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ALICE NÃO PODE SABER DISTO

por The Cat, em 15.11.16

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Dia 44

14/11/2016

 

 

Sobre a serenidade...

 

Alice está aqui deitada a meu lado, junto às minhas pernas.

Ouço aquele barulho estranho vindo de dentro dela. Um som parecido com o de um gerador, li que os gatos emitem este som, porque estão bem.

Digamos, segundo o que li, que é um sinal para o exterior.

Tomemos os sinais.

Alice está aqui deitada a meu lado, junto às minhas pernas, serena, como eu.

Toca Dead Combo outra vez, a lareira parece nunca ter-se apagado, e eu não quero que Alice saiba.

Não quero que a sua serenidade se altere. Alice ainda não sabe ler, por certo nunca saberá desta história.

Há algumas coisas que não consigo fazer correctamente depois de um treino de Muay Thai.

Sou daqueles que acham que dar paos ou plastrons não faz de nós um treinador, apenas um mero ajudante.

Mas, quando dou paos ou plastrons a alguém, quando lhe dou treino, sem ser um treinador, há coisas que me são difícil de fazer, até ao outro dia.

Por exemplo, não consigo tirar fotos com o iPhone, nem fazer vídeos, peço sempre que o façam por mim.

Não consigo beber, ao jantar, como uma pessoa normal, o meu copo não pára de termer.

Quando dou paos ou plastrons não consigo controlar os tremores das mãos e dos braços, fruto das pancadas que eles aguentam, amortecem.

Só me passa no dia seguinte, quando os tendões e os nervos vão ao lugar, quando os músculos se dignam descansar.

Quase tudo o resto eu consigo controlar, quando treino Muay Thai.

A respiração, os movimentos, os tempos, os gestos, a concentração e o foco.

Alice não pode saber desta história.

Mais que aplicar ou defender golpes, mais que reagir, estes quase dois anos de Muay Thai ensinaram-me a ter auto-controle, sobretudo isso, sobretudo quando estou com capacete.

Esta manhã, um jovem, irritado com o trânsito completamente parado decidiu enervar-se ainda mais. O rapaz explodiu.

Imagine o IC19 totalmente parado, às nove da manhã. Acidentes, o normal.

Agora, imagine um carro celular, com os pirilampos e a sirene ligados.

Agora, imagine eu, de mota, na cola do carro celular. Pacífico.

Agora, veja bem, o carro celular pára. Uma carrinha com decoração fofinha só o deixa passar pouco depois.

Sigo na cola.

“Pá deixa passar...”

E, passei.

Pelo retrovisor vejo a carrinha em cima da traseira da minha mota. Como o trânsito estava parado – a carrinha também foi na cola como se diz em Barcelona, ou então o rapaz é mágico. Isso não. Para ser-se mágico deve ser-se inteligente. Minimamente.

Consegui meter-me entre dois carros, parados, como os outros, junto ao separador central. Não consegui sair da mota.

O jovem sai da carrinha, “é só porque dizes para passar que eu tenho que me desviar oh cabrão”.

Quando o vi abrir a porta, vir direito a mim, no meio de uma gigantesca mancha de trânsito, pensei, pobre mota, nem por sonhos saio dela, senão parte-se-me toda aqui.

Neste instante estava o jovem com a cara encostada à minha, quero dizer, à viseira do meu capacete.

Hoje, depois do treino a mãos tremiam-me. São os nervos, dos braços.

Hoje, pela manhã olhei-o nos olhos, através da viseira, claro, serenamente, eu, e disparei: “o que é que se passa, pá?”, ao que o ouvi gritar, porque eu estava atento, “vai mas é pró c... pá”, acto contínuo, dispara um cross de esquerda, por acaso bem metido, ainda que a asa viesse levantada, ficando com a face à mercê, e eu, preocupado com a mota, nem consegui defender.

Se largasse o volante “Kaput”. Ia a mota, ia eu, e a reunião das nove de preparação do dia, já era.

Quando o vi vir direito a mim pensei:

É a primeira vez que tenho que usar o que aprendi no Muay Thai.

E, usei.

Esperei, esperei, até à última.

Nós treinamos defesa e ataque, no ringue lutamos, nós não brigamos na rua, a não ser no limite. Como o jovem enervado, com nervos.

Não consegui defender o cross , mas também não contra-ataquei, sim, por causa da mota e por causa do capacete.

O jovem meteu-se na carrinha, o acompanhante parecia estar a ver um filme, assustado, e desapareceram no trânsito.

Ainda agora estou para saber como o fizeram, afinal continuava tudo parado, menos nós.

Segui viagem, mas preocupado.

Reparei que o jovem abanou várias vezes as mãos, tremeram, depois de me ter dado o Cross e de ter ficado com a cara a descoberto - da próxima é recolher logo a guarda, jovem - a caminho da carrinha, nervos.

Ainda agora não sei se está muito magoado na mão.

Mas, não é isso, na verdade que me preocupa.

O que me preocupa é como é que alguém minimamente provido de inteligência sai de uma carrinha perfeitamente identificada – até o número de telefone tinha - , decide fazer ali o seu treino matinal, em plena estrada, embora o treino tenha sido fraquinho.

Um cross, apenas.

Nós nunca treinamos menos de hora e meia.

Quero dizer, se eu fosse um tipo mau, agora fazia-lhe a folha.

Mas, não tenho coragem.

Alguém que faz isto não merece que lhe dêem cabo da vida, já lhe deve ser tão difícil.

Não é por nada, é que eu nunca tinha visto um tipo dar uma pera a outro, ali com a viseira de plástico mesmo em frente, mas optando pelo golpe mais difícil.

Sim, o cross foi bem metido, mas foi de lado, mesmo no capacete, em cheio, não fosse a viseira partir-se.

Uma pera no capacete?

Você não estava sereno se alguém lhe desse uma pera, bem metida, mas no capacete?

Ao menos pedia, “oh amigo, tire lá o capacete para eu lhe dar uma, se faz favor, senão ainda me aleijo na mão”, e eu tirava o capacete, sim senhor.

Só que a mota caía, de certeza.

E, eu não quero que Alice saiba.

Alice está aqui deitada a meu lado, junto às minhas pernas.

Serena.

Um dia ainda a levo a passear de mota, só não vamos é pelo IC19.

As melhoras do rapaz, peço desculpa por andar de mota, com capacete.

As mãos ainda me tremem.

Hoje foi dia de treino, ainda por cima, foi a primeira vez que precisei de recorrer ao que aprendi, para me defender.

Não há capacete como o meu.

Serenidade, talvez.

Alice adormeceu.

 

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publicado às 08:48



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