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ALICE ACREDITA NUM MUNDO MELHOR

por The Cat, em 25.11.16

 

IMG_2423.JPG

 

 

Dia 53

24/11/2016

 

Sobre a soberba e a avareza...

 

Alice não nasceu num berço de ouro, a bem do rigor, Alice não nasceu sequer num berço.

A bem do rigor, Alice limitou-se a nascer.

Tudo o resto é esta história, que aqui conto, todos os dias, em tempo real.

Alice está tão grande, tão bonita, tão nossa, tanto, e é só isso que nos importan, que conta, vê-la assim, feliz, como nós, embora a vida não seja feita só de felicidade.

Não há milagres.

Há tentativas.

Alice não nasceu num berço de ouro, mas eu apanhei-lhe o telemóvel (acho que era o dela, espero não me ter enganado ou ainda arranjo aqui um incidente diplomatico-felino).

Alice trocava mensagens com uma qualquer outra gata, ou gato, na faço ideia.

Saiu a correr para o sofá e deixou o telemóvel em cima do balcão da cozinha.

A conversa começava desta forma:

“Olha, sabes o que eu gostava mesmo?”.

“Não?”

“De ter nascido num berço de ouro”.

“Mas, se tens nascido num berço de ouro agora não estavas com eles”.

“É verdade, amo-os tanto, até aos miúdos, que agora pouco me ligam, dado os seus afazeres, tratam-me tão bem, adoro dormir em cima das pernas deles, sinto amor, naquela casa, no ar, tens razão, mas gostava de ter experimentado, de ser uma gata daquelas imponentes”.

“Vês, para que precisavas tu de um berço de ouro, para quê?

Não é muito melhor assim?

Imponente”.

“É, é mesmo, tens razão…Achas-me imponente?”.

“Acho eu e acham-te eles.

Alice, bem sei que é por sms, mas deixa-me contar-te uma história de um gato meu amigo, a não ser que me mandes o teu email…”.

“Não tenho email, o meu dono ainda não o criou mas manda por sms”.

“Ok, então cá vai, vê lá se lês bem a história e se tiras essas ideias malucas da cabeça, tu és uma gata da rua, uma rafeira, renegar isso é recusares a ti própria”.

SMS:

 Zé (chamava-se assim porque nós, gatos(as) gostamos daquele som do zê), era um gato rico, debochado, vivia e gozava com os outros animais das redondezas. Era assim todos os dias.

Ele passava os dias sentado num grande cadeirão, cor carmim, em cima de umas almofadas da mesma cor, junto à lareira do solar, com vista para a rua".

Um dia, Zé, do alto do seu cadeirão fofo, espreitava pela janela, à lareira, como sempre.

Ele viu passar um gato, mais pobre, com um saco roto às costas.

Perguntou-lhe, lá do alto:

“Gato pobre, o que levas dentro desse saco sujo e roto?”.

O gato pobre respondeu:

“Que interesse tens tu nisso, és rico, estás junto à lareira, tens família e amor, que te interessa?

Eu nem te conheço, sequer”.

“Sois todos iguais, gatos da rua, se não dizes o que levas aí dentro é porque o roubaste”.

“Os gatos da rua roubam para sobreviver, e eu não roubei nada, tu, gato rico, tu só sabes gozar, achincalhar, minimizar os outros, pisar os outros, eu não roubei nada e não te vou mostrar nada, posso seguir o meu caminho?".

"Então mostra".

"Não, não mostro enquanto não me disseres porque queres ver o que levo no saco".

"Oh gato ppobre, por curiosidade, pá, para perceber melhor a vossa triste vida de rafeiro, diz lá vá, senão mando a matilha dos cães apanharem-te ali na esquina".

"Não levo nada, mas se queres, eu mostro-te".

O gato da rua abriu o saco velho e roto.

De lá tirou um papel.

Subiu a parede, que os gatos também sobem paredes, e entregou o papel na pata do gato Zé, o gato rico.

Zé, enconstou-se no cadeirão carmim, desdobrou o papel e leu-o:

"Se não és o herói da tua própria história, então estás a perder todo o teu sentido de humanidade."

Zé olhou para a rua, de novo.

Cá debaixo, o gato vadio piscou-lhe o olho.

"Posso ir, agora?".

"Agora podes", respondeu o gato rico.

"Aprendeste alguma coisa?".

"Creio que sim, por agora, estou apenas envergonhado".

"As ruas, para mim, não têm nome...".

"Como tu?".

"Não, eu tenho nome, mas não te o digo".

"Porquê?".

"Porque já te mostrei o que levava dentro do meu saco".

"Um papel...".

"Sim, um papel, ou não será isso que todos andamos a fazer na terra, a cumprir um papel?".

"És capaz de ter razão, gato vadio".

"Prefiro que me chames assim", e partiu.

Alice ainda não sabe que lhe espreitei o telemóvel, mas pelo sim, pelo não, guardei a conversa entre ela e alguém, do outro lado.

Guardei a história.

Dá-me jeito.

As ruas não têm nome, tal como o gato vadio.

Qualquer um de nós tem dentro de si qualquer coisa de muito valioso, tal como o gato vadio tinha dentro do seu saco.

A mensagem fica guardada.

Espero que Alice nunca descubra!

A avareza e a soberba são nomes que são difíceis de pronunciar, só por isso, por mais nada!

A humanidade não está doente.

Apenas lhe falta alguma "mankind"!

É por isso que aqui deixo este vídeo, com o qual tive contacto há uns dez anos.

Todos os anos o publico, porque me toca, porque me aperta.

Foi esta a mensagem que o gato pobre deixou ao gato rico, a mensagem que eu gostava que Alice visse.

Vai ver, vai ver, senão eu mostro-lhe.

Mankind Is No Island.

A misericórdia não é uma ilha.

Tende um bom fim de semana, em paz.

Em meu nome e em nome da minha Alice, que tanto amo.

SIm, eu amo.

 

 

 

 

 

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publicado às 17:02



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