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EU, ESTAGIÁRIO, ME CONFESSO

por The Cat, em 23.07.16

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É um facto: sob pressão, em situações de stress extremo, fico anestesiado.

Descobri-o hoje, na maior prova de fogo profissional, desde que me lembro.

Perdi a conta às horas.

Sentei-me finalmente no sofá.

Estiquei as pernas, em cima da mesa de centro, quadrada como este mundo cada vez mais caótico, liguei o computador e aqui estou eu, decidido a confessar-me.

Eu, estagiário, me confesso. Isso.

Em Agosto faz 23 anos que tenho carteira profissional de jornalista.

Em Agosto faz 21 anos que trabalho ininterruptamente em televisão.

Entendidos quanto a este aspecto da longevidade, confesso-me;

Ao longo deste tempo todo é fácil perceber que já fiz praticamente todas as tarefas que competem a um jornalista de televisão.

Desde um simples ticker, um lead, um off, uma peça, uma reportagem, uma grande reportagem, directos, muitas e muitas horas em directo, apresentação, praticamente tudo eu já fiz, ao longo destes anos.

Há, ainda, algumas tarefas que não farei, ser chefe ou director, por exemplo, isso não.

Havia no entanto uma tarefa, o último patamar antes tarefas que em cima mencionei que nunca tinha executado; editar jornais. Hora-a-hora, sem levantar o rabo.

Há muitos anos, lá por volta do ano 2000, quando era editor-adjunto no Desporto, editei programas, de desporto.

Realidade totalmente diferente se comparada com a edição de jornais, de hora-a-hora, sem sequer sair da régie.

Isso eu nunca tinha feito.

Nem me passava pela cabeça fazer, porque as minhas ideias quanto à minha carreira não passam por aí. Elas há muito que estão definidas.

Quando, há alguns meses, me escolheram, uma ou outra vez, para editar jornais durante manhãs e tardes, não foi uma questão de aceitar, escolheram-me e competia-me cumprir.

Eu entendo que numa organização cumprem-se instruções.

Lá fui.

Editei jornais durante alguns dias, espaçados no tempo.

Não fazia ideia de como aquilo funcionava, a dinâmica, a agilidade, a capacidade de decidir, a tensão e o stress, o auto - controlo, não fazia ideia, as sinergias supersónicas, os erros e os reparos ainda mais supersónicos.

A minha ligação com a régie sempre foi feita do outro lado.

Quando apresentava notícias sentia, por vezes, a tensão na régie, mas ela não passava para o estúdio mais que cinco porcento.

Agora não.

Agora sou eu quem sente os outros noventa e cinco porcento.

Esta sexta feira senti.

Depois destas experiências fugazes regressei à minha rotina, no NewsDesk, que é uma coisa onde eu trabalho, que é uma espécie de defesa central numa equipa de futebol, o tipo que faz as dobras.

Até há uns dias.

Escalaram-me para editar praticamente o "day time" todo, durante esta semana, desde sábado, faz agora oito dias, sendo que já o tinha feito na semana passada.

Comentei com alguém, na altura, "isto parece-me um estágio intensivo".

Até os botões para comunicar com a redacção e com os pivots eu tive de perguntar quais eram.

Senti-me um estagiário.

Na verdade estava a ser estagiário, carregado de responsabilidade, aos quarenta e seis anos, confrontado com receios que não devia mostrar e não mostrei.

Pensei para mim - nunca dou parte fraca -, que loucura, não me sinto seguro, vou cometer erros, não estou preparado para ser o responsável pela emissão das notícias. Mas, não dei parte fraca.

Nunca dou.

Sabia que quando a hora é de meter a boqueira e levar porrada encostado às cordas, também é hora de mostrares o que vales (que isto não pode ser só paleio).

Vinha embalado da semana anterior.

Nice no dia 14, Turquia no dia 15.

Mais o tipo que feriu pessoas com um machado, na Alemanha, uma ante - câmara da minha maior prova de fogo, porque foi de repente.

Lá fui.

Sábado de manhã, dia 16, fui cedo.

O falso golpe de Estado na Turquia tinha começado noite dentro.

Fui eu quem apanhou com todos os estilhaços.

Quando digo Sábado de manhã é de manhã, às sete já estava de volta do alinhamento, do mapa dos sinais internacionais, com o mapa da produção, com os horários dos noticiários, os intervalos, os directos, às sete da manhã já fervilhava.

O "não" golpe de Estado estava em curso.

Ia ser um fim de semana de arromba, e com Nice ainda a contar os mortos.

Era eu, jornalista que se sentia estagiário, que ali estava como "team leader", dentro da régie.

Ali não há chefes.

Há uma hierarquia implícita; o editor é o responsável por todos os conteúdos, o realizador é o responsável pela forma, a restante equipa é responsável por colocar todos os conteúdos no ar, quando prontos.

Isso eu percebi desde sempre, durante todos estes anos.

Nesse aspecto levo vantagem sobre noventa e nove porcento dos estagiários, tenho muita experiência acumulada, tenho muitas horas de televisão e de jornalismo.

Foi essa vantagem que escolhi para se sentar a meu lado, com todas as fraquezas que um estagiário sente, mas não mostra.

Também sabia, fui-me apercebendo nas semanas anteriores, que toda aquela equipa que se senta ali à minha frente, assistente de realização, misturador, realizador, controle de iluminação, lá atrás o áudio, ao lado os produtores, sabia que todos eles me iam ajudar.

Não era preciso pedir ou perguntar, eles até já me viram fazer flexões na régie, para aliviar o stress, coisas do Muay Thai...

São muitos anos a virar frangos e a conhecer as pessoas.

E, assim tem sido. Assim foi. Hoje, como sempre, hoje muito mais.

De outra forma não estava a escrever este texto, porque me tinha estampado contra uma parede, apesar de uma ou outra derrapagem.

Eles são, foram, serão sempre fundamentais.

Eu sabia, mas com estas horas absorventes de régie fiquei com a certeza absoluta.

Aplico no meu dia profissional muito do que coloco na formação.

Obviamente que na formação aplico tudo o que absorvo no meu quotidiano profissional.

Gosto de formar pessoas tendo por base a realidade.

Digo sempre aos meus alunos que fazer televisão é como uma corrente, se um elo falha, falha tudo. Vem nas sebentas.

Eu sei que eles acreditam, porque se vão para os cursos que eu dou é porque se identificam com o meu trabalho, percurso profissional e carreira.

Ainda assim, fico com a sensação que se não experimentarem não vão ficar totalmente convencidos.

Eu sempre estive convencido disso, mas desta vez senti na pele que se assim não fosse era o caos absoluto. Experimentei gerir uma emissão, que repentinamente se alterou, com a ajuda de muitas pessoas, dentro e fora da régie, até ao estúdio.

Vivi a experiência.

Pensei que nas próximas aulas irei conseguir transmitir-lhes melhor o que é isso de trabalhar em equipa, em televisão.

Se for preciso teatralizo, como às vezes faço, e eles gostam, e aprendem, que eu sei.

Também costumo explicar-lhes as mudanças.

Antes, um acidente na Turquia, um combóio que descarrilava, um acidente do qual resultava quinze mortos, não passava de um off.

Hoje, há portugueses, há conhecidos, há um sem número de ligações afectivas, emocionais, de proximidade, que o off dá lugar a emissões especiais, no fio da navalha, na corda bamba, durante horas, porque é isso que se pede a um assumido canal de notícias, de informação pura e dura, hard news.

À conta disto, confirmei-o nos últimos dias, fico anestesiado, quando sob enorme pressão!

Há momentos em que a explosão se dá.

Nesses momentos coloco ordem no caos, com um berro e digo em voz baixa, logo depois: "agora já podem falar, desculpem, não estava a conseguir ouvir o telefonema que estava no ar".

E, recomeça tudo de novo.

Naquela cadeira estou rodeado de pessoas, umas que estão sentadas, imensas que entram, falam, saem, a qualquer momento, outras que se levantam para dar lugar a outras, naquela cadeira ouço quem está a apresentar, ouço as ligações que vão estar em directo, ouço as conversas, à frente, atrás, dos lados, ouço a redação e a produção, quando falam comigo, tudo quase em simultâneo, ouço a realização e a produção, ali a meu lado e tenho que lhes responder e tomar decisões, e respondo a mensagens, e faço telefonemas, e espreito a concorrência e os ecrãs das agências, e consulto a assistente de realização e depois o realizador, e falo com a apresentadora, para lhe passar informações, e continuo a fazer mega leads - aquelas coisas que aparecem no ecrã com informação, alguém tem que fazer aquilo - e continuo a gerir o alinhamento das notícias, e continuo a dar respostas, e continuo a tomar decisões.

Momentos em que me confronto com as minhas próprias dificuldades em me alinhar, mas não o mostro.

Recorro a todas as técnicas que conheço, quando dou media training o que faço?

Quando dou workshops o que faço?

Quando dou formação o que faço?

Quando treino Muay Thai como me concentro, como faço com que a minha mente se torne focada e mais ágil.

Apelo à minha experiência e a isto tudo, também à minha ausência de medo dos desafios, e disfarço bem perante todos, menos perante mim, e vou ganhando confiança.

Por entre tiros e carros de polícia digo a quem está a meu lado naquele momento:

"Agora já estamos em velocidade de cruzeiro".

Aprendi que o pior é sempre a primeira meia hora, depois o processo funciona.

Tratei da Turquia, depois da Turquia já Hollande visitou Lisboa, por escassas horas, atrasou-se, já Marcelo falou milhares de palavras e caminhou milhares de passos.

E, tudo isto passou-se em apenas três dias.

Sábado, domingo e segunda.

Trabalhei mais 14 horas, nestes três dias, para além das 24 horas correspondentes aos três dias.

Quando entrei na semana de folgas, completa, antes de voltar à carga, já não me sentia um estagiário, mas ainda assim continuo a confissão.

Senti-me brutalmente exausto, mental e fisicamente, apesar de recorrer à corrida e ao Muay Thai, dentro das limitações de tempo.

Vinha aí uma semana de folgas e pensei que seria suficiente para enfrentar mais uma semana, até porque não estava prevista qualquer operação de maior exigência.

A visita do presidente francês a Belém foi exigente, mas em um grau de exigência a que estamos habituados.

Pior foi o "não" golpe de Estado na Turquia e o atentado em Nice.

Tudo isso me caiu nos braços, de repente, como que um teste que um estagiário tem que passar por.

Conclusão: previa-se uma semana tranquila.

Assim foi, até hoje.

Sexta feira.

As sextas feiras começam a ser absolutamente dispensáveis.

(continua numa publicação próxima de si...)

 

 

 

 

 

 

 

 

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