Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



COM QUANTOS PAUS SE FAZ UMA CANOA?

por The Cat, em 03.07.15

IMG_4575.JPG

 

Parece que entrei numa cápsula do tempo.

Não sei para onde ela me leva. Sei que me está a levar por um caminho que tentei descobrir, anos a fio.

Há duas semanas que sou objecto de uma experiência. Assumidamente.

Uma auto-experiência. Física, emocional, espiritual.

O equilíbrio.

Ainda agora comecei a procurá-lo. É muito cedo. Mas, nunca é tarde. Nunca.

Não escrevo este texto armado em "campeão".

Pode dar uma imagem errada e eu não gostaria que acontecesse.

Sei exactamente o meu lugar. Na vida, no amor, na amizade, na profissão, nas relações, na corrida, no Muay Thai.

Sobretudo no Muay Thai.

Está a ir além do que eu podia achar que ia ser. Por isso não falei dela quando a comecei.

Estou a começar.

Há já, no entanto, mudanças que estão a acontecer em mim.

Decidi praticar um segundo desporto, a par da corrida.

Era necessário.

Ponderei vários desportos.

Precisava de algo que fosse o complemento perfeito para aquilo que a corrida me dá.

O corpo e a mente.

O conjunto. O equilíbrio.

É uma tarefa complicada encontrar equilíbrio nos dias que correm.

É geral.

A minha filha treina Muay Thai há uns dois anos.

Treina na escola ZFortes, do mestre Zé Fortes.

Quando a ia buscar ao treino, às nove da noite, ela aparecia-me sempre num estado tão, mas tão zen, e feliz - o sorriso revela esse estado de espírito - que, sem saber, começou a influenciar-me.

Nem eu próprio me tinha dado conta disso.

Os desportos de combate secam, tornam as pessoas mais ágeis, mais ponderadas, calmas, concentradas, por muito que as imagens de treino ou de combates possam parecer "horríveis"(?), afinal o senso comum acha que "é só bater".

Já por alturas do ginásio, quando por lá andava, há uns quatro ou cinco anos, estava inclinado a começar a treinar Muay Thai mas uma coisa chata que tenho no pé esquerdo sempre me afastou.

Até há duas semanas.

Nunca tinha entrado num ginásio de luta.

Não conhecia os códigos, as saudações, não conhecia o cheiro do trabalho, incrivelmente duro e extenuante, nunca tinha sentido o tapete molhado e os pés a escorregarem a cada pontapé, a cada joelhada. Cheguei a cair. Hei-de cair mais vezes. E, hei-de levantar-me em todas essas vezes.

Há sempre uma mão, uma voz que te ajuda a levantar.

Conheço o mestre Zé Fortes há mais de 30 anos.

Só conversámos, pela primeira vez, há uns dois anos e pouco, a propósito da Maria.

Houve empatia.

Era com ele que eu tinha que ir ter.

Abriu-me as portas, puxou-me para dentro da família - somos uma família - e tem-me seguido de perto.

Eu não vou falar muito sobre ele. Ele é uma pessoa reservada. Inteligente. Vejo-o a dois tempos, ou três: um ser humano de carácter excepcional. Um Mestre, daqueles que seguimos e admiramos. E um exímio treinador e praticante de Muay Thai, a nível mundial.

Acho que basta esta discrição.

Se ele me autorizar, num outro texto, poderei falar um pouco mais sobre o registo pessoal.

Por agora não. É que estou a aprender os códigos.

Ele ensinou-me o significado da saudação "sawadee krap". O primeiro código. O primeiro ensinamento.

Temos conversado sobre o Muay Thai.

Estou sedento de aprender.

Ele tem paciência para mim. Eu tenho-lhe um profundo respeito. Escuto-o como um aluno.

IMG_4346-1.JPG

 

O segundo ensinamento:

Um destes dias fui correr de manhã e a seguir fui treinar Muay Thai. Fui trabalhar e à noite decidi correr de novo, para queimar o ácido que dói e para soltar as pernas que pesam.

Quando regressei fui ao pavilhão, à nossa pequena casa de trabalho, junto aos balneários, ao fim do corredor, não que tivesse alguma coisa para fazer ou dizer mas, porque me apeteceu ir, dar as boas noites a quem lá estava e conversar com o Mestre, no fim do treino.

Aquilo entranha-se dentro de nós.

O cheiro dos corpos, que nos agonia, à primeira vez, nos primeiros cinco minutos. O cheiro dos pés, dentro da sala. O chão molhado da transpiração.

Tudo isto nos cria alguma estranheza nos primeiros cinco minutos de treino, depois de meia hora de aquecimento, sem parar.

Depois, depois somos um entre iguais.

Depois, não pensamos em nada daquilo. Faz parte. Em cinco minutos habituamo-nos e depois sentimos falta.

Depois, a preocupação é fazer os golpes como devem ser feitos, manter extrema concentração, aguentar fisicamente e não desiludir que está a dar-nos o seu tempo e a sua sabedoria.

Tem tudo a ver com disciplina física e mental.

Cotovelos, joelhos, canelas, pés, punhos. Treinamos tudo isto. "A arte das oito armas".

A primeira vez que treinei clinch - significa prender o oponente pelo pescoço ou mesmo em torno do corpo e conseguir deitá-lo ao chão, puxando a cabeça e rodando o corpo - mal me agarrei ao Wendes Martins ia vomitando.

Afastei-o, disfarçadamente, fingi estar a respirar e estava.

O cheiro do ginásio, o suor, o cheiro do corpo dele, cara a cara, cabeças encostadas, braços entrelaçados, tudo me foi estranho durante os primeiros segundos de treino. Estranho e difícil.

Passados os tais cinco minutos eu já só queria colocar em prática aquilo que o Wendes me estava a ensinar.

O desconforto deixa de existir. Apenas manténs o foco.

"A cabeça fica sempre de lado. Este braço sempre a prender o meu". Sai cotovelada, simulada, na minha cara.

"Se esticares o braço no momento do golpe travas o golpe. Roda. Isso, as mãos aí na minha cabeça. Quando rodares puxa-me pelo pescoço e deita-me ao tapete". Era o deitavas!

Quando lá cheguei, pela manhã, áquela rua em Arroios, Lisboa, bem olhei à procura de um ginásio. Olhei à volta e nada. Uma rua de Arroios.

Uma porta velha. Uma escada velha. Tudo a lembrar os ginásios de boxe dos filmes norte-americanos.

Um prédio velho, na zona velha de Lisboa.

Um dos três locais onde o Mestre Zé Fortes tem a escola. Lisboa, Vila Franca de Xira e Castanheira do Ribatejo.

Subi as escadas, determinado.

Uma jovem esfregava o chão do hall de entrada.

Espreitei por cima do ombro dela.

Pela primeira vez, através de uma outra porta, vi o ringue, o tapete fora do ringue e uns três ou quatro lutadores sentados, à conversa. Os sacos, as cordas, as luvas.

"Bom dia. O Mestre está?"

A menina respondeu-me que ainda não tinha chegado, "mas entre".

Entrei, cumprimentei um a um, apresentei-me e sentei-me junto ao ringue.

Não conhecia ninguém. Ninguém me fez perguntas.

Foram chegando mais pessoas.

Percebi - a minha filha disse-me mais tarde que o adora e que são muito amigos, apesar da diferença de idades - que tinha acabado de chegar o campeão.

Luis "Africano".

IMG_4344.JPG

 

Vestia os calções tradicionais do Muay Thai, com motivos do campeonato que tinha acabado de ganhar, há um dia, em Inglaterra.

Percebi que era ele, porque quando troquei mensagens com o Mestre para começar a treinar ele disse-me que estava a ir para Inglaterra. Foi fácil perceber.

Porra, o primeiro treino e logo ali com a elite junto a mim. A dar-me os primeiros ensinamentos.

Porra vezes dois.

O meu primeiro treino foi com o Luis. Melhor? Não creio.

Dei-lhe os parabéns e apresentei-me.

Foi com ele que aprendi os primeiros movimentos, os primeiros golpes.

Foi com ele que começou a minha experiência. A auto-experiência.

No final do primeiro treino perguntei ao Mestre se podia ir correr.

Não me aconselhou a corrida.

"Vais começar a cair, ao longo do dia. Se te sentires bem vai correr ao fim do dia".

Caro leitor(a) correr?

Passei o meu primeiro dia de treino completamente anestesiado, como se tivesse tomado meia caixa de Xanax.

Obviamente que quis mais. Quero mais. Por isso não parei.

Estou a treinar Muay Thai quatro vezes por semana e a correr outras tantas.

Depois de todos os treinos fico num estado de contemplação.

Pode o mundo ruir que eu demoro a reagir. Com tanta calma, tenho que beber cafés atrás de cafés, para me manter "normal".

Se isto não é bom...

O ginásio está instalado num edifício antigo.

Lá dentro há dignidade, trabalho, coragem, dor, prazer, superação.

Tenho aprendido que não é apenas dar uns directos, uns circulares, umas joelhadas, não é só estares física e mentalmente à altura do desafio. É respeito. É dares aquilo que achas que já não tens para dar mas que alguém te faz ver que não ainda não deste tudo.

É ir além do corpo.

É a superação.

A concentração, com base em rituais orientais ligados ao Muay Thai, a viagem que a mente faz, a irmandade que se entre-ajuda, que ensina, que aprende.

Os rituais.

"O Muay Thai é luta, não iludamos ninguém. O Muay Thai é espiritualidade. Quando fores à Tailândia vais sentir isso", disse-me o Mestre, numa das nossas conversas.

"Honra e Glória". Também já lhe escutei.

Honra naquilo que cada um de nós consegue.

Glória por acabarmos de pé ou caídos no tapete, depois de dar tudo.

Cada qual no seu próprio registo, no seu próprio desafio.

Os dias foram passando e fui conhecendo as pessoas. Já sei os nomes. Já percebo, ainda que com dificuldade, o ritmo do treino.

E, tenho aprendido que a luta é um desporto e esta luta é um desporto que nos coloca num patamar elevado, em relação ao corpo e em relação ao carácter.

Esta gente, estes desportistas, eles trabalham muito, tanto que dificilmente se imagina, a não ser que estejamos junto deles, com eles.

Ainda ontem, depois do meu treino, sentei-me num pneu e fiquei a observar o treino do Adelino "Perigoso" Boa Morte com o Carlos - Kalu - Moura.

Fiquei ali, a observar como o pé roda aquando do kick, a ver como ele bate e como o Kalu se defende.

Mais de uma hora sem parar.

Potência máxima. Força brutal. Agilidade estonteante. Suor, muito. Ar a sair dos pulmões, a jacto, a cada golpe.

E dou comigo a viciar-me no desporto, passo horas a ver combates do Adelino, do Luis, do Wendes, do Kalu, a ver os treinos do Mestre, no Youtube. A ver só por ver. Para interiorizar mais.

E, a cada dia que passa, torno-me cada vez mais profundo admirador destes homens.

Trabalham tanto.

Não há, aqui, milhões de euros, nem carros ou relógios de luxo. Não há, aqui, televisões e fotógrafos, não há sequer um programa de tv sobre Muay Thai mas, uma coisa garanto, há, aqui, lutadores, desportistas dos mais completos que alguma vez vi.

E, todos eles mereciam a fama de outros desportos. Todos.

Nunca me passará pela cabeça chegar sequer aos calcanhares desta gente, não tenho idade, condição física, nem vida. Mas, aprendo tanto com eles.

E, tanto é muito.

No Domingo fui correr os 10 quilómetros da Corrida do Arroz.

Ao primeiro quilómetro passa por mim um jacto supersónico.

kalu2.jpg

 

O Carlos - Kalu - Moura, vestido com a camisola da nossa escola, arrancou no pelotão da frente.

Passou por mim e fez questão de me dar os bons dias, a correr. E o incentivo da ordem.

Tínhamos estado juntos uma única vez e nunca tinha treinado com ele. Foi genuíno.

No final da corrida, ele, a Helia e o David Carapinha procuraram por mim e pela Maria. Uns abraços, as fotos da praxe e uma conversa em família. Isto não é ser uma família?

Não sabia que eles estavam todos a participar na prova.

E, não pense que foram ter comigo porque "sou da televisão", como costumam dizer, não, foram ter com a Maria e comigo porque sabiam que nós estávamos lá.

Ali, sou um principiante, que sabe estar no seu devido lugar e eles não me olham como o "tipo da televisão". Também não me olham como o inexperiente do grupo. Eles estão ali pelo Muay Thai. Eu também. É isso que nos torna iguais, num certo registo.

Até porque estão mais do que habituados, o Mestre treina e treinou gente bem mais conhecida que o Quaresma.

E, eu gosto que me deixem estar naquele registo, o deles, que também já é o meu.

Como não mencionei todos os ensinamentos neste texto já devo ir para aí no sexto.

Nesse dia em que corri de manhã e treinei e depois corri à noite e passei pelo ginásio, que fica no fim do jardim da vila (que é cidade), aprendi mais outro ensinamento.

Na nossa conversa, disse-me o Mestre, depois de me explicar a saudação, como se faz, o que significa, a quem se faz, porque e quando se faz:

" Tu surpreendeste-me pela positiva".

Achei que ele estava a referir-se à minha condição e à minha evolução.

"Apesar de te conhecer há muitos anos e de treinar muita gente conhecida, tu surpreendeste-me porque manténs-te fiel aos valores, às pessoas de cá, aos princípios, às amizades, a fama não te subiu à cabeça. Isso é de muito valor".

Eu encaro o que faço com naturalidade.

"Mestre, se eu fosse serralheiro, que já fui, ninguém sabia quem eu era mas, eu construía coisas do caraças, tubagens, navios, caldeiras, sei lá.

Saberem quem eu sou não é um problema meu, até porque ninguém sabe quem eu sou. Tu sabes, a maioria acha que sabe.

Eu sou o que sou, aquilo que sou. E, quando sair da televisão? Um dia irei sair, tenho a certeza.

Nessa altura quem sou?

Sou sempre eu, Mestre".

Foi neste momento que senti que me tinham aberto as portas desta família que se chama ZFortes.

O Mestre deu-me a mão.

"Olha para eles. Hás-de ficar assim, seco, como eles".

E, por isso, quase não páro de treinar.

Não sou como aqueles corredores que correm um quilómetro em quatro minutos e com a ajuda da app marcam três e meio, alguns, não sou como o Adelino, o Luis, o Wendes ou o Kalu. Parece-me óbvio.

Treino ao meu ritmo. Sempre ao meu ritmo, mesmo que seja o ritmo dos outros.

Ontem corri, pela manhã, uns sete quilómetros.

À tarde, cheguei ao treino meia hora antes.

Digo treino porque eu não pratico Muay Thai. Eu treino Muay Thai, o que são coisas diferentes.

Praticar e lutar Muay Thai não tem nada a ver com o que eu faço mas, é o Muay Thai que nos agrega e nos torna uma família, onde cada um de nós tem os seus próprios objectivos.

Os profissionais, os que tentam ser, os que apenas treinam, como eu.

Cada qual com o seu objectivo, cada qual unido aos outros por um só ideal.

Isso contagia. Aproxima.

IMG_4538.JPG

 

Ontem, conheci, pessoal e finalmente o Marcelino.

Ele é um dos vários braços direitos do Mestre e um dos nomes regularmente pronunciados cá em casa pela Maria.

Ela têm também um profundo respeito e é acarinhada por todos.

E, aprendi mais um ensinamento.

Treinei com a Hélia, no ringue, juntamente com o Adelino e com o Carlos Moura.

Na verdade eles treinavam, eu reproduzia movimentos. Senti-me pequeno, reduzido à verdadeira condição.

Os socos e pontapés do Adelino ouviam-se em Lisboa.

A Hélia, segundo me disse, pratica Muay Thai há dez anos.

Já a conhecia do ginásio e das aulas de bike.

Mas nunca trocámos uma palavra, até domingo passado, na Corrida do Arroz.

Ontem treinei com ela.

Paciente, foi-me ajudando até ao limite.

Saí do ringue, tirei as luvas.

"Marcelino, já não aguento mais".

"Aguentas sim. É a praxe. Desististe, tens que aguentar. Calça as luvas e vai para dentro do ringue".

Ainda fiz mais umas quantas séries de cotovelos, murros, joelhos e pontapés.

Ao fim de hora e meia - comecei antes e faltava uma meia hora para acabar o treino normal - já não conseguia mais.

"Agora faz duzentos abdominais. É da praxe. Faz alternados".

E fiz.

A praxe e o ensinamento.

Não foi só uma praxe - nunca tinha treinado com o Marcelino, nem nunca tinha treinado à noite, são grupos diferentes - foi um ensinamento.

Aprendi que quando queres parar há sempre mais qualquer coisa que tens para dar.

E, tenho aprendido muito.

A minha condição física melhora a cada dia que passa.

Tento seguir-lhes o exemplo.

Sinto mais segurança em mim. Maior controlo.

Sinto que a experiência ainda me vai ajudar muito.

Uma coisa aprendi, nestes dias: nós temos sempre uma opinião sobre tudo, mesmo que não conheçamos a realidade. Faz parte da condição humana.

Mas só no dia em que sentirmos na pele a dureza, a dificuldade, a superação de quem é alvo da nossa opinião é que saberemos, na verdade, com quantos paus se faz uma canoa.

Isso, com quantos paus se faz uma canoa!

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 12:55



Mais sobre mim

foto do autor



Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D