSF foi a outra escola que "se-me" colou à pele, por dentro.

Os mestres estavam ali. Ali, estava eu, com eles. A absorver, o ar, as palavras, o som da máquina dos telexes, a cortar fita e a colar sons, a escutar, escutei muito na TSF.

Observei ao limite, as fotografias no corredor da redação, espetadas numa cortiça de memórias. Os rostos, as festas, os momentos.

Tería sido uma paixão, de tão curta duração, meio ano de intenso afago, mas foi amor que ficou.

Quando tens saudades é amor.

Corre-me no coração.

Acho que foi aqui que nasci, neste momento. Aqui começou verdadeiramente a minha carreira; vinte e quatro anos já poderá ser considerado carreira?!

Não sei, mas a palavra entende-se.

"Não, nem pensar", pensei eu.

Era dia 2 de Agosto de 1994.

Faço anos de carteira profissional no mesmo dia em que comecei a trabalhar na TVI.

Lado-a-lado, na cronologia.

Eu já trabalhava, primeiro na Rádio Ribatejo, onde lia os resultados dos jogos dos regionais, e onde, ao fim de um mês, já lia os noticiários (confesso: os leads do correio da manhã transformados em notícias de rádio) da manhã.

Foi também nessa altura que me viciei em bolas de berlim, com creme, e em galões, a meio da manhã, no café por baixo da rádio.

Qual contratação, cara naquela época, transferi-me para a Rádio Lezíria (a minha Lezíria).

Foi fazendo o curso de jornalismo e quando entrei na Imprensa decidi colocar em prática o que ia aprendendo, tal como o tinha feito com a rádio, e fui trabalhar para o semanário Vida Ribatejana. Não era uma semanário qualquer.

Era o segundo jornal mais antigo no país, a seguir ao Açoriano Oriental.

O Açoriano ainda é vivo. A Vida Ribatejana morreu.

Mas era um jornal muito bem feito, para a época.

Era a época da revista "K", do Independente, da SIC (era o meu sonho na altura, acabei do outro lado), da TVI, da revolta na ponte, era o tempo de experimentar, de apostar, de decidir.

Decidi então ver o telejornal da TVI, o meu objectivo era claro: ver quem era a direcção de informação.

No dia seguinte liguei. Só me faltava marcar entrevista com a TVI, para ver se dava um rumo mais definitivo à minha vida. A bolsa do curso estava a terminar, eu já tinha carro, já tinha vida, tinha que dar ao pedal.

"Boa tarde, peço desculpa por incomodar, precisava de falar com o senhor Jaime Almeida Ribeiro...Sim, obrigado, diga-lhe que é José Gabriel Quaresma - nessa altura já tinha escolhido o meu nome profissional, que constava na minha carteira profissional, obtida mal comecei a trabalhar na rádio -".

Eu não era propriamente da TSF, eu era um tipo que queria ser jornalista de televisão e que estava na corda bamba para ficar sem emprego.

Naquela altura, como agora, o estágio era um emprego, só que remunerado.

"Um momento", ouvi do outro lado.

"Obrigado por ter aguardado, vou passar ao dr. Jaime A.R. ".

Até hoje, ele não sabe quem eu era, mas não era da TSF.

Disse-lhe ao que vinha. Mandou me ir um dia depois. Um dia depois de ter começado levava a minha primeira piçada grande, de várias, ao longo dos anos.

Inssurecto, é o que é!

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No dia dois de Agosto, não me lembro de como ia vestido, fui ao encontro de Nuno Ferreira, editor de desporto, hoje director da Sport Tv, desde quase o início.

Lembro-me de o ver ao cimo das escadas que davam para a entrada do antigo cinema transformado em estúdios de televisão.

Lembro-me de subir as escadas, que antes davam acesso ao primeiro-balcão, de onde se viam os filmes mais "in" na época, frequentado pela classe média-alta das Avenidas Novas.

"Nuno, desculpe, eu vou ter que andar com gravata?", perguntei-lhe, enquanto nos detivemos nos degraus. Eu encostado à parede, a olhar dois degraus abaixo, ele encostado ao corrimão, a olhar dois degraus acima, separados por dois degraus.

"Eu ando de gravata?".

"Não".

"Está respondido!".

Lembro-me de ver o primeiro-balcão transformado em ilhas de montagem, cabines com cabines dentro delas.

Cabines com máquinas de editar, com cabines de som dentro delas.

O que mais me impressionou foi o ranger do chão, aquilo abanava tudo, e gente, gente a correr, de um lado para o outro, gente a gritar, credo, aquilo era um inferno, ali mesmo ao lado da igreja.

A questão que me foi colocada foi muito simples:

"A MJG vai sair para a Sociedade e fica uma vaga no desporto. Se cumprires é tua!".

E fui à luta.

Até hoje.

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Épico. Vinte e dois anos, já viu o que se navega durante vinte e dois anos?

Nem eu tinha dado conta.

Perdi a conta, administrações, direcções, chefes, camaradas, colegas, amigos, naveguei muitos mares, numa balsa que construi com vime de Belmonte e cortiça da Lezíria.

Assisti aos naufrágios, desde o centro dos oceanos inteiros, assisti às celebrações e aos tributos, naveguei caras, pessoas, gente, mares e ventos, sol que queima, metas passadas, em frames que se evaporam.

Ali vi amigos partirem.

Ali vi amigos casarem.

Ali vi amigos morrerem.

Ai vi amigos reformarem-se.

Ali vi amigos a chorar.

Ali vi amigos a rir.

Ali vi amigos a celebrar.

Ali vi amigos a maltratar.

Ali vi amigos a chegar.

E, ali fui tudo isto.

Ali me caiu um filha da puta de um dente que fez mais pela minha carreira que a melhor de todas as minhas reportagens.

Creio ser o único jornalista de televisão, no mundo inteiro, a quem tal coisa surreal aconteceu.

Ali me senti dono e senhora da minha cadeira de sonho, quando pela primeira vez ali apresentei um programa de televisão.

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Era um "Quarta-a-Fundo", um programa da responsabilidade do Rogério Guimarães, que naquela semana não podia gravar. Avancei eu.

A Ana Lourenço e a Cristina Reyna ficaram comigo na redação, o programa era feito de lá. 

Com apoios destes, adiante...

Sempre fui um felizardo dos acasos, como diz um ex-político que conheço, "para homens extraordinários, vidas extraordinárias". Não é imodéstia, a coisa dá-se mesmo assim, ao acaso.

Dois anos depois de ter subido as escadas que davam acesso ao antigo primeiro-balcão, entrava no estúdio para apresentar (durante 10 anos) o programa de desporto mais visto na televisão portuguesa, o Contra-Ataque.

E, foi essa etapa, a juntar ao dente finado em directo, que me abriram portas que eu julgava serem as primeiras a fechar.

A partir daí soltaram-me as rédeas.

Depois, depois foi o resto que se sabe.

Tenho a vida escarrapachada no Google, cenas que aconteceram, cenas que não aconteceram, depois foi o resto que se sabe.

Quinze anos depois decidi enfrentar um cruzamento que a estrada me colocou à frente e pedi para sair do desporto.

Arrisquei deixar quinze anos de investimento para trás e recomeçar.

Preciso de recomeços na vida.

 

Experimentei tudo, política, sociedade, internacional, newsdesk, fiz reportagem, grande reportagem, largas centenas de horas em directo, se calhar milhares de horas em directo, durante os últimos sete anos fiz tudo, até voltei a fazer desporto.

Até apresentei noticiários.

Tem sido por esta estrada que tenho andado e nela encontrei muitos nomes, alguns que mencionei estiveram directamente ligados aos acontecimentos que narrei.

Mas tal como não sei quantas horas de directos fiz, também é um número quase infinito, os nomes com que me cruzei.

As aventuras que vivi com eles.

Imagina o que era entrar numa das discotecas da moda, pela porta vip e ser tratado como uma estrela?

Não era eu, eu só ia com as estrelas, mas aproveitava a onda.

Chegávamos a sair dos estúdios para ir jantar, às sextas, enquanto estávamos a editar coisas para o Contra-Ataque, e regressar às seis da manhã para acabar as peças.

O entretanto não se revela.

Isto já vai em quatro páginas, não sei se reparou, mas precisava de umas quatrocentas para escrever os nomes de tanta gente que esteve a meu lado, a celebrar, a abraçar, a elogiar, a criticar, a tirar o tapete, a ignorar, tanta gente, toda a gente que me marcou o traço, me definiu o carácter e me trouxe até aqui.

Não sei se quero continuar.

Tenho vivido esse dilema comigo próprio.

Vivo na angústia da dúvida.

Não pelos outros, simplesmente por mim, porque longa tem sido a estrada.

Quase metade de uma vida inteira.

Metade de uma vida inteira não cabe em quatro páginas, lamento.

Só não lamento a vida que escolhi para mim, ao acaso, por acaso.

Na vida serei sempre aquilo que os outros quiserem que seja.

Nunca serei aquilo que não quero ser.

Fica prometido o almoço, se chegar ao quarto de século.

Eu gosto de promessas, sabem a desafios.

Até mesmo quando são promessas filhas de pai incógnito.

Agora a parte que tem que ser:

Obrigado.

Incondicional.

A todos(as).

Por tudo.

A caminho dos 23 ( ou dos 25, com queira, de carteira, a rima foi de propósito).

As coisas sempre me aconteceram por acaso.

Foi o caso.

Vamos a mais uma voltinha, a mais uma rodada, senhoras e senhores:
"The show it will go on"!

 

(Dedico este texto e o meu eterno "obrigado por tudo" aqueles que já não estão fisicamente entre nós, mas que são parte desta herança genética, que carregarei até ao dia em que os reencontrar. Eles continuam a cruzar-se comigo nos corredores e a discutir as peças e o alinhamento, todos os dias, no meu coração

 

 

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publicado às 18:10



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