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ALICE E A RODA GIGANTE

por The Cat, em 11.10.16

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 Dia 11

11/10/2016

 

 

 Sobre a quietude...

 

Bem aventurados, aqueles que saem às cinco, preenchem o tempo até rumarem a casa a praticar exercício, ou num café com amigos, à conversa, aqueles que às sete já estão em casa, às oito jantam, em família, e o resto da história é fácil de imaginar.

Bem aventurados, aqueles que são fiéis à rotina.

Quando era novo detestava rotinas, agora anseio por elas, daquelas mais básicas, como acordar e dormir sempre à mesma hora.

Cá por casa também temos as nossas rotinas, consequência das nossas profissões, jornalistas e estudantes do secundário, cada qual com a sua própria rotina, que tenta encaixar na rotina diária, que o nosso calendário da vida é ao dia. 

Um após o outro.

E, a coisa vai-se dando.

Difícil imaginar, mas fabricamos sempre pedaços de tempo só para nós, o um e o todo e, nessas alturas, o tempo pára e vivemos dentro dele até querermos, às vezes numa simples manhã de futebol.

Isto para dizer que é complicado ter horários que nos permitam uma vida “normal”.

Não saímos todas as sextas para passar o fim de semana fora, não colamos pontes aos feriados, porque raramente temos feriados, ou pontes, quando um trabalha num período do dia o outro trabalha no outro período, porque trabalhamos no mesmo sítio, exercemos as mesmas tarefas, trabalhamos em fins de semana desencontrados.

A única coisa certa é que os miúdos entram na escola às oito e meia e saem aos fins de semana à noite.

No fim, ou no princípio do dia, de acordo com a rotina de cada um, cada qual vai ter explicações, praticar desporto, ajudar com o jantar, treinar, correr, descansar, ocupar o seu próprio tempo e espaço, aquelas coisas normais de uma família, mesmo que em uma espécie de rotatividade afectiva.

Agora, nesta roda gigante, viva, colorida, muitas vezes, chata, outras, há mais um pedaço de rotina que é de todos, que é de cada um de nós.

Há muito tempo que não estava no horário das nove às dezassete.

Este horário permite-me levar os miúdos à escola, ir buscá-los, ou preparar tudo para quando chegarem (com ajuda, claro). Permite treinar, ficar no sofá a ler, escrever, não fazer nada, fazer imensas coisas rotineiras que sabem tão bem.

Permite, sobretudo, pela primeira vez, nestes primeiros dias de Alice, observar a sua ligação a Maria.

É Maria quem está no nascimento desta história.

Não sou eu. Eu sou apenas o escriba dos dias.

Foi aos braços de Maria que Alice foi parar.

Esperando não cometer inconfidências, que Maria não gosta que a exponha gratuitamente, é sobre elas que falo.

Maria e Alice têm uma ligação mágica, plasticamente maternal.

A forma como Maria pega em Alice ao colo, a agilidade, rapidez, e ao mesmo tempo suavidade com que lhe dá os medicamentos (que nós demoramos montanhas até conseguir dar), a forma como lhe fala, ou a agarra, quando ela está por baixo da mesa, pela barriga, com a mão totalmente aberta.

A forma como se lembra de lhe dar comida, medicamentos, fazer a higiene, de tratar de tudo, a forma como a impede de sair da cozinha, ou de tentar enfiar-se atrás das máquinas, a forma como ambas se relacionam, e que agora posso observar, num contexto normal (falo das rotinas), ensina-me que, há nas gatas aquele instinto que só há também nas mulheres, aquela forma quase mágica de tocar e olhar quem se deixa embalar nos braços.

Todos os dias, desde segunda feira, que observo a personificação da ternura;

Alice está, pelo menos uma vez por dia, nos braços de Maria, na cama de Maria, aninhada, quieta e o que impressiona nesta cena é que é tudo tão natural.

Depois ouvi um barulho.

Fui ver, Maria tinha adormecido.

Alice andava por cima da mesa de cabeceira, a rondar o candeeiro, que caiu.

Posto isto, Alice voltou para os braços de Maria.

Aninhou-se.

Também ela adormeceu.

Apaguei a luz.

Fechei a porta, com cuidado.

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publicado às 21:54


2 comentários

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De marta-omeucanto a 12.10.2016 às 09:29

Por momentos, ao ler o título,pensei que a Alice já tinha experimentado enfiar-se dentro da máquina de lavar!
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De The Cat a 12.10.2016 às 12:33

bom dia,
é a roda gigante (da vida), mas tentativas para entrar na máquina não faltam, vão aumentando, até.
Bom dia.

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