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A PRESSÃO DAS SAUDADES

por The Cat, em 19.09.16

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Foto: The Cat Run

 

 

Não era um segredo de estado, mas era um segredo meu, como tal não contei a ninguém, para não dar parte fraca.

Há um ano, cerca disso, aquilo que era um dos meus maiores prazeres começou a transformar-se em algo insuportável.

O exercício físico entrou, de forma constante, na minha vida, faz para o ano quatro anos.

Habituei-me, viciei-me, mas nunca me preocupei, comigo. Queria era correr.

Depois, o Muay Thai pegou-se-me, cheguei a treinar três a quatro vezes por semana.

Nos intervalos corria.

Por esta altura, em que escrevo, as minhas pernas já correram uns 5 mil e 200 quilómetros, em pouco mais de três anos.

Até que, há cerca de um ano, chegou a factura.

Nestas coisas dos créditos mal parados a factura vem sempre pesada.

Tanto quanto as minhas pernas.

Deve estar a pensar; grande maluco, masoquista. Louco.

Só um louco se permite correr mais de um ano em pleno estado de dor.

As minhas pernas chegaram a pesar todo o granito do mundo.

Os especialistas dizem-me que os meus músculos, o meu corpo, entraram em sobrecarga.

Traduzindo; os músculos das pernas inflamaram, de tal forma que começou a ser quase impossível correr.

Aquele temor que às vezes te invade, e se um dia deixo de conseguir correr, assaltou-me muitas vezes, até à última.

Não precisei de recorrer a especialistas para perceber que estava a dar cabo de mim.

As contas não batiam certo, entre o deve e o haver havia um abismo cada vez mais pronunciado.

Em passos largos, a minha alimentação não existia.

Um café e um iogurte e um pouco de azia aos primeiros momentos da manhã.

Um bolo – já não salivo – e um café duplo uma hora depois.

Depois, o dia era assim, uma sandes, uma coca-cola, imensos cafés.

Parece óbvio, menos a um parvalhão como eu, que não entrava combustível dentro do motor, as válvulas começavam a ficar entupidas, a combustão dava-se ao contrário, percorria-me as pernas, num calor intolerável, quedando-se em tendões retorcidos, que nem as massagens devolviam ao formato normal.

As tubagens de arrefecimento, de alimentação de combustível, tudo dentro de mim funcionava ao contrário.

A minha alimentação era como gasóleo dentro de um motor a gasolina.

Nas últimas semanas estava a correr dez quilómetros no mesmo tempo quando comecei, há três anos, com uma diferença; era um calvário doloroso.

No final de cada corrida o stress muscular transformava-se, por processos químicos do organismo, em stress mental, e físico, imediatamente.

Já nada estava a funcionar em mim.

Os treinos de Muay Thai apenas escondiam o problema.

São tão intensos que a libertação de substâncias químicas dentro do organismo cria um estado de profunda felicidade.

Mas, as dores estavam sempre presentes.

O que eu gastava não era devidamente reposto, a descompensação, a todos os níveis, estava a ser visível.

Consultei uma nutricionista, mudei hábitos alimentares, embora ainda seja um pecador, eterno pecador, comecei a ver resultados fisicamente, o exterior.

Só que, dentro de mim tudo continuava como antes.

Um cansaço extremo.

Houve vezes em que cheguei a parar uma semana inteira, raras, admito, e as dores desapareciam, até ao próximo treino, até à próxima corrida.

Bastava um quilómetro. Dores tão fortes, que eu sentia a lactose nos tecidos subir por mim acima até ao meu cérebro.

A mudança de hábitos alimentares, sobretudo comer de três em três horas, evitar algumas comidas e ingredientes, estava a dar resultados, mas não o suficiente para me devolver algum bem-estar, algum prazer, porque o esforço era sempre superior e a mudança tem pouco tempo.

Faz precisamente hoje uma semana que pensei desistir.

Saí para correr dez quilómetros.

Ao fim do primeiro pensei voltar para trás.

Armei-me em forte e segui.

As dores aumentaram de tal forma que tive que parar sete vezes para alongar, não consegui fazer um único quilómetro sempre a correr, a cada passada pensava voltar para trás.

Passou-me pela cabeça aquela frase batida: quando pensares desistir, olha para o que te fez chegar aqui!

Parei.

Parei, mesmo. Ri-me. Estas frases são engraçadas, elas fazem sentido, menos quando as barrigas das tuas pernas querem saltar para fora e a parte de cima das pernas carrega duas toneladas.

Ri-me, decidi-me, se é a última vez, vou cumprir o objectivo; chegar ao fim.

Pelo menos não saio pela porta dos fundos.

Nunca gostei da porta dos fundos.

Arrastei-me.

Cheguei a casa decidido; acabou o desporto.

O prazer tinha dado lugar a uma quase aversão.

Foi o coração que não me deixou afastar.

Nem com magnésio, nem com proteína, nem com anti-inflamatórios, com nada, nada me conseguia ajudar.

Um fisioterapeuta meu amigo, uma sumidade, aconselhou-me análises e crioterapia.

A decisão estava tomada, não a contei a ninguém.

Acontece que nesta vida das corridas e do desporto conhecemos pessoas que entram na nossa esfera pessoal, muitas delas cruzam-se nas corridas, entre milhares.

Um desses amigos tornou-se num corredor excepcional, em muito pouco tempo.

Pedi-lhe ajuda, nessa noite. Conselhos. Como é que ele conseguia recuperar-se, reagir, progredir.

Falou-me de um suplemento que reúne todos as substâncias que o organismo humano necessita, em um só comprimido.

Vitaminas, sais, substâncias termogénicas naturais, e mais uma série de coisas.

Era a minha última esperança.

Nessa mesma noite fui comprar e tomei a primeira toma.

Dois após o jantar, dois após o almoço.

Uma hora depois, como que por milagre, as minhas pernas começaram a normalizar.

Há um ano que não tinha uma sensação tão boa.

Ao segundo dia, as minhas pernas pareciam nunca terem corrido um único quilómetro na vida.

Achei aquilo rápido demais.

E estava a ser.

A toma era apenas um comprimido e não dois.

Refiz a toma.

Notei poucas diferenças, embora as tenha notado.

Continuavam estáveis, embora aqui e ali com algumas partes amassadas, mas o normal para quem voltou a correr dez quilómetros, sem dores.

O tempo de cada minuto continua longo, mas é muito pouco importante, isso do tempo, para mim.

Nesta fase interessa-me correr, meter muitos quilómetros nas pernas – hoje corri 17 – e rapidamente, sem dores.

E, assim está a ser.

Nem no início, quando comecei a correr, as minhas pernas estiveram como agora, leves, soltas, em paz.

Isto não sería motivo para um texto meu, não fosse a mudança que aconteceu, em uma semana, importante mudança.

É que domingo vou correr a primeira meia maratona deste ano.

A Wonder Run do Dão.

E, sei, porque conheço o meu corpo, o meu organismo, a minha cabeça, que vou chegar ao fim, e bem.

Faça o tempo que fizer.

Ok, eu conto.

Isto que aconteceu, o ter criado condições para me tratar, alimentando-me bem, tomando suplementos que restituem aquilo que perco, só ganha importância por causa dessa corrida.

Todas as corridas me marcaram. Todas elas. É como que uma participação num acto litúrgico, uma sessão transcendental.

Mas, houve uma corrida que me marcou muito.

Apesar de não estar em condições psicológicas para correr essa prova, decidi-me correr, era a minha forma, a única, de homenagear um amigo que tinha morrido, dias antes, numa corrida. Um grande amigo.

No fim dessa corrida, na Praça da Figueira, subi ao primeiro lugar do pódio e ergui os braços ao alto.

O resto guardo para mim.

Domingo, dia 25, a meia maratona do Dão é, tal como essa outra corrida, uma transposição, um tributo, uma homenagem.

Há uma semana estava fora de questão fazê-la.

Hoje, é uma certeza.

E isso deixa-me muito feliz.

Domingo faz 25 anos que morreu um dos meus “irmãos”, um dos meus “melhores” de sempre.

Tenho a certeza, Artur, que quando cortar a meta, já com a medalha ao peito, quando erguer os braços ao alto e olhar para os teus olhos azuis e esse sorriso filho da puta, que me vão correr as mesmas lágrimas.

Não precisamos de estar tristes para chorar.

Domingo vou lá, por ti.

Mas, deixo o último segredo:

Mesmo que fosse a rastejar, estaria lá de qualquer forma.

Não ia perder esta oportunidade de estar contigo durante umas boas duas horas e tal.

Que se lixe o tempo. O tempo corre.

E, Artur, vamos voltar a rir, a dar carôlos um ao outro, a ouvir e dançar Bruce, enquanto percorremos as ruas e as vielas de Viseu, mas por favor, não dispares, não estou em condições de te acompanhar.

Sempre foste muito mais ágil e bonito que qualquer um de nós os outros.

Vou lá ter contigo e vamos correr, por que a dor já não vive em mim, ela foi real, mas foi uma mera metáfora durante todo este texto.

Só o teu sorriso me invade.

Sem dor.

Mas, com saudade.

Está combinado.

Até domingo, maninho.

 

 

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publicado às 23:46



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