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ERA UMA VEZ NA AMÉRICA ( GOING HOME )

por The Cat, em 18.05.15

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Foto by The Cat) 

 

Isto de fácil não tem nada.

Até pode parecer, mas experimente escrever uma crónica, num avião, em pleno vôo, no banco do meio, com uma pessoa de cada lado a dormir, a ocupar os braços da cadeira e a tombar a cabeça de tempos a tempos.

Não acordei a Ana e o Rodrigo porque eles merecem descansar mas pareço um boneco que não mexe os braços, só as pontas dos dedos, para escrever estas humildes linhas a 11 quilómetros de altura.

A primeira crónica desta viagem à América foi escrita em pleno vôo. A última, esta, também. E assim fica a promessa cumprida. Uma corrida, uma crónica, desde que cheguei até que me fui embora.

Esta mete bombeiros, políticos, aniversários e claro corrida. 

Corridas.

Este domingo os barcos deixaram Newport, nos Estados Unidos e vão, por esta hora, a caminho de Lisboa.

Chegam dia vinte e cinco. Na véspera da largada chegou o vereador da câmara de Lisboa.

Era obrigatório vir.

Da cerimónia fazia parte a troca de bandeiras entre dois países. Do que viu os Volvo Open 65 largarem e do nosso, que os vai ver chegar.

Só quem alcançou a América, vinte e tal horas depois de ter acordado - tirando obviamente Cristovão Colombo - é que sabe o que custa a vida.

Nós chegámos e partimos, uns dias depois.

Estamos no avião a caminho de Frankfurt, depois Lisboa.

Somos cinco na comitiva. O vereador ficou nos states mais um dia.

Vão todos a dormir menos eu. Não consigo dormir nos aviões, nem nos Boeing que parecem arranha-céus.

A foto principal deste texto quer dizer saudade. De tudo. A que vou matar mais daqui nada. Falta-me pedaços de mim. Vou colá-los todos outra vez e ser mais feliz ainda.

Há sempre uma primeia vez para tudo na vida.

Nunca tinha sido vítima de um falso alarme. Mas, com os alarmes não se brinca, nem a brincar . Eu brinquei.

O vereador tem nome. Chama-se Jorge Máximo. 

Jorge é um tipo jovem, parece interessado e com ideias. Trocámos contactos e corremos juntos. Jantámos juntos, todos.

Era o mínimo, receber alguém que se juntava a nós, com um jantar de lagosta - nada de bocas, aqui, quero dizer lá, é barata -, filet mignon, premium New York Sirloin e umas ostras. 

Não é como em Portugal, onde comer é um luxo.

Na América pode comer-se. Ponto. Fiquei a gostar desta América que está dentro da América, juntamente com muitas Américas.

Jorge Máximo não ficou no nosso hotel. O dele estava a dez metros apenas.

A nossa corrida ficou combinada.

Por volta das onze da noite cada qual foi para o seu quarto. Na verdade, para o nosso corpo, para o nosso metabolismo e para a nossa cabeça já eram quatro da manhã.

Eu decidi fazer a mala à noite.

Deixei os calçoes, meias, camisola e ténis de corrida de fora.

A roupa para o dia seguinte também ficou preparada, era fácil, calções, pólo, boxers, meias curtas e ténis, outros, que eu levei três pares, ah pois!

Gosto de ter alternativas.

Quando me preparava para fechar a mala soou o alarme do hotel.

 

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(Foto by The Cat)

 

Como sempre nestes casos ninguém leva a sério à primeira. Nem à segunda, mas o alarme tinha um som que obrigava a fugir, do próprio alarme.

Não fugi.

Curiosamente, eu, que sou um tipo extrovertido, por vezes stressado, em situações limite consigo controlar-me completamente, ser frio, racional.

Abri a porta.

Não queria acreditar. Pessoas qu

e na noite anterior estiveram connosco no jantar de gala da prova, ali, em trajes menores, umas de chinelos, muitas delas despenteadas.

Naquele piso, naquele corredor, cada porta tinha uma cabeça a espreitar, a olhar ora para um lado, ora para o outro.

Saí então do quarto e fui tentar perceber o que se passava.

Um homem de idade avançada mas robusto corria pelo corredor. Pouco depois voltava com um tipo gordo que se farta que era da manutenção.

Segui em sentido contrário.

O Rodrigo e o Carlos estavam na rua. Voltaram para dentro.

- " Porra, está a chover".

Soltei uma enorme gargalhada desde o cimo das escadas, no meio de um quase pré-caos. 

A Ana não sabia o que levar com ela.

- "Ana, nestes casos faz como eu, estou de calçoes, tshirt e chinelos, vestido, portanto, tenho o passaporte, posso ir embora e tenho a carteira com dólares. Se isto arder tudo, depois, pedimos uma indeminização. Dizemos que as malas eram Louis Vuitton, que a roupa era D&G, que o Rolex também ficou no quarto, mais meio milhão de dólares. Podemos não receber nada, mas pelo menos podemos ir embora porque temos o passaporte".

A Ana, tal como eu e o Carlos, que aproveitou para fumar o cigarrinho da ordem, e como o Rodrigo, só conseguíamos rir a ver aquela gente toda naqueles preparos e à toa.

O Zé Pedro estava tão cansado que por isso não consta do parágrafo em cima.

 

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 (Foto by The Cat)

 

Ficou a dormir, qual alarme qual quê!

Tivemos que lhe ligar para o acordar, isto depois de eu e a Ana estarmos numa janela a filmar com o iPhone todo o aparato que se vivia na rua do hotel.

É que em cinco minutos havia 3 grandes carros de bombeiros, muitos bombeiros, polícia, hóspedes na rua e nós lá dentro.

Afinal, ninguém fumou no quarto, ninguém incendiou o hotel, não houve nenhum ataque.

Acabámos a tirar fotos com os bombeiros americanos de quem sou admirador. Admiro todos os bombeiros, todos aqueles que garantem o nosso cobertor de estrelas.

- "Sorry guys it was a problem in the fire alarm central, sorry. You can come back for your rooms", disse a menina da recepção.

BLOG

 (Foto by Rodrigo Moreira Rato)

 

Conclusão, por defeito profissional filmei um bom bocado da cena. Adormeci eram três e meia da manhã de lá. Às oito e meia ia correr com o vereador, literalmente. Não, não falei de política.

Passei o resto da noite a editar este vídeo.

Falso alarme.

-"Jorge, corres a que média?", perguntei-lhe, quando fui ao hotel ao lado ter com ele.

Estava uma manhã fantástica. O dia em que viemos embora decidiu brindar a comitiva, a pequena comitiva, com o melhor dia de todos, sem frio, com sol, sem vento, agradável.

- "Corro a uns seis, sete minutos por quilómetro".

- "Óptimo. Vamos?"

E lá fomos.

Eu nem queria acreditar. 

Toda a semana corri, na América, todos os dias, ao meu ritmo, só uma vez corri acompanhado pelo Zé Pedro Amaral, ao ritmo dele, lento, devido a uma lesão.

O Jorge, ele quer que o trate assim, afinal não corria ao ritmo que disse.

- "Por mim fazemos dois e meio e voltamos para trás", disse-lhe eu, na esperança de ele dizer que sim.

O andamento era muito elevado para quem correu todos os dias na última semana.

Pensei nos meus amigos que estavam a correr a meia maratona do Douro Vinhateiro, em especial Ricardo, que quis acabar praticamente a meio, mas porque corria por mim e por outro amigo dele foi até ao fim. Cortou a meta em lágrimas e eu sei o que é sentir isso.

Fiquem sem palavras, eu, um técnico instalador de palavras.

O Ricardo não festejou o facto de ter terminado os 21 quilómetros mais belos do mundo, nem sequer publicou uma única foto.

E, fez-me chorar, aqui no avião, há umas duas horas, quando vi a mensagem que me deixou no Facebook.

Não a vou tornar pública. É algo intímo e dramático de mais para alguém poder falar sobre.

Apenas te digo, Ricardo, que apesar de não nos conhecermos pessoalmente, continuo com os olhos molhados.

Hoje já chorei várias vezes sozinho.

Quando o Benfica foi campeão - vimos o jogo no computador. Não por ter sido campeão, mas por me lembrar de todos os tipos que me ameaçaram de morte e à minha filha e à minha família, apenas porque são desprovidos de qualquer predicado que caracteriza um ser humano.

Lembrei-me das 300 mensagens que recebi e que me impeliram a cometer 300 loucuras.

Trezentas mensagens que me tornaram mais forte, mais corajoso e muito mais louco de loucura cega.

Conhecem-nos da televisão, não conhecem a nossa história, nem o nosso caminho.

Se algum desses 300 valentões ler esta crónica ficará a saber que não sabe o caminho que pisei, nem a história que escrevi.

Se fosse inteligente percebia as duas linhas anteriores. Gente que só o é porque tem a figura humana, sem nada lá dentro.

Lembrei-me disso hoje.

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(Selfie by The Cat ahahahaha)

 

Não foi por o Benfica ter sido campeão. 

Apenas vi o jogo porque não tinha nada para fazer.

O que me comoveu foi rebobinar essa fita do tempo escuro, como as almas desses pobres de espírito, foi ver o vídeo de um adepto de um clube rival, dedicado a mim, ao meu silêncio, ao meu sofrimento, à minha revolta, à minha raiva e à minha coragem.

Só esses 300 merecem estas linhas cruas. Apenas esses e mais ninguém.

Esta viagem teve tudo isto. 

Comoção, amizade, profissionalismo e risos, como quando o Rodrigo apontou para a placa, num das esquinas de Newport.

A América tem uma história pobre, se comparada com a nossa, por exemplo.

Ainda assim, assinalar o tipo que trouxe os tomates para a América é meio bizarro, tão bizzaro que o Rodrigo, com razão, sublinhou a questão do tipo ter trazido um só tomate para a América.

O que lhe deve ter custado.

Nesta viagem rimos mais do que eu chorei hoje. 

Come on tomato, come one, dizia um tomate para o outro enquanto tentavam atravessar a avenida principal de Newport.

Come on tomato, come on tomato.

O outro foi...

Come one ketchup.

Ponto final nos tomates do homem que os introduziu na América.

Deve ter sido bom para os dois.

Houve uma certa promiscuidade entre a política e o jornalismo, nesta estadia americana.

Durante a corrida matinal com o vereador falámos de tudo, menos de jornalismo e de política.

Afinal ele faz cinco minutos por quilómetro. Não faz nem seis nem sete.

Políticos.

Não dei parte fraca.

Jorge, por tua culpa bati o meu tempo dos oito quilómetros e ainda bem.

Ainda bem porque assim corri no centro da cidade, no porto, junto ao mar, pela manhã fresca e cheia de sol e quase vazia de gente.

Uma cidade só para nós.

-"Jorge eu tiro sempre fotos durante a corrida, para o meu blog, o que me obriga a parar uns segundos", disse-lhe eu.

Ele também faz o mesmo, com uma diferença, eu páro, ele tira enquanto corre. Não me cheira.

Junto ao porto de Newport, a manhã estava ainda mais bonita.

Pedi a um jovem que carregava um carrinho de mão com caixas de comida para nos tirar a foto.

- " Claro que tiro. Com essa camisola vestida tiro sim senhor".

A minha camisola da selecção, vestida de forma premeditada para a minha última corrida na América, mesmo antes de saber que o vereador corria, só soube no jantar da noite anterior, convenceu o jovem Daniel.

Sotaque carregado.

- " Os meus pais são portugueses. Vivo em Fall River e essa é a minha camisola. Sou português."

Perguntei-lhe se já tinha ido a Portugal alguma vez.

Que não, nunca.

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(Foto tirada by alguém que passava)

 

Nasceu na América, mas é português. A Portugal nunca foi mas sonha ir.

Arrependi-me de não lhe ter oferecido a camisola.

Estava muito transpirada. Experimente correr a cinco minutos por quilómetro e vai ver.

A foto ficou espantosa, diga lá que não!

Antes de me despedir da América vi a largada dos barcos rumo a Portugal.

Agora é a nossa vez de brilhar e vamos brilhar, não tenho qualquer dúvida.

O Zé Pedro Amaral, os seus sócios e a Urban Wind são tão competentes que organizaram esta mega operação em cinco meses e vão com um dia de avanço em relação ao calendário.

Tenho a certeza que a doca de Pedrouços vai encher-se de gente para ver os barcos.

A TVI vai ajudar também a mostrar que a vela não é apenas para ricos e que o mar é nosso, o rio é nosso.

Vão gostar, prometo.

Ainda estou no avião, quase a chegar  a Dublin, segundo o lcd informa, no momento em que escrevo.

Desde que chegámos a Newport, na quarta feira, 13 de Maio, dia de Maria, o nome da minha filha, que andamos sem saber a quantas andamos.

Faltava meia hora para entrar para o avião.

- " Que dia é hoje?"

Todos riram, menos eu.

- " Sim, que dia é hoje, aqui eu sei que é domingo, mas em Portugal é domingo ou segunda?"

São menos cinco horas em Newport, mas em Frankfurt é mais uma, confuso(a)?

É fazer as contas.

Só respirei de alívio quando tive a certeza que ainda não era segunda feira.

Hoje, faz anos o amor de toda uma vida, a minha mãe.

Tive medo de ter escapado a data e os parabéns por causa dos fusos horários.

Pelo sim pelo não, mal tive wi-fi no avião, tirei uma foto e fiz-lhe uma declaração de amor.

Nunca lhe tinham mandado uma fotografia e uma declaração de amor directamente do céu.

Fui eu, mãe.

E, voltei a chorar.

Ninguém me viu. As luzes do avião estão apagadas, apenas a minha está acesa para ver as teclas do computador.

Eles dormem profundamente e eu continuo apenas a mexer os dedinhos.

Vou só ali ver um email que me chegou. Já volto.

Voltei.

Era um email do meu director. O meu programa sobre corrida arranca em Setembro.

Porra, não há melhor maneira de terminar este texto e esta promessa.

Sou um gajo de palavra.

É isto.

Ponto.

Agora vou terminar a viagem. Chego a Lisboa a meio da tarde. Tenho filhos para abraçar, mulher para beijar e mãe para amar.

Ainda por cima levo um presente para todos.

Hoje - ou daqui nada - estou de folga e cheio de jet lag.

É correr. É correr, senhores, que o homem está doido.

E, assim, Era Uma Vez Na América.

I´m going home.

 

 

 

 

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publicado às 12:05



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