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Estou a ficar velho.

Aqui, na América, dei comigo a acordar, sem desertador, às seis e meia da manhã.

Nunca na vida corri a essa hora. Eu, é como o outro, de manhã é mais na caminha.

Confesso que estou com um jet lag à antiga.

Ainda ha pouco, quando vinhamos do jantar, perguntei à Ana Colaço que dia era hoje. Ela riu. Já lhe fiz esta pergunta umas três ou quatro vezes desde que chegámos a Newport.

Pior, na mesma viagem de regresso para o hotel foi a Ana que me perguntou que dia era amanhã ( amanhã que já é hoje). Ela queria perceber há quantos dias chegámos.

Tentei responder-lhe, mas não consegui fazer as contas.

Foi o Zé Pedro Amaral quem disse que chegámos, imagine, ontem (que já é anteontem).

Estamos cá há dois dias e ao segundo dia achámos que estávamos cá há três ou quatro.

Não que isto seja uma seca, que seja mau, não, de todo.

Está a ser muito bom.

O Stop Over em Lisboa será incomparavelmente melhor, tenho a certeza, mas a diferença horária, as 27 horas que demorámos, desde que saí de casa até chegar ao hotel, tudo junto está a dar cabo do meu disco rígido e a memória RAM está a ir à vida. Resolve-se quando chegar. Digo eu.

Quando acordei pensei em dormir.

Sou um tipo estranho a escrever, não sou? (Quando acordei pensei em dormir!).

O Rodrigo tinha marcado o meeting ás oito da manhã. Oito, oito e meia, no pequeno almoço.

Em teoria íamos todos juntos para Fort Adams.

Das seis e meia ás oito e meia dava tempo para correr, a minha estreia no estrangeiro, logo nos Estados Unidos. Tinha que ser.

Dava tempo para tomar banho, tomar o pequeno almoço e ir à vida.

A viagem de Lisboa para Newport foi qualquer coisa de alucinante. Chegámos felizes, mas de rastos.

No caminho do aeroporto para cá tivemos uma conversa que durou duas horas.

Peter Silvia (Silvia e não Silva) era o nosso motorista - já somos amigos no Facebook - não é apenas um fotógrafo de casamentos, ele é também um driver da Volvo. Foi ele que nos apanhou no aeroporto em Boston.

Como qualquer norte-americano, por estas bandas, Peter tem raízes portuguesas, ou pelo menos diz que tem.

 Gabou a conversa e o momento.

No caso dele acreditei, em outros não.

Há depois aquelas pessoas que sendo americanas, tem no marido as tais raizes. Não conheci um americano, desde que cheguei, que não tenha ligações a Portugal. Nem que seja o sacana do gato que é do Prior Velho ou o canário que é dos Azores ( gostam de dizer Azores em vez de Açores ).

Tangas, acho eu, ou tentativas de simpatia, também pode ser.

Peter quis saber tudo sobre Portugal e nós contámos-lhe.

O governo que serve interesses estrangeiros e que nunca governou o país, a corrupção, que nasce na Assembleia da República, os casos BPN e BES e as não-consequências para ninguém, as lavagens de dinheiro, as Tecnoformas desta vida, os políticos que têm mau hálito e maus hábitos e caspa nos ombros.

Estava incrédulo, como é possível o Estado mal tratar, violentar e roubar os seus?

Incrédulo.

Contou-nos a história da sua vida e comemos um donuts genuíno.

A minha corrida levou-me desde o hotel até quase ao porto.

O Zé Pedro queria correr mas ficou a domir.

Comecei.

Estava sol, mas um frio do camandro. 

Fui e vim.

Três quilómetros para cada lado.

Lá à frente, pela forma de andar, percebi que ia o Rodrigo Moreira Rato, o árbitro de vela Miguel Allen e mais uma pessoa.

O pequeno almoço foi um holograma.

Ele estava lá. Não havia era sala, como nos hóteis normais.

Uma cesta com maçãs, outra com bananas, muffins, uma máquina com sumo de maça e com sumo de laranja e outra máquina para tirar (baldes) de café e/ou chá.

Tudo, ali concentrado na zona da recepção.

Eu gosto de correr sem nada no estômago, por isso, para mim foi a manhã perfeita. Guardei a banana e o muffin, bebi um balde de café e fui correr, sózinho, como sempre.

Mais logo vou correr com o Zé Pedro e sem phones nem música. Só um aparte!

No dia que chegámos fizemos o trajecto a pé, à procura de jantar, pelo que não fui surpreendido, pela manhã com o que vi.

Pensava eu.

Lembrei-me tanta vez do Haruki Murakami (editora portuguesa, obrigado por não me ter respondido ao email como pedido de entrevista. Chama-se tratar bem os jornalistas). Lembro-me quase sempre dele quando corro, os cheiros, as pessoas, os lugares.

A minha primeira corrida na América teve tudo isso e por isso lembrei-me do tipo.

Para baixo, fui reparando nas casas.

Para cima, fui reparando nas pessoas.

As casas, aqui, são feitas em madeira.

Esta cidade está virada para o mar.

São coloridas, as casas, no centro da cidade. Até lá chegar são apenas casas em madeira. Umas bem tratadas, outras mal tratadas, mas todas com um prefil idêntico. À americana.

Tem de tudo aqui na rua que liga o hotel ao centro da cidade, dentista, cirurgião, escola(s), um enorme relvado que dá para uns dez campos de futebol, os jacarandás - na primeira noite achei que era o perfume do Zé Pedro - tão intenso era o cheiro, uma igreja católica, outra protestante, os USA Mail, a esquadra da polícia.

Aqui, nesta zona da América, as casas servem para viver e também para o negócio. Até o cangalheiro, juro.

Uma casa - moradia - pintada com cores tranquilas. Branco com umas borboletas desenhadas nas janelas cinzentas, em madeira.

Só se dá conta que tem mortos dentro porque a placa não engana.

Não tirei foto para não carregar mais este parágrafo com coisas negativas, porque o pior está para vir.

Sim, tirei várias fotos enquanto corria. Obviamente que parava para as tirar.

O cheiro dos Jacarandás incomoda-me, deixe-me dizer-lhe.

Cheira a perfume de morte.

Estranho perfume ou estranha pancada minha, como este barulho permanente, ao longe, que parece um telefone a tocar.

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Já depois de correr - já volto à corrida - aconteceu o mesmo, obviamente.

Quando saímos do hotel passei o caminho todo a  dizer que ouvia barulho estranho.

Antes de entrar no barco que nos levou a Fort Adams voltei a queixar-me.

Toda a gente verificou as mochilas. Era o meu iPad que ainda estava a despertar.

Aqui no quarto não.

Aqui, o barulho que vem dali do lado não é do meu iPad. Mas, a diferença do fuso horário garante um sono tranquilo, que se lixe o barulho.

O cheiro dos Jacarandás é que me incomoda. Mas, incomoda-me mais o cheiro da morte.

O cangalheiro, aqui, tem a casa, onde vive e onde enterra os outros.

Nao tirei foto, mas quase parei para olhar em redor.

Só o cheiro me afastou. O cheiro do crematório pela manhã.

Tem estacionamento na rua, para deficientes, entrada adaptada, para deficientes e, depois, como as casas dos filmes, um relvado lá atrás, de perder de vista.

Entre a casa e o relvado um jardim, à frente e atrás.

O relvado da parte de trás da casa guardava imensas lápides que se viam perfeitamente desde a rua, sendo que o que me despertou a atenção foi o cheiro.

O cheiro da morte que não é o cheiro dos Jacarandás, confirmei - o. Associei-os.

A casa tem crematório incluído e, ali á volta, cheira a morte.

Parece que se entranha nas narinas.

Não parei, mas parece que ainda lá estou parado, a observar. 

Só parei lá em baixo para fotografar um daqueles autocarros escolares amarelos, como vemos no cinema.

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Também fotografei um daqueles carros de bombeiros à americana para mandar para um amigo que é bombeiro em Avintes, Portugal, e fã dos bombeiros dos Estados Unidos.

Voltei para cima e não havia mais casas para ver.

Havia era pessoas a sair das casas, como formigas no carreiro.

Levavam crianças pela mão. Havia muitas crianças, algumas escolas, muitas no mesmo raio de distância. Lembrei-me das notícias sobre os tiroteios nas escolas. Percebi que e como é possível acontecer, afinal, estamos na América, onde tudo é possível.

As crianças e as mães esperavam pelo pelo autocarro escolar, com outras mães e outras crianças, e enquanto esperavam, as mães metiam a conversa em dia.

Umas de chinelos, outras de roupão, outras de fato de treino, mas quase todas ainda com ramelas nos olhos.

Estava na cara que iam voltar para a cama depois de as crianças entrarem no autocarro amarelo.

Percebi que muitas era hispânicas.

Percebi que as mães deixam as crianças no "bus" amarelo e voltam para a cama.

Percebi que estava dentro de um filme, que os autocarros escolares são gratuitos, que os(as) motoristas(s) são cuidadosos, que as escolas funcionam e que os tiroteios são coisas de gente louca, como aquela gente que agrediu o miúdo da Figueira da Foz ou aquela gente que matou o miúdo em Salvaterra de Magos.

Os dois miúdos tinham a idade do meu filho mais velho.

Salvaterra é perto da terra onde vivo.

O meu estômago está (ainda) com um nó, a minha cabeça prestes a rebentar por não entender a insanidade, os olhos fecham, de sono e para esconder o que não quero ver.

Não li as notícias todas, não vi os vídeos todos, e quase vomitei a ler os comentários nas redes sociais e nos jornais online, que prestam um péssimo serviço ás pessoas e ao jornalismo ao permitirem todos os comentários. Até os mais abjectos.

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Eu acho que Portugal está doente.

Portugal tem um cancro que mata.

Portugal tem um problema grave, a corrupção. É esse o problema de Portugal e as elites estão enterradas nisto até ao pescoço. Impunes,as elites(?).

Portugal tem um problema ainda mais grave.

Portugal é um país em estado de sitio, ingovernável, corrupto e cada vez mais violento. Cada vez mais VIOLENTO.

Como qualquer pai, também eu não sei o que faría se as imagens que não vi e as linhas que não li fossem sobre o meu filho, o meu menino, a minha vida, o meu orgulho, o meu projecto, a minha esperança, a minha verdade. Ou com a minha rainha. Não sei.

Se os meus filhos fossem vítimas de violência, ou se um bando de animais lhes batesse até à morte, eu acho que morria por eles mas matava primeiro.

Guardam as lições de moral para vocês, que isto não é uma rede social para debater os males do mundo e fazer revoluções virtuais, com gente extremamente corajosa, atrás de um ecrã, como aquela gente que me ameaçou e aos meus. Gente corajosa, a matilha.

Há ecrãs que valem ouro. Ecrãs protectores.

Por isso, o Peter estava incrédulo. Lembra-se dele?

Quando cheguei ao hotel ainda tive tempo de alongar bem, tomar um banho, comer mais uma banana e fazer-me ao mar. Literalmente.

Mas, sobre a minha regata, a bordo do Volvo 65, sobre a minha reportagem com o único português na frota da VOR, sobre o jantar no bar mais antigo dos Estados Unidos, sobre tudo isso eu escrevo mais logo.

É que aqui é 1.25h da manhã mas aí já são seis e meia e eu quero fechar os olhos e dormir.

Quero esquecer os governantes daí, os políticos daí, os amigos dos políticos e dos governantes daí, quero esquecer o cheiro da morte e dos jacarandás daqui, quero esquecer a violência gratuita, insane, revoltante, quero esquecer o jornalismo que me envergonha, tal como me envergonham aqueles a quem me refiro neste texto de carácter pessoal.

Envergonham e revoltam, como as cenas que não li nem vi, de tão chocantes que são.

O Peter continua incrédulo - disse-me no facebook.

Por isso é mesmo melhor escrever mais logo sobre o que ficou por escrever, com fotos e tudo.

Nunca imaginei que a minha primeira corrida no estrangeiro, logo na América, ficasse marcada com esse cheiro dos jacarandás da morte, que é o que toda esta gente é. Jacarandás da morte.

E apanhar um táxi aqui?

Nem com a maior das cunhas.

Até já.

 

 

 

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publicado às 05:34



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