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ERA UMA VEZ UM RAMO COM CEM ROSAS

por The Cat, em 07.01.16

roses.JPG

 

Era uma vez…

Uma história que me contaram.

Reza mais ou menos assim:

Quando ela era pequena, diziam, porque os do seu tempo já por cá não andam, era uma mulher bonita, e bonita ficou mais ainda à medida que foi sendo mulher de um só homem, toda a vida, mesmo depois de ele ter ido embora nas asas de um anjo.

A sua beleza manteve-se inalterada ao longo do tempo, pelos séculos dentro.

Os contadores de histórias nunca se enganam e ao contrário dos humanos nunca mentem.

Os contadores de histórias não são humanos, são só contadores de histórias.

Dizem eles que passaram cem anos.

 

Um século de vida, da vida da mulher bonita que viveu dois séculos, o dela e este, o dos outros, a mulher bonita que tem o campo raso no olhar brilhante, onde se trabalhava de sol-a-sol, o campo que se enchia de água do rio, como os olhos dela se enchem de sal do mar, ainda.

Tanto, até chegar aqui, ao sítio onde agora as portas abrem com um olhar e os relógios fazem tanta coisa que até dão horas, tanto ela viu e viveu que os contadores de histórias não conseguem escrever ou contar.

A beleza não se descreve, nem se escreve.

A mulher, dizem, que atravessou tudo o que um contador de histórias pode imaginar e escrever, dizem, atravessou riachos, ribeiros, charnecas e planícies, viu chegar as televisões, primeiro a preto e branco, depois a cores, saturadas por esse tempo grande e longo, a mulher que viu chegar os rádios e as rádios, que mudaram do AM para o FM, das válvulas para a internet, como quem muda de camisa, a mulher que leu os jornais que sujavam as mãos dos leitores, e os jornais que já não sujam as mãos dos leitores, mas que lhes sujam a alma, viu aparecer os carros, ela que sabe quem foi Ford, ela que sabe porque é que um carro alemão, famoso, se chamou “Carro do Povo”, ela que viveu as guerras, a primeira, a segunda e agora a terceira, ela que sorriu sempre tanto, até agora, até hoje, tal como o tanto que trabalhava de sol-a-sol, como antigamente se trabalhava na imensidão da minha Lezíria, com esse seu sorriso e os traços do sol vincados na cara bonita.

Foi assim ao longo de uma vida cheia de anos.

Cem.

Custa a contar, a dizer, a acompanhar, até porque os do seu tempo já por cá não andam, porque já todos partiram.

Contavam que esta mulher apaixonou todos(as) os(as) que com ela se cruzaram, por causa do sorriso e dos olhos bonitos. Quando a conheci o que me apaixonou foi o sorriso, os olhos bonitos e o cabelo branco, imaculado, mas mais do que tudo, a sua perfeita lucidez.

Admirável e única.

Eu conheci-a, um dia, porque lhe levei um amor nos meus braços e ela pediu-me para cuidar esse amor, dando a minha vida se necessário.

Umas vezes bem, outras mal, é o que tenho tentado fazer, honrar-lhe o pedido.

Fui sabendo das histórias, que me contaram, e que ela própria me foi contando e confirmando, sem saber que eu as conhecia.

Nunca quis desiludi-la. Sinto-a minha, como a sentem aqueles que são dela.

As versões bateram sempre certas, as dela e as dos outros.

Não a vejo há dias, desde o dia de Natal, mas tenho pensado nela a toda a hora, todos os dias, cada vez muito mais.

Ela fez 100 anos no dia de Natal. Foi a última vez que a vi.

Juntou a família inteira, gerações, filhas, netos, bisnetos, trinetos.

Recebeu um ramo de rosas.

Cem.

Vi-lhe os olhos molhados de sal, como antigamente.

Vi-lhe o sorriso bonito, como sempre lhe vi.

Ela costumava olhar-me, quando eu não estava atento – julgava ela – e ficava a mirar-me e a sorrir.

Eu sei porquê e ela também sabe, ela não sabia é que eu senti sempre o seu olhar e o seu sorriso.

Como no dia de Natal.

Agora, estou a espera que ela morra.

Ela está à espera de morrer.

Estamos todos à espera que ela morra.

O ciclo está prestes a encerrar-se.

Nascemos, vivemos e morremos.

Ela veio cá, viu o que tinha a ver, e está na hora de partir nas asas do mesmo anjo que lhe levou o seu homem.

Vão, finalmente, ao encontro um do outro, que o amor não se perde nem em um século, nem em uma vida inteira.

Recordo, neste momento, os olhos bonitos, o sorriso e a ternura e o amor que sempre me ofereceu, desde o primeiro instante.

O sorriso e o olhar que disfarçam o coração triste que insiste em bater descompassadamente, com estranha ansiedade.

A espera da morte, por muito que estejas “preparado” é cortante. Corta a alma, o coração, o cérebro, corta-te em pedaços, mas ela não pode desconfiar sequer.

Não tenho esse direito.

De tudo o que ela me ensinou, ensinou-me sem dar conta que nunca a morte foi tão doce, tão pacificadora, tão lúcida, como ela está neste momento, como ela encara a morte que tarda, mas que virá, como ela pediu, como ela quer.

Ela viveu aquilo que tinha que viver. Chegou a hora de ir ao encontro do seu homem, nas asas de um anjo bom.

Sabemos que será em breve, mesmo tendo a certeza que se o corpo não fosse feito de matéria, tenho a certeza absoluta, ela viveria para sempre, com a mesma lucidez de quem pede para morrer, porque teve uma vida tão bonita que entende não merecer sofrer,  caminho do fim.

Ontem à noite estava sentado na minha varanda a apanhar com a chuva na cara.

A pensar nela.

Ontem à noite fugi do mundo, durente breves e eternos segundos.

Escondi-me para falar com ela. Olhei o céu e sorri-lhe. E, decidi.

Amanhã vou visitá-la ao hospital.

Ela continua lúcida. Sem dores. Consciente.

Vai saber que eu sou, vai sentir o meu carinho e os meus mimos, vai ver o meu sorrisos e sei que vai rir com alguma das minhas piadas sem sentido.

Vou porque quero dar-lhe o meu beijo de despedida.

Acho que ela só está à espera disso, e eu não quero que ela sofra.

Se pudesse dava-lhe o ar que respiro, que lhe falta, cada vez mais, e que a faz sofrer.

Incrível, não é?

A única coisa que lhe está a falhar é o ar que respira. Só – tanto – isso.

Empurra-me para a frente, bato na parede, sou empurrado para trás, bato em outra parede, e fico sem saber se a morte é doce e se é a vida amarga.

É esta a encruzilhada que estou a atravessar, a vida e a morte ou como a morte pode ensinar sobre a vida.

Nunca passei esta encruzilhada, nunca enfrentei este desafio, nem fazia ideia que a morte podería ser algo suave, natural e revelador. Até isso ela me ensinou.

Ensinou-me tanto, a vida, o amor, o doce, o carinho, a saudade e a morte, até isso ela me ensinou.

Se eu pudesse trocava de lugar com ela, embora saiba que ela nunca iria deixar-me trocar de lugar com ela.

Apenas não consigo conter as minhas lágrimas, nem as quero conter, nem disfarçar, quando, com uma lucidez estonteante, ela pede:

Quero ir, em paz. Quero ir descansar.

Não mereço sofrer, no fim do caminho.

Não mereces.

Por isso, amanhã vou dar-te o beijo que me falta, para te libertar, só depois podes ir, porque eu sei que queres ir, porque sabes que te deixamos ir, com um sorriso triste na nossa cara, mas com o coração cheio de ti.

Prometo sorrisos no teu funeral.

Prometo que não vamos chorar.

Prometo cuidar da tua neta.

Prometo cuidar dos míudos.

Prometo, tal como te prometi no dia em que me casei com ela.

Espera por mim só mais um pouco.

Se não esperares eu não me zango, ninguém consegue zangar-se contigo.

Se fores antes de chegar ao pé de ti prometo abraçar-te antes de partires.

Faço-te uma festa no teu cabelo branco imaculado.

Faço-te uma festa na cara.

Prometo que não me vais ver chorar.

Até já.

 

 

 

 

 

 

 

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publicado às 18:51


3 comentários

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De amoraconversa a 26.01.2016 às 18:53

Arrebatador!!!! Tranportou-me para um mundo que eu acreditava ser só meu! Meu e da minha avó, linda, de cabelo imaculado, que me ensinou o que é a vida mas principalmente o que é o AMOR!!!! Obrigada!
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De The Cat a 29.02.2016 às 12:30

Bom dia,
cada um de nós tem o seu próprio mundo.
E só alguns - poucos - sabem o que é Amor.
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De amoraconversa a 02.03.2016 às 03:54

Verdade e isso não tem preço!
Gostava de partilhar consigo um texto que fiz para a Blogazine é que fala exactamente sobre tudo isto e o tanto que ganhei com ela!
http://amoraconversa.blogs.sapo.pt/dia-memoravel-17506

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