Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



BLOG1.jpg

 

 

Isto nunca me tinha acontecido.

Nunca tinha estado ligado à internet em pleno ar.

Sim, estou no céu.

Neste momento, a  onze quilómetros de altitude,  a uma velicidade de 900 kms/h, a passar juntinho à Gronelândia. Juntinho é como quem diz, ali no plasma está perto, na verdade, Lisboa também está perto de Boston e já ando de avião há sete horas. Faltam três para chegar.

Aquilo que mais confusão me faz, já vamos à história, que vale a pena, é que me levantei ás 3.45h, no Porto Alto.

 

Ás cinco estava a fazer o check-in. Ás sete levantámos vôo. Ás onze aterrámos em Frankfurt. Ás treze levantámos vôo, de novo.

Faltam três horas para chegar a Boston, e em Boston ainda são, neste momento, 11.05h da manhã.

Confuso(a)?

Agora imagine eu, com fusos horários, pressão alta e cenas. Adiante.

A primeira crónica "Era Uma Vez Na América" tinha que ter qualquer coisa especial, olha, é escrita a partir do céu. Literalmente.

Levantei-me antes das quatro porque sou sempre o atrasado das comitivas, já cheguei a perder e fazer perder aviões, uma cena tão grande, é verdade, perdi já alguns.

Não quis correr riscos.

Antes de sair da casa já tinha tomado banho, já me tinha vestido - saio vestido, normalmente - e até tomei o pequeno almoço, o que é raro.

Dei um beijo ao Rodrigo e à Maria, não consigo viajar sem lhes dar um beijo meu, só meu.

Dormiam, aquela hora.

A Carla sorriu-me e eu segui o meu destino, guiado pelo sorriso dela.

Quando saio de casa e a casa está cheia de sorrisos sou muito mais feliz, vá eu para onde for.

Agora, imagine: quatro da manhã.

Saio a porta do condomínio e não vejo o táxi do senhor João.

O senhor João é quem me transporta sempre para o aeroporto, há anos que é assim.

Normalmente sou eu quem se atrasa, em tudo.

Afinal, lá estava ele, estava lá, disfarçado de táxi, por isso não o reconheci.

O senhor João tem o táxi novo.

O senhor João tem também uma coisa boa: é surdo de um ouvido, só de um.

O que é que isto tem de bom?

É que ele fala toda a viagem e, quando eu faço uma única pergunta, ele responde alto: diga?!

Esta surdez do senhor João permite-me que ele passe a viagem entretido a falar e eu, ás vezes, até passo pelas brasas. Acho que durante alguns minutos foi o que aconteceu.

Ele lá me explicou que deixou de ter um carro na praça da terra, que comprou a licença de um outro, em outra localidade, mas está arrependido, porque a clientela tem vindo a cair e agora há uma licença à venda na nossa terra.

Depois, o tipo que o enganou.

Ele vendeu-lhe o negócio do táxi, o tipo pagava em dinheiro e dava um terreno e o senhor João não viu terreno nenhum.

- "E não lhe disse nada, senhor João?"

- " Diga?"

Áquela hora da manhã quase não há trânsito.

São uns vinte minutos até ao aeroporto.

Demorámos mais uns segundos porque fomos mais lentos, para ver a coluna da GNR que vinha da Casa da Moeda, no meio dela vinha um blindado, cravado de guito, essa é que é essa.

- "Senhor João..."

- "Diga".

- "E se a gente ficasse com o blindado? Eu já não ia para a América e você deixava o táxi."

Foi o suficiente para mais dez minutos de histórias, sobre a casa onde vivia e que vai ser toda reparada, com "mobiliário de cozinha do melhor", porque o senhor João saiu de lá e foi para casa dos pais. Vive na quinta.

Ele já é entrado nos 60. Os pais já morreram e o negócio do táxi nem corre mal. Não foi para casa dos pais por necessidade e, não lhe contem que eu escrevi que ele é surdo de um ouvido porque se pode zangar e não digam que me irrita, ás quatro e meia da manhã ouvi-lo dizer: é assim, vamo lá ver, ou quer-se dizer.

Também me irrita, devido apenas à hora madrugadora, que ele passe a viagem a falar como falam os Gato ou os Contemporâneos, naquele registo quase infantil.

A conversa parecia só ter sentido para ele. Se calhar assim foi.

- " O Quaresma nunca compre um carro asiático. Este Mazda está sempre no banco de ensaios, minha rica Skoda. Estes carros são muito bonitos mas não valem nada".

Depois contou-me a história da venda da Skoda.

Eu detesto carros asiáticos, mas o senhor João nem imagina.

Cheguei ao aeroporto sem saber se dormia ou se acordava.

Dormi duas horas, esta noite e ainda são 11.13h em Boston.

Tenho todo (mais um) dia pela frente.

Fantástico. Dois dias num só, só eu. E não estava incluido no bilhete. (Isto está a descer, sinto a pressão).

A nossa viagem está a correr bem.

Viemos numa companhia alemã, que não está em greve.

O wi-fi é que é caro, mas vale a pena, nem estou a dar pelo tempo voar. Sim, continuamos a voar, até ao fim.

Estamos no céu.

Nunca disse, mas gosto de voar, gosto do céu, gosto dos aviões. Não me custava a habituar.

O wi-fi é que podia ser mais em conta.

As hospedeiras alemãs, estas que aqui vão, não se chegam ás nossas, nã, desculpem lá, as nossas são bonecas, estas são mulheres muito grandes. Tudo nelas é grande.

BLOG3.jpg

 

O Carlos Rodrigues, o repórter de imagem que faz a viagem comigo, não aparece na foto porque vai no banco do lado direito.

O Carlos já estava no balcão da companhia aérea, com ele a Ana Colaço - a da ponta - e o Rodrigo Moreira Rato - que por exclusão de partes é o dos óculos.

O Zé Pedro - não aparece na foto porque vai no banco do lado esquerdo, chegou mais tarde ao aeroporto, mas a tempo. Sem stress. Adormeceu, o que é raro nele.

Fizemos o check-in com toda a tranquilidade.

Pagámos o excesso de bagagem (150€ - devemos levar ouro nas malas), despachámos a bagagem fora de formato e fomos tirar fotos para publicar nas redes sociais.  A foto de família, Só gente boa.

image1.jpeg

 

 

De Lisboa a Frankfurt foi um pulo.

De Frankfurt até onde estou agora - não faço a miníma ideia onde estou neste momento, diz ali Ungava Butch e Goose Bay, no ecrã, sei lá onde isso é, sei que é próximo de Boston, porque conheço umas coisas - também não correu mal, muito melhor depois de ter internet.

Mais, nunca andei num Boeing 747.

Nunca usei as redes sociais a partir do céu, nunca escrevi um crónica a partir do céu, nunca andei num avião destes, com dois andares - maior que a minha casa, não muito -, nunca fui à América e nunca corri fora deste lugar mal frequentado, onde me lê (Portugal, não esse lugar onde está).

Portanto, parece-me que este 13 de Maio é um dia histórico para mim.

Sendo que Nossa Senhora não faz tv, nem mesmo a 13 de Maio, e eu não faço milagres, foi um acordo que fizemos há muitos anos, o Carlos entornou o copo com vinho, pouco depois de levantar vôo e como é bom rir dos outros eu entornei outro copo, logo a seguir.

Foram os incidentes da viagem à Terra Prometida.

Eu que nem bebo álcool mas o Rodrigo dizia que dava para adormecer.

 

Não fique com a ideia que ficou tudo a cheirar mal e assim.

Não, nós somos pessoas civilizadas e o Boeing vai carregado de gente. Há que manter um certo nível.

Fui acordado até agora, afinal são 11.26h em Boston - escrevo rápido, demora mais a ler e a corrigir- o gin e o vinho não bateram. Talvez durma a hora que falta para aterrar. Ou não.

Dizia eu, tenho apreciado os homens de turbante, gostei particularmente do turbante verde esmeralda e do azul navy, a MILF com o bebé de colo que chora muito, mas não deixa de ser agradável, ele é tão giro, tão de colo.

Tenho andado aqui aos toques com o plasma que passa filmes, desporto, séries e afins, só ao início, porque não tenho paciência para estas coisas e depois chegou a internet. Assim tentei enganar o tempo.

Acabo de olhar para a Ana Colaço que, há horas, nos dizia, que ao fim de cinco horas de vôo fica impossível.

- "Agora já aterrava, já abriam umas janelas, já faziam qualquer coisa..."

- "Ana, pensa positivo, faltam duas horas, em Boston são 11.30 da manhã (peço desculpa mas ao referir as horas guiei-me sempre pela hora local), ainda temos o dia todo pela frente, para fazer montes de coisas".

Ela sorriu mas não me convenceu.

- "Podemos tomar o pequeno almoço pela quarta vez, almoçar pela segunda vez ou lanchar pela segunda vez..."

Ela sorriu e olhou para o plasma e continuou a ver o filme.

As cinco horas de vôo afectam-na, o melhor é ficar aqui quietinho, no assento do meio.

Mesmo que quisesse, não tinha hipótese de me mexer.

Azar, adoro estar sentado. Não são sete ou oito horas de vôo que me vão fazer levantar.

Confesso que os olhos pesam-me. Já dormia. Mas já vejo NYC, Washington DC, Miami, Boston, tudo no plasma. Agora não vale a pena.

Se não me apresso nem tempo tenho para publicar este texto.

BLOG2.jpg

 

O Carlos vai aqui, de barços cruzados, a ver o milésimo filme, a Ana também, com a diferença que leva a Go-Pro na mão. O Rodrigo, de tão calado, não sei se vai a dormir. Acho que vai.

O Zé Pedro, José Pedro Amaral, vai lá do outro lado, sózinho, para ele é na boa, entra no avião e já está a dormir.

O Zé Pedro é o homem - um dos dois - responsável pelo facto de a Volvo Ocean Race chegar a Portugal dia 25, por isso veio connosco até Newport.

Curioso, a primeira coisa que falámos, ainda em Lisboa, no aeroporto, foi sobre a corrida.

- "Acho que trouxe mais roupa para correr que para vestir..."

- "Eu trago sempre pouca roupa".

- "Corremos hoje, quando chegarmos, sej a que horas for, só para esticar?"

- "Claro, corremos pois".

Não sei se quando chegarmos lhe apetece correr, a mim apetece. E vou. Não, não vou!

Pelo que me é dado a ver e a sentir, estamos a começar a descer. 

Há gente excitada - há sete horas - a andar de um lado para o outro. Os ouvidos começam também a dar sinal.

Vou ter que terminar, se não o tempo para formatar o texto e as fotos vôa, lá está, voar.

Mais logo, mostro as fotos que tirámos e que não coloquei aqui.

Depois, escrevo sobre a corrida de hoje, na América.

Certo é que desde que comecei, até agora, estou no céu e não morri.

Só morro se não correr.

A ver se isto aterra em condições, que estou farto de ver hospedeiras alemãs, elas são mulheres muito grandes e eu não me adapto a estes tamanhos.

Não lhes vá crescer o bigode.

Volto à noite, com a crónica número dois.

Era Uma Vez Na América.

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:01



Mais sobre mim

foto do autor



Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D