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DIAS ANDADOS

por The Cat, em 03.01.16

IMG_6864.JPG

 

(Foto by The Cat) 

 

Hoje comprei uma agenda. Está em branco. Ainda.

Fico sempre ansioso por lhes mexer, abrir, olhar, sentir, às agendas novas, bem entendido.

Gosto de as conhecer antes de as usar e esta é diferente das outras - tenho-as quase todas guardadas e até um filofax castanho, em pele, lindo, que qualquer dia meto de novo a uso.

Cada página desta agenda nova e diferente corresponde a um dia, cada dia a uma semana, cada semana a um mês.

É a primeira vez que tenho uma agenda assim; uma página para cada dia.

Poderei escrever muito e à vontade.

Nestes tempos novos não dispenso o tablet, nem tenho como, o computador, o smartphone, preciso deles, mas preciso de uma agenda, de capa preta.

Preciso de sentir a tinta em contacto com o papel, página a página, linhas trocadas, ao sabor dos movimentos que lhe imprimo.

Preciso de riscar, de escrever com outra cor por cima, de riscar de novo, de deixar riscado, às vezes. Às vezes gosto de passar três ou quatro traços de um canto ao outro da página, como que a dizer: não te rasgo, mas não te ligo. Bitch!

Esta agenda, no entanto, lançou-me um desafio, sem que disso tivesse dado conta, sejamos pacientes, talvez a meio do ano, quem sabe, talvez nessa fase, a meio das suas páginas, quando o sol queimar as caras e a brisa ajudar a respirar, talvez ela se dê conta de tamanha ousadia; desafiar o tipo que gosta de desafios, apontados, alguns deles, na sua própria agenda.

O desafio consiste em escrever uma frase.

Uma frase que resume o dia, mesmo no final de cada página, no cair de cada noite.

No final terei 365 frases feitas (ainda vai aparecer alguém a dizer que são 366).

Serei um cliché assumido.

Nessa altura arrumo a agenda nova junto às outras agendas que guardam coisas que não imagino alguma vez ter escrito e feito, mas serei um cliché, marcado por frases feitas e mal pontuadas.

Tenho uma agenda em branco à espera de se preencher, por completo, com desafios, com tormentas doces e cruéis, com imensos sorrisos que se encaixam nas páginas devidas, sobre sublinhados normalmente feitos a preto.

Tenho uma agenda em branco que quer ter frases feitas, viagens intensas, abismos para voar e sal na cara. Primeiro sei que vou ter que mostrar-lhe quem sou de verdade.

Escrevo-lhe o nome, o contacto telefónico, o email (alergias não tenho), a morada profissional.

Apresento-me nela.

Percorro-a com os olhos, toco-a com a ponta dos dedos, passo uma página e outra e outra e ainda outra. Fecho-a.

Ambos sabemos que a vou abrir mal os olhos se fechem.

No fim do dia saberei se o caminho foi errado e terei que suportar a frase, feita em sublinhado, enquanto passa a vida, a correr.

Apanho um avião, mas não consigo esconder-me de mim, porque no fim do dia terei que suportar a frase, a minha, escrita por necessidade, livre, enquanto a vida passa assim ou assim, pelo caminho errado.

Abranda a corrida. Encolhe o passo e torna-se mais lenta e fácil.

Não posso esconder-me de mim.

Arrisco a escrita e o chão.

Tenho que suportar o caminho errado, ao fim do dia. E escrever de novo, tudo de novo, seja em que página for.

Uma página nasceu para ser escrita. Deixá-la em branco é sacrilégio. Pode ser a última ou a primeira, nunca em branco.

Agora vou escrever os dias atrasados que não fazem parte da minha agenda.

Os que ainda azem parte de mim, e estão atrasados. Numa frase. Dias um, dois e três deste ano novo.

Três dias, três frases que um dia alguém irá ler.

Materializar aquela ideia de que devemos viver um dia de cada vez. Vou fazer isso e vou registar, talvez assim consiga ir pelo caminho certo, leve-me ele por onde me levar.

A mim basta as páginas da minha própria agenda. Sou eu quem nelas escreve os dias.

Todos os dias, desde o primeiro.

 

 

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publicado às 23:42


2 comentários

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De amoraconversa a 07.01.2016 às 18:17

Essa sensação de que tudo está por escrever / viver / passar tem tanto de aterrorizadora como de excitante!
Fica a sensação inigualável do sangue a ferver a correr-nos por dentro mesmo que isso signifique que de vez enquanto (todos os dias) tenhamos de nos confrontar com as nossas palavras!
Boa sorte no caminho!
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De The Cat a 07.01.2016 às 19:01

Precisamos todos tanto de tanta sorte!
Obrigado, amiga.

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