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AS BARREIRAS OU A NATUREZA HUMANA

por The Cat, em 16.10.14

 


 


IMG_0282.JPG


 


Há uma coisa que me falta descobrir na corrida: correr dentro de uma cidade. Nas suas vísceras, literalmente. Pelas vielas, pelas avenidas, pelos bairros, pelos jardins, pelas estradas. À noite. Como esta noite.


Saí mais cedo da televisão. Compromisso de pai. Reunião com o coordenador técnico do clube onde ele joga. Reunião de pais.


Pelo meio a minha filha acabava o treino de Muai Thay - que isto não há cá dinheiro para shotguns -, esta era a altura em que eu tinha que me desdobrar ou em alternativa tudo ia bater certo.


A reunião era às sete e meia - começou atrasada e justificada como todas as reuniões - e o treino dela terminava às nove da noite.


Havia o treino dele que acabava às nove e meia, mas neste caso a coisa já está mecanizada, o Tó, o João ou o Mauro dão-lhe sempre boleia para casa.


Tudo certinho. Gosto de alguma ordem no meu caos.


Mas havia um dilema, uma necessidade, uma ansiedade, uma vontade. Correr. Ontem não corri. No dia antes corri dez quilómetros. Hoje tinha que correr. Seis quilómetros só para matar o vício - faço sempre mais um ou dois, mas de início tento convencer-me que serão apenas seis -.


E, hoje, bateu-me aquela ideia: correr na cidade. Samora Correia é cidade. Não consegui ir para a pista junto ao Rio, na outra margem, estava escuro pra correr no campo, não me apetecia ir correr junto às vivendas, farto de cães histéricos e, correr na estrada nacional é impensável.


A pergunta sacramental: correr, quando, onde e como?


Seguindo a lógica, a reunião termina, ele tem boleia garantida, eu parto para o jardim, pego na miúda e sigo para casa.


Pois.


Correr só depois de chegar a casa.


Eu gosto. Gosto de correr à noite. É o período do dia que mais gosto para correr. Correr é aquele momento kit-kat do dia. Uma hora (pelo menos) só para mim. Às vezes menos, mas sempre mais do que cinquenta minutos.


É nesse momento que me deixo a sós comigo. Durante aqueles longos minutos, eu gosto de corridas longas, gosto de correr. Também gosto de corridas curtas. Mas, nas corridas longas tenho mais tempo para mim.


Sinto os órgãos a funcionar, um-a-um, os poros a abrir, sinto-me respirar, sinto dores e vontade de parar, de andar, vá. Sigo. Foi para isso que saí.


Chamemos-lhe o " momento de verdade". Eu e eu, só os dois, comigo, enquanto corremos juntos. Gosto muito de correr sózinho. De fazer o meu próprio treino, como me apetece. Gosto de correr com outras pessoas. Com a multidão, nas provas. Eu não gostava de ir a provas, agora gosto. Gosto muito.


Por causa da app que utilizo, de repente, comecei a ter muitos seguidores de todas as partes do mundo, do Japão, Austrália, EUA, Grã-Bretanha, Singapura, Hungria, Holanda, França, até de Portugal.


Por isso, hoje, depois de correr, depois de aproveitar um pedaço de noite fresca, agradavelmente fresca, decidi "brindar" a minha corrida a esses meus (novos) amigos espalhados pelo mundo e, tirei a foto e publiquei-a no Instagram, em inglês, para que eles percebessem.


A legenda era simples: meus amigos das corridas, vocês tem muita sorte por terem onde correr. A minha câmara é assim que olha para aqueles que gostam de correr.


É uma metáfora mascarada de realidade.


Na verdade, eles não tem sorte. Eu é que tenho azar. Tenho muitos amigos que correm em sítios onde é suposto correr. Cá em Portugal, aqui ao lado, a seguir à ponte.


A coisa não é generalizada. Há muitos sítios para correr em Portugal, não há é onde eu vivo. E, eu vivo numa das maiores freguesias do país, senão a maior.


É uma questão de visão.


Portugal não tem cultura desportiva.


Vai começando a ter. Aqui e ali.


Há mais de vinte anos vivi em Joanesburgo, África do Sul. Há mais de vinte anos qualquer escola secundária, primária, de bairro, tinha meia-dúzia de campos relvados e pistas de atletismo. Os relvados eram utilizados para jogar futebol, rugby ou cricket.


Aos fins de semana havia os campeonatos regionais, de manhã e, os pais e amigos, familiares e professores, enchiam as escolas. Mas isso foi há mais de vinte anos e em África (do Sul), agora não interessa nada, afinal estamos no século vinte e qualquer coisa.


Em Portugal, se calhar levados pela crise - mais uma evidência de que a corrida e a vida ligam-se - há cada vez mais pessoas nas ruas, nos parques, nos jardins, nas estradas, nas pistas. Uns caminham, uns correm em ritmo de jogging, outros são rápidos. Há aqueles que vão de bicicleta. Rostos que se cruzam, familiares, palavras que não se trocam, olhares rápidos de cumplicidade, sofrimento e prazer em comunhão, em meia-dúzia de passadas.


Há aqui muito de relações humanas. Rápidas. Blind date com caras familiares. Running date, diria.


E não é assim só onde vivo. É assim em todo o país. Portugal está a mexer-se. Correr implica um investimento ao alcance da maioria, capacidade de sofrimento, crença no prazer, mas sobretudo gostar dos shots de endorfina. É isso que tranquiliza a cabeça dos milhares que gostam ou, como eu, aprenderam a gostar de fazer exercício.


Há depois a parte estética e a parte da saúde.


Tudo isto, mais aquela coisa da superação faz com que correr, no caso, seja muito mais que correr.


Vai para além do acto mecânico. É o momento em que a minha tendência para engordar é encarada como uma benção. Gosto de comer. Como e corro. Senão engordo.


Repara, portanto, caro(a) leitor(a), que há nisto da corrida muito do que é a própria existência humana.


Não perceber isto é não entender a natureza humana. A tomada de consciência. A movida. A alavanca colectiva que está a ser a corrida e a caminhada, a bicicleta, para as pessoas. Os portugueses querem viver mais saudáveis.


O exercício ajuda a enfrentar os dias mais duros e a relaxar mais nos dias mais relaxantes.


O meu despertador está desde hoje para despertar às sete da manhã de segunda a sexta.


Uma foto da Rita Rodrigues fez-me pensar que correr ainda de noite e acabar ainda de noite, ou com o dia a nascer, mesmo que depois volte para a cama mais um bocado, ou não, deve ser uma experiência refrescantemente saborosa.


Não entender isto é não entender a natureza humana.


A fotografia desta crónica, escrita como todas em nome pessoal, sem qualquer análise ou postura profissional, apenas pessoal, utilizando aquele direito de cidadão, o da liberdade de expressão, ilustra quem não entende a natureza humana.


Não quer isto dizer que não cuide das suas populações, que não faça o seu trabalho para o bem-estar das suas populações, nem sequer quer dizer que seja incompetência.


São políticos, daqueles que não entendem a natureza humana. Apenas isso e sem qualquer tipo de ofensa inerente. Crítica sim. Enquanto cidadão que gosta de correr ao ar livre. Ainda não está taxado, lamento.


Por isso, não entendem isto.


Correr vai para além do entendimento. É bom. É muito bom. Mesmo que para isso a estrada seja a minha pista e as baias em ferro os meus obstáculos.


Desde que corra!


(Tenho pena de não conseguir acompanhar as minhas crónicas com as músicas que ouço enquanto as escrevo)


 


 

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