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ALICE PASSOU NO TESTE

por The Cat, em 01.11.16

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Dia 31

31/10/2016

 

Esta foto foi tirada há exactamente um mês.

Passou um mês.

O primeiro mês.

Alice chegou mandada pelo destino.

Faz hoje um mês e escrevia eu assim:

Alice é uma gata que não tinha nome, até ontem.

Alice já tem um nome, a partir de ontem, e o facto de eu afirmar que é “a gata sem nome”, serve apenas para marcar o antes e o agora. O futuro.

A minha relação com gatos era estranha, não era má, mas os gatos encostam-me à parede. Eu acho, paranóia minha, que os gatos têm todos um olhar familiar, gestos e reacções familiares e isso quase que me assusta.

Chego a pensar que são reencarnações.

Por isso sempre me opus à vontade dos restantes habitantes deste pequeno país que é a minha casa.

A minha filha sempre quis ter uma gata, ela quer ser veterinária.

Estava fora de questão.

Acontece que no dia 30 de setembro, sexta feira, um miúdo encontrou uma gata à porta do liceu, em Vila Franca de Xira.

Ela estava a morrer.

Não o deixaram entrar, com a gata, na escola.

Nesse instante, a minha filha vinha a sair, com a Ana Carolina, e ficou, literalmente, com a gata nos braços.

Não conseguiu deixar a gata no passeio.

Eu também não conseguiria, embora haja quem o tivesse feito.

Sabendo que a minha relação com gatos é estranha, Maria decidiu, por si, procurar ajuda para tentar salvar a gata, que não conseguia sequer caminhar, suster-se em pé. Tinha um olhar triste.

Mal entraram numa loja, com consultório veterinário, e ma pousou a gata no balcão, quase não conseguiu dizer: "encontrei esta gata na..." porque imediatamente alguém lhe disse, sem mais: “nem pensar!”.

Correram mais uns sítios e foram finalmente atendidas na Xira-Vet, uma das clínicas da cidade.

A gata sem nome estava salva.

Tudo ia ser diferente, daqui em diante. Para elas e para mim.

Tudo isto me chegou depois.

Estava eu a leste desta história tão bonita, quando recebo um telefonema:

“Pai, preciso de falar contigo, um assunto sério”.

Assustei-me.

Ela contou-me a história toda.

Tocou-me, muito, mas não dei parte fraca.

Se já falaste com a mamã, então deixa a gata na avó e depois tomamos uma decisão”, arrumei o assunto.

Mas, mal desliguei o telemóvel já estava decidido.

Mais ainda, depois de receber umas fotografias por sms.

Uma atitude como aquela, sem que houvesse qualquer tipo de manipulação, tinha que ser premiada, encorajada, mas acima de tudo respeitada e sublinhada, porque eu senti orgulho imenso no tamanho do coração dela.

À noite mandei um sms à minha filha, que me tinha enviado tais as fotos da gata sobrevivente, no seu colo.

Não tive coragem.

“Ok, por mim ela será bem-vinda”.

A alegria com que a Maria recebeu a notícia vai fazer com que daqui a muitos anos ela se lembre do que fez, do seu próprio exemplo. E, isso é impagável.

No veterinário foi-lhe então dito que Alice tinha pouco mais de um mês e que o facto de ter sobrevivido até chegar aos braços da Maria foi um milagre.

Como se sobrevive com um mês de vida, sózinha, na rua, à mercê de tudo, sem comida, sem carinho?

Ela sobreviveu, e é um exemplo que me entrou casa dentro.

Chegou ontem cá a casa.

Fraquinha, assustada, olhos inflamados, imensas peladas, cambaleante, com fome, mas com laivos dourados-sol, entre o pêlo escuro, uma expressão que me conquistou, mal a vi pela primeira vez, com um andar elegante, apesar de tudo, como se exige a uma gata bonita, sim, porque Alice é bela.

Há muita beleza nos olhos dos sobreviventes.

Eu guardo os exemplos de sobrevivência.

Sigo-os.

Demos-lhe o nome de Alice, porque as senhoras da casa decidiram que tinha que ser nome de pessoa.

Alice tem o som "cssssssssss", de Alicsssssssssssse, e dizem que os gatos gostam. E as gatas.

E, o facto de Alice ter aqui chegado não foi um mero milagre, foi um sinal. Para todos nós.

A sua história merece ser contada, porque ela é mais que uma gata, é a Alice, a gata que já tem nome.

Quando Alice fizer um ano de vida connosco, dia 1 de outubro do ano que vem, a história será concluída.

Até lá será contada todos os dias.

Hoje, pela primeira vez em 24 horas, Alice deitou-se na cama que é só dela.

E, eu não lhe consigo resistir.

Acho que nos vamos entender muito bem.

Esta é a história de “Alice”.

Esta é a nossa história.

Porque aqui amamos a vida e o bem.

Foi isto que escrevi quando soube que ia ter mais um ser vivo dentro de casa.

Porque aqui amamos a vida e o bem, Alice por cá ficou, cresceu, cresceu muito, e não foi só fisicamente.

Tornou-se um membro da família.

Hoje, enquanto está a ler  este texto é dia um de novembro.

O primeiro dia de Alice cá em casa, na verdade, um mês depois.

Aqui está ela, a meu lado, a tocar-me com a pata, acredito que está a fazer-me festas, ternura.

Gostava que fosse a Maria a escrever essa página, fazia sentido, pedi-lhe, mas a Maria, tal como o Rodrigo, são dois jovens cada vez mais ocupados com as coisas da vida deles, os amigos, as saídas, os namorados, etc, que isto de ter uma gata alto lá!

Expliquei-lhes que há tempo para tudo, até para um dia terem saudades daquilo que não escreveram.

Mas, eles são assim, como os miúdos, um dia vão entender que os namorados (que mudaram entretanto), os amigos (que não são para toda a vida), a amizade e as saídas (que não é o amor, nem o quene da lareira), jamais voltarão, mas é a sua opção.

Sim estou amargo com eles. Tenho muita pena que não tenham a noção de que o tempo que passa, não vem atrás, passou.

Tenho saudades de entrar em casa e virem a correr para os meus braços: "papá, papá..."

Não creio que eles tenham saudade de alguma coisa, a não ser de ontem, do jantar de ontem, do namorado de ontem, da amiga de ontem, não creio, mas é um problema deles.

Que aprendam por si, mesmo quando já for muito tarde.

Tal como com Alice, muito giro no início, mas depois a vida continua e alguém há-de tratar de Alice que eu preciso de mais cinco euros para ir tomar café.

É por isso uma homenagem, aquilo que aqui deixo, a Alice.

Uma homenagem a Alice que é cada vez mais feliz e, ainda assim, apesar de tudo, uma homenagem à Maria que salvou Alice e, uma homenagem a mim, que tenho uma paciência do caraças, para Alice, para o resto, tenho mesmo, mas cada vez menos, muito menos.

A Maria não tem vagar para escrever sobre Alice, a gata que é dela, eu continuarei a escrever, tal como prometi a Maria.

É que Alice também já é minha.

 

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publicado às 11:57



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