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CORREDOR QUASE MARINHEIRO DE GUERRA

por The Cat, em 28.04.15

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                                    ( Foto by the Cat ) 

Hoje fui correr.

Ontem não. Ontem os gémeos estavam desesperados. Este mês vão com duzentos quilómetros. Parou!

Esta semana vai ser só corrida curta.

Soltar as pernas, ganhar velocidade, recuperar com mais facilidade, já que recuperação parece ser uma palavra que desconhecia, até ao momento.

Faz sentido, se for mais rápido por quilómetro, durante menos quilómetros, quando chegar o momento de distâncias mais longas elas serão (detesto usar este tempo verbal) também mais rápidas.

Hoje fiz oito quilómetros.

Fiz uma das médias mais rápidas do ano, com as pernas num estado lastimável, o que para mim foi uma prova dos nove.

Além do mais, sempre tive um estigma em relação às corridas mais curtas, desde que comecei a correr distâncias mais longas. Uma parvoíce.

Uma corrida de seis, sete quilómetros, em ritmo rápido, deixa-me tão satisfeito quanto uma corrida de dez quilómetros. Esta sim, a minha distância, a que mais gosto(ava).

Uma distância redonda.

Começo a ganhar-lhe o vício. Correr menos e melhor.

As minhas pernas estavam (estão menos agora) exaustas.

A partir de uma determinada altura elas raramente tiveram descanso.

Isso obrigou-me a começar hoje uma mudança nos meus hábitos alimentares. Os músculos precisam de combustível para responder ao desgaste.

Em relação à comida sou um pecador. Como mal, como me apetece. De três em três horas, um bolo e um café, outro e outro, uma sandes e um sumo, sabe bem mas não ajuda.

A necessidade de recuperar as minhas pernas passa, então, e entre outras coisas, por correr menos distância, mais rápido, intenso e curto. E, a alimentação.

Portanto, dei uma de girl, fiz um sumo detox para o pequeno almoço.

Almocei uma omelete, porque não havia sopa, lanchei uma papaia e jantei carne estufada, com ervilhas e cenoura. O que eu já ri à conta disto, era só mesmo aquilo que me faltava, cuidar a alimentação. Já estou por tudo. Sinto-me bem.

O que é facto é que as minhas pernas estão, quase que por milagre, a milhas do estado em que estavam. Leves.

Correr está a provocar, lentamente, em mim cada vez mais uma estranha sensação de mudança.

Quem corre costuma dizer que correr faz parte da sua vida, da sua rotina, dos seus hábitos. Isto às vezes parece um chavão para justificar aquilo que não é justificável.

Hoje senti na carne isto que acabo de escrever.

Tal como estou a viciar-me, voluntariamente, na corrida curta, já me viciei em correr aqui, neste sítio, dentro desta fotografia.

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                          ( Foto by the Cat) 

 

 É uma pista que liga a minha cidade à vila mais próxima no sentido de Lisboa. A fotografia que está no topo deste texto foi lá tirada. De um lado a linha do combóio, do outro lado o rio, da fotografia que está duas linhas a cima desta.

É viciante.

As fotografias são todas tiradas com o meu iPhone. Os filtros, depois, fazem-me sentir o mais fake dos melhores fotógrafos do mundo. E adoro colorir assim as minhas corridas, que como sabe, terminam quase sempre nestas linhas, neste blog.

Mas, isto hoje quase foi uma tragédia. Hoje teve de quase tudo.

A saber;

Quando comecei a correr, tinha oito quilómetros pela frente, decidi correr mais rápido do que habitualmente corro. A questão é simples, as pernas não deixavam. As minhas pernas são aquilo que me impede de correr mais rápido. Mas, fui, alonguei umas três vezes e fui indo.

Fiz os meus oito quilómetros mais rápidos este ano, acho que desde que corro (há dois anos e meio).

As dois quilómetros ia com uma média de 6,15 por quilómetro, o que para mim é bom, dadas as circunstâncias. Eis quando, de repente, uma jovem - não tirámos selfie, não lhe perguntei o nome, não falámos, apenas trocámos olhares, de lado, para garantir que iamos a correr um com o outro - passa-me e fica uns passos à frente, ao lado, do lado direito da pista, mas num ritmo que era um descarado convite.

Era bonita. Fomos juntos. Ela mais à frente, eu mais atrás, sempre cavalheiro. Tantas vezes lhe olhei os pés, obviamente, é mais fácil correr ao ritmo do outro se o olhar acompanhar-lhe as passadas, pensava o quê?

Mau.

Fomos juntos três quilómetros. Ao contrário do que é hábito fiz toda a corrida a ouvir a mesma música - Eminem -, uma batida certinha, com a minha e com a dela.

Mas ela decidiu abrandar e ficar para trás. A música empurrava-me. Foi na última vez que parei para alongar que ela me passou.

A cena repetiu-se. Por fim, deteve-se nos aparelhos. Olhei-a e vi-a a trabalhar braços e peito. Estava na hora de regressar.

É quando estou de volta que vi o mundo a rodar ao contrário.

A meio da corrida há uns trezentos metros fantásticos que me transportam para outros sítios. Sei excatamente para onde.

Durante trezentos metros sinto que estou a correr numa base naval norte-americana, ali para os lados de Miami ou assim.

É que antiga Escola da Armada, atravessa a linha do combóio e a pista até ao rio. Também faz sentido. A escola era do lado de lá, os barcos atracam do lado de cá. É nesse espaço que corro como se estivesse numa base militar.

À direita a escola, abandonada, há anos, um país que se dá ao luxo de ter uma quase aldeia, em termos de área, com imensas instalações e edifícios, piscinas, heliporto, tudo ao abandono.

Ao meio o apeadeiro, "Linhas das Torres" e a linha do combóio. Depois, já do lado da cá, da pista, um edifício, que antigamente era a secção de caldeiras, e depois sim, a pista.

Do lado esquerdo o rio e uma espécie de porto.

Toda esta envolvência termina rodeada de árvores por todo o lado e até por cima.

São trezentos metros mágicos.

Entre a antiga secção de caldeiras e a linha do combóio há uma extenção em terra. Gosto de sair da pista e correr aqueles metros por trás da antiga secção de caldeiras. Foi o que fiz. Faço isso quase sempre. Não há lá buracos novos nem armadilhas. Foi o que fiz, mas desta vez paniquei.

Enquanto escrevo este texto é a segunda vez que faço gelo.

Ao sair da pista torci o pé direito, no limiar da entorse. Aquele segundo em que sentes que vais ter uma dor insuportável, um segundo em que pensas que te vais passar. Senti uma ligeira dor do lado de dentro do pé, abaixo do tornozelo interior. Também junto ao tornozelo do lado de fora.

Nos segundos seguintes tentei perceber-me. A corrida é feita de ensinamentos. Desde que corro que aprendi a conhecer muito melhor o meu corpo, sinto quando posso estar à beira de uma lesão, sei perceber se uma dor é passageira ou preocupante, o meu corpo agradece-me.

Faltavam três quilómetros. Estava quente. A dor era ligeira. Dava para ir até ao fim. Logo me passou pela ideia que quando chegasse ao carro e fosse alongar o pé ia ficar frio e a dor podia aumentar e muito.

Conheço melhor o meu corpo, agora, mas não passei a ser médico, tal como não sou fotógrafo.

Fiz vinte minutos de gelo. O pé estava mais inchado. Deixei passar meia hora, voltei a fazer gelo e agora está mais fofinho, o sacana.

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                          ( Foto by the Cat ) 

Esta Terça-Feira há corrida, haja pé ou não.

Basta lembrar-me que vi a miúda com quem, sem nos conhecer-mos, corri três quilómetros, basta lembrar-me que vi uma mulher elegante, muito elegante, que me fez lembrar uma amiga do Porto, basta lembrar-me que passei por um grupo de miúdos que corria em sentido contrário ao meu, ocupando as duas pistas e, no momento em que passei pelo meio desta mini multidão abri os braços, rodei as palmas das mãos para fora e aqueles que conseguiram foram-me dando "fives" à nossa passagem, basta lembrar-me de dezenas de pessoas a correr em uma e em outra direcção, para esta terça-feira voltar ao meu "calçadão", à minha "marginal", à minha "base naval", à minha pista. É tudo meu.

Quem corre costuma dizer que correr faz parte da sua vida, da sua rotina, dos seus hábitos. Isto às vezes parece um chavão para justificar aquilo que não é justificável.

Hoje senti na carne isto que acabo de escrever.

Hoje houve de tudo.

Vou tirar o gelo e dar-lhe com o Voltaren, para não ser parva.

 

 

 

 

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publicado às 00:18


2 comentários

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De Pedro a 28.04.2015 às 12:01

Olá Zé,

estou a gostar muito destas crónicas, mas como leitor e corredor custa um bocadinho perceber que o "custo" das crónicas são lesões. Não corro todos os dias, por isso imagino o outro "custo" que é abdicar dessa rotina por alguns dias, mas uma pausa na corrida não precisa de custar, sobretudo se permitir ao corpo sarar :) fica o conselho! abraço!
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De The Cat a 28.04.2015 às 16:15

Olá, Pedro. Obrigado por mais um comentário que serve, como os outros, de incentivo.
Na verdade falo de algumas mazelas em alguns posts, mas as lesões não dominam as palavras :) até porque, felizmente, praticamente não me lesionei desde que corro. Tenho lido muito sobre corrida. Sei que o descanso é fundamental, mas a cabeça não quer descansar. Quem não tem cão caça com gato, e é essa a ideia deste texto é essa mesmo, mostrar que temos que nos adaptar. Fico muito satisfeito por te ter cativado para a leitura é sempre aberto às opiniões, críticas e sugestões. Um abraço
TheCat

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