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CERTEZAS EM CONTRA-RELÓGIO 9/11

por The Cat, em 11.09.14


Não gosto nada destas coisas.


Tenho que escrever este texto rápido. Daqui a pouco é meia noite e ele deixará de fazer sentido. Sim, na onda da Gata Borralheira e sapatinhos de cristal e coisas assim.


Só me queixo logo a abrir porque correr contra o tempo remete para um grau de dificuldade que não aprecio lá muito.


Escrevo sempre rápido. Leio rápido. Tiro pedaços de prazer. Por opção. Quando quero. Assim não gosto.


Quando a opção é minha não me detenho.


Houve um dia em que me detive. Houve!


Houve dias assim.


Foi naquele dia que "nenhum dia o apagará da memória do tempo" (quem foi a NYC já deve ter visto o mural com esta frase, eu nunca lá fui e já vi).


Naquele tempo, treze anos lá para trás, naquele tempo havia um programa de televisão aos sábados de manhã que eu costumava apresentar.


Naquele tempo, treze anos lá atrás, naquele tempo eu trabalhava aos fins de semana. Como neste tempo. Treze anos.


O treze é o meu número fetiche, nasci a treze, no quarto cento e treze, e diz o mito urbano - aqui já coloco reticências - às treze e qualquer coisa.


Ao contrário do comum mortal eu folgo fora de horas, eu trabalho sem horas, mas folgo. Folgo, é verdade, em dias que não lembram a ninguém. Não cria rotina e dá para fazer umas coisas, não me queixo.


Eu gosto muito de dormir. Bem sei que quando morrer tenho tempo, mas gosto.


Descanso muito. (Aceita-se a gargalhada). Faço pela vida.


Há treze anos - só ver as horas; tenho treze minutos até ser dia doze senão deixa de fazer sentido, o treze é o meu número da sorte, eu já tinha dito - depois de dormir até tarde, fui como habitualmente "dar uma volta" ao centro comercial. Aquilo era um centro comercial gigantesco. Um quarteirão inteiro. Hoje não passa de um quarteirão vazio de tudo. Mas gigantesco.


É incrível, todos nos lembramos do que fizemos, onde estivemos, há treze anos.


Há treze anos, no dia onze de setembro.


É incrível, nenhum de nós se lembra do que fez, onde esteve, no dia onze de setembro dos anos que se seguiram.


Mas, no 9/11 vem-nos à memória detalhes tão íntimos que quase conseguimos descrever a roupa que usámos nesse dia.


Da roupa, confesso, não me recordo, mas ainda tenho os


"All Star "encarnados.


Quando o gigantesco centro comercial ainda tinha vida, a loja que eu mais gostava de ver, do lado de fora, era a loja da Singer.


Não me recordo da roupa que vestia, é verdade, difícil recordar todos os detalhes. Nunca a montra da loja da Singer.


Gostava de percorrer todas as televisões que enchiam a montra. Gostava de passear os olhos pelos ecrãs e ver do lado de fora.


Como que a pensar: isto é giro visto do lado de fora.


Era quase um ritual, nas minhas folgas.


Também era normal almoçar em Lisboa com o meu filho e com o tio emprestado.


Treze anos depois o meu filho estuda no liceu e o tio emprestado já tem dois filhos.


Nesse exacto momento as imagens do primeiro avião.


Uma vez, duas, três, mil, milhões, biliões, ecos, caras, pó, última hora, atentado. Uma vez, duas, três, mil, milhões, biliões!


Liguei para a TVI. É aqui que entra aquela parte que já ouviram falar, do jornalista vinte e quatro horas por dia.


Também era eu próprio, pasmado, um homem pasmado, quem estava a ligar.


Alguém com um canal directo com as notícias e a aproveitar-se disso. As notícias movem o mundo e o Homem.


Pouco sabiam.


Um atentado terrorista, um erro humano...e as notícias.


Corri. Entrei no carro. Liguei o rádio. As notícias. Cheguei a casa. Sentei-me, hoje, acho que no meu sofá azul, há treze anos limitei-me a sentar-me.


O treze atravessa-me. Desculpe, é a terceira vez que o digo.


O segundo avião.


O resto.


O tudo.


O tremor.


O terror.


O zero.


O Ground Zero, de que eu nunca tinha ouvido falar, a Lower Manhattan, onde eu nunca fui, o World Trade Center, onde eu nunca entrei, as Torres, que eu nunca subi. Dizem que tinha centenas de elevadores... 


Sempre quis lá ir.


Gosto muito de elevadores...


Tudo era muito familiar, naqueles instantes que se prolongam nos tempos, até que o tempo seja digno desse privilégio.


Enquanto o mundo discutia os bons e os maus, enquanto os analistas criavam cenários possíveis, enquanto poucos, muito poucos se iam dando conta de como a Humanidade é apenas uma mancha, eu mais não conseguia que olhar. Ver.


Apenas.


Só depois consegui ouvir.


Sem legendas.


Parece que esse dia não existiu, embora ele se prolongue nos tempos, até que o tempo seja digno desse privilégio.


Parece que um qualquer realizador norte-americano decidiu fazer um brutal filme sobre a ameaça negra. A Besta Negra e os Defensores do Mundo.


Eram pessoas que caíam lá de cima. Bonecos com vida, numa curta viagem para a morte. Alucinante. Eram pessoas encurraladas com a morte. Como nos filmes mais bem conseguidos.


É difícil esquecer.


Eu não esqueço os afectos. É isso que somos. Afectos. Longe ou perto.


Ainda hoje não me detenho nos bons e nos maus. Nem nos mortos nem nos vivos.


Ainda hoje parece que estou a assistir a um Truman Show, mas com mais efeitos especiais. Interminável. Assim será. "O" onze de setembro...


Não me recordo de todos os outros onze de setembro que se seguiram.


Até hoje. Recordo-me do onze de setembro de há treze anos - ainda é onze de setembro, ainda não é meia noite. E recordo-me do onze de setembro. Ponto.


Há filmes que nos marcam para sempre, nós somos os actores e somos os espectadores.


Há dias que nos marcam para sempre, num instante, num momento.


Há pessoas que nos marcam para sempre, belo, desafio.


Há feridas que nos marcam para sempre, amor, dor.


Há certezas que enfrentam incertezas.


Tenho a certeza que de hoje a um ano vou lembrar-me do onze de setembro de há treze anos.


Tenho a certeza que de hoje a um ano vou lembrar-me do dia de hoje.


Vou lembrar-me que almocei pizza com frutos do mar.


Talvez não me lembre da roupa que vesti, mas da pizza vou lembrar-me.


Tenho a certeza.


Absoluta!

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publicado às 23:39



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