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(Este texto tem 8 páginas, aviso já, mas dá para ler)

Sexta-feira, 21 de Novembro, Dia Mundial da Televisão.

Foi ainda não há 24 horas, no momento em que escrevo esta desconcerteza.

A data foi proclamada pelas Nações Unidas em 1996.

Na sexta-feira houve jogo.

Há sempre jogo, todos os dias, hora-a-hora.

Meia noite em ponto.

No limiar do Dia Mundial da Televisão, para duas loucas, inesperadas, alucinantes e marcantes horas de televisão. Não há como esquecer este dia, esta sexta-feira, este Dia que eu desconhecia existir, o da Televisão.

Ele tratou de se apresentar. Que sina, que amor. Afinal...

Ficou uma marca para sempre, no primeiro segundo do dia seguinte ao Dia da Televisão. Que sina, que amor.

Meia-hora antes. Onze e meia. É o que a memória me dá.

Nestes jogos da meia noite apenas costumo ser chamado pelo "mister" para substituir uma folga, uma doença, umas férias.

Costumo ser titular é aos fins de semana de manhã. Pela fresca.

Só que, na verdade, o dia começa pela noite, ela só o faz adormecer.

Calhou o "mister" meter-me a jogar. Apenas isso, mera sorte, no local certo, à hora certa, no momento certo. No jogo certo. Acaso.

Vem isto a propósito de terem passado agora 48 desde que José Sócrates foi detido.

Acho tudo tão sério, tão profundamente grave, que não manifestei opinião, não por receio de conotações, apenas porque me obriguei ao exercício de observar, de fora. De fora.

Eu estive sentado em cima do vulcão quando ele decidiu começar a expelir lava em todas as direcções.

Do lado de fora, durante 48 horas, que amanhã recomeça o carrossel. E gira e gira e gira. Há momentos em que sinto que nunca saí fora da caixa, mesmo tendo saído de dentro dela.

Estas 48 horas de distância permitiram-me perceber que em todo o debate, generalizado, democratizado, não percebi - admito a falha ser minha - ter lido o que quer que fosse sobre os que estiveram sentados em cima do vulcão quando ele acordou, do nada.

Sim, do nada.

Meia hora de vantagem não dá para descer a encosta já barrada de lava que corre e se adensa.

Li muitas opiniões, no âmbito político, sobre esta detenção, no âmbito judicial, até no âmbito do humor. Li, vi e ouvi o banal nestas situações. Nada de novo. Eu gosto de coisas novas.

E, porque tudo começou no segundo em que acabou o Dia Mundial da Televisão, (meia -noite + 1 segundo) porque todos aqueles que conseguiram garantir que quem esteve no "ar" conseguiu fazer as coisas dignificando os profissionais que pararam no tempo, que vidrou.

Gritou, baralhou, enganou, acertou, apoiou, quase chorou - até que a voz doa -.

Tive que beber água várias vezes.

Merecem ser empurrados para a linha da justa justiça, acho que é de elementar justiça, por isso, escrever na pele de quem foi projectado do topo do vulcão e, amparado por fantásticas equipas, no meu caso, no singular, equipa, fantástica gente, gente que por muitas críticas que sofra, gente que por muitas injustiças que sofra, gente que por muito cansada que esteja, arregaça as mangas. E faz tv. À séria. Não nesse sentido.

Fazem(os) tv à séria todos os dias, é a nossa profissão, o nosso ofício, aqui à séria é até cair para o lado, porque assim terá que ser e, nós não caímos para o lado todos os dias (mas quase).

Somos poucos? Façamos o de todos.

Desta noite de sexta-feira das bruxas é essa a lição que levo e é sobre ela que vou escrever.

Sobre gente, pouca, que arregaçou as mangas, gente que se uniu, gritou, baralhou, enganou, acertou, apoiou, quase chorou - em momentos, tenho a certeza - gente que parou no tempo, que vidrou. Focou. Frizou. Cegou. Sabíamos todos ao que íamos e fomos. Tínhamos essa obrigação.

Era para se fazer.

Era para se fazer.

Era para se fazer.

Foi feito. E, é sobre como foi feito, sem cometer inconfidências profissionais ou tocar em matérias não tratáveis em público, que vou escrever, na minha pele. Na pele do Zé Gab ou Zézix (para os amigos) e na pele do José Gabriel Quaresma, que foi chamado a jogo por uma casualidade de agenda. O gajo e o jornalista.

Ponto prévio: recebi dezenas de mensagens elogiosas, para mim e para a equipa que conduziu a emissão desta inesquecível 25 Hora. As que importam. E outras. Entre largas dezenas recebi uma única negativa. Agradeci e expliquei-me. Entendeu-me e agradeceu a "humildade" ou lá o que isso seja. Não perdi uma espectadora, pelo menos, acho.

Aqui não.

Aqui quero falar sobre como me senti durante duas horas e meia "sem rede", porque os acontecimentos estavam a ser alucinantes, "sem rede".

Isto é: "sem rede", um termo que usamos quando não temos teleponto, porque há uma rede. E, ainda bem.

No caso a editora Margarida Pires, o realizador Pedro Aparício, o assistente de realização F. Kruss, o produtor Bruno Viana, as jornalistas Maria Micael, Aline Raimundo e a Maria José Garrido, o repórter de imagem Luis Branco e o câmara de estúdio, o Faísca, até ele andou num vai-e-vem com o ipad dele a mostrar-me informações novas (as coisas que se passam no ar). E, o Custódio, assistente de estúdio, que aposto, nunca assistiu a uma coisa destas. No áudio, iluminação, e nos restantes postos não me recordo, por isso me penitencio. Nunca sabemos o nome de toda a equipa, até porque ela roda ao longo dos noticiários. Perdão.

Esta era a minha rede. A minha corrente. Limitei-me a ser o rosto de toda esta gente. É isso que um pivot é: o último e visível elo de uma enorme e eficaz corrente. Nada mais.

Não faço a mínima ideia do que se passou nos bastidores durante aquelas duas horas e meia em que estivemos em directo.

Fui ouvindo, aqui e ali, pelo auricular, percebi que falavam ao telefone, que havia tensão lá dentro. Tinha de haver.

Obviamente, os responsáveis de toda a cadeia informativa estavam ligados com a régie, o centro das operações, isso é o normal.

Quanto ao resto não faço a mínima ideia, confesso.

Por isso, caro(a) leitor(a) aceite o meu convite para uma viagem de mais cinco páginas, bem menos que as duas horas e meia que estive em directo.

Seja bem vindo(a) ao verdadeiro mundo da televisão:

O alinhamento do programa estava praticamente feito. Alinhado, pivots revistos, lançamentos do directo (íamos ter um directo), a imprensa do dia, os destaques. Vestido, maquilhado.

Estávamos apenas à boca do túnel prestes a entrar em campo, a aguardar, aproveitando para retocar os detalhes. Por isso as senhoras retocam a maquilhagem. Raquel e Paula, desculpem a minha não atenção quando entraram no estúdio para me retocar. Se lerem este texto vão perceber porque é que não deu e eu fiz o meu olhar demoníaco. Peço-vos desculpa.

Faltava perto de meia hora para começar. Tudo ligado. Tudo pronto, como se em televisão, como se em informação tudo estivesse pronto.

Inventado sim, pronto.

Sentia-se alguma tensão.

A notícia das três detenções e das buscas na sede do grupo Lena soube-se a uma hora do jornal, em plena preparação final do jornal.

Alterámos a abertura.

Sentia-se, sem que alguém alguma vez o tenha referido, que estava qualquer coisa para acontecer. Aquela notícia às onze da noite trazia água no bico.

Os jornalistas tem técnicas, treino, formação, experiência e instinto.

Sentia-se.

Um café - que deixei de fumar há uns meses - para soltar a criatividade, a coragem, a imaginação. Sinto sempre um peso nos ombros. À meia-noite esse peso é enorme.

Mal me sento, para olhar pela última vez - na redacção - o alinhamento, percebo que alguém estava ao telefone e que era grave. Sente-se. Percebe-se.

A informação não podia ser libertada para ninguém. É normal nestes casos. Não se trata de falta de confiança nos camaradas - é assim o termo técnico que os jornalistas utilizam para se referirem aos colegas - há alturas em que a informação é restrita. Como em zonas restritas de uma organização. Por motivos vários. Sobretudo para proteger as pessoas e a organização, numa primeira linha.

Bastou-me uma troca de olhar. Em voz baixa, uma frase, bastou.

Tentei desbloquear contactos. Consegui um. Estava a acabar de aterrar no mesmo aeroporto. Zero. Os outros não me atenderam.

Não podia desdobrar-me mais. Tinha que começar a focar o "jornal" e a preparar-me mentalmente. Alguma coisas estava prestes a acontecer e eu sabia que o vulcão ia acordar nesta sexta-feira. Todos o sentiam.

A partir desse momento, o tempo voou, na exacta medida em que há pouco tempo tinha aterrado o avião. A detenção foi às dez e um quarto da noite. O noticiário é à meia-noite. Rápido. Reacção.

Apelei a todos os meus anjinhos e santinhos (não tenho nenhum), fiz exercícios respiratórios - já nem me lembrava da última vez - mexi o pescoço para um lado e para o outro. Ajeitei a gravata. Quase me benzi. Mas sou ateu, graças a Deus. Na verdade, não o sou, de todo, sou só um pouco.

Havia a informação. Pouca, quase certa mas...

Praticamente confirmada, mas...

Não se dão informações, conscientemente, não totalmente confirmadas, logo em risco de poderem ser erradas. Dizem as sebentas: é preferível não dar se não há 100% de certeza.

Nas notícias o 100% de certeza existe.

Durante velozes minutos tentámos tudo, cruzamento de fontes, accionar meios, técnicos, humanos e, não esquecer, ir a correr para o estúdio.

A minha missão começava ali. A da equipa continuava dentro da régie.

Mas, estas coisas, estes casos, estes temas, estes acontecimentos não são de tratamento rápido, no sentido em que todos os meios estão disponíveis, mas são de decisões rápidas, tratamento da informação a ritmo supersónico, sob imensa pressão, súbita, no exacto momento em que a lucidez e o profissionalismo chocam com alguma confusão momentânea.

Estamos treinados para isso. Por isso somos jornalistas. Por isso nos distinguimos profissionalmente de outras classes, do cidadão comum que conta histórias.

Estamos treinados, temos códigos, responsabilidades. Uma delas é decidir muito rápido. Margem de erro mínima, zero. Teoria. A prática já nos ensinou que há erros. Cometem-se. Ganha quem dá menos.

Dou por mim dentro do estúdio a ser "micado".

Microfones, auricular, testes, comunicações, abrir computador e alinhamento. As redes sociais. Acompanham-me sempre.

Testar ligação wireless para o tablet para a Revista de Imprensa.

Tudo pronto. Como tudo pronto se a bomba ainda não tinha rebentado?

Aquela realidade era mais virtual que o cenário. Todo.

 

É normal, antes de começar, durante ou depois de terminar que se mandem umas bocas, sobre bola, sobre isto, sobre aquilo. Momento de descontração.

O Faísca fala comigo, sentado atrás da câmara dois.

Fiz cara feia. "Faísca, hoje não. Está a rebentar-nos uma bomba nas mãos. Prepara-te!". Ele percebeu. São muitos anos.

Aí sim, o Faísca fez cara séria. Feia não, que ele tem uma cara castiça.

Arrancou a emissão.

Genérico incial: "25 Hora, com José Gabriel Quaresma". A vírgula não se ouviu.

Abrimos com a notícia das buscas e das três detenções.

Seguimos alinhamento.

Estávamos pendurados por um fio de cabelo para soltar a informação.

Li os destaques - um dia depois a ver a gravação ainda ri, afinal menti aos espectadores, dos destaques, não passou um único tema, permitam-me o "lol" - avancei.

Sentia-me dentro de uma bolha prestes a explodir.

Foi a experiência em piloto-automático que me deixou apresentar os primeiros doze minutos de jornal.

A cabeça e os olhos estavam já nos sites, a tentar recolher informação. Os ouvidos à escuta. Os olhos na concorrência, o canto do olho na peça que estava no ar.

Gritam-me ao auricular. "Confirmado. Sócrates detido no aeroporto".

Olho os monitores, mega-lead no ar.

Peça quase a terminar. Tablet teima em não abrir páginas. Fuck, gritei!

Às vezes gritamos.

Trinta segundos: " queres que dê pivot solto e depois vou improvisando e vamos ganhando tempo?"

Quinze segundos: " sim, avança. Está confirmado".

A peça estava a terminar. O mega-lead no ar.

Aquele que sería um jornal de meia-noite tranquilo acabava de começar a transformar-se naquela que foi a mais dura batalha que travei até hoje, em quase vinte anos a fazer tv, dentro da tv.

"Sim avança..."

Quatro, três, dois, um é teu...

"É uma notícia de última hora. Uma notícia que vai abalar Portugal nas próximas horas. O antigo primeiro-ministro - não gosto da expressão ex - José Sócrates foi detido há momentos, no aeroporto da Portela, em Lisboa".

Foi mais ou menos assim que arranquei, do que me lembro.

Lembro-me que tinha as paredes do estômago coladas - preparação para a endoscopia de quarta-feira -, lembro-me que a boca estava a secar, lembro-me da bolha dentro do meu cérebro e da consciência que estava a abater-se sobre mim. Não era só televisão, era a primeira detenção de um antigo primeiro-ministro - ex não gosto - na História de Portugal pós-25 de Abril.

Não era apenas televisão. Era televisão! Um daqueles momentos que nos caem no colo e temos que acarinhar com tudo o que temos.

Raramente vejo o que faço.

Chegado a casa, morto, desta vez vi, fui ver porque quis perceber-me.

Percebi que à meia-noite tinha o mundo inteiro em cima dos ombros.

O pivot é apenas a cara, o último elo de toda aquela corrente.

Apenas encerra uma diferença em si, um erro seu pode matá-lo, em directo, qualquer outro erro também. Para sempre. De resto, todos os erros estão em igual patamar.

Responsabilidade, concentração, silêncio, as vezes que tiver que ser.

Usa as técnicas que ensinas. Sóbrio. Cuidado. Cuidado com o que dizes. Foi isto que me passou pela cabeça. Do que me lembro, poque foi uma viagem muito profunda.

E, lembrei-me da metáfora que tantas vezes utilizo: se estás em jogo, joga o melhor que sabes. Pode correr bem ou mal, mas se jogas numa equipa e se dela dependes, deixa a pele em campo.

"Continua, não paramos mais...", gritam-me de novo ao auricular.

Gritam-me, porque eu pedi para me gritarem. Para ser perceptível.

Não, não imagina um cérebro a processar informação numa situação como aquela. São teras de informação, o cérebro transforma-se num servidor de informação e emoções.

Tínhamos virado a meia-hora. O jornal saía à uma e dez e eu senti que nunca mais ia sair dali.

"Continua...enrola...vai aos sites...vê o twitter..."

"O meu twitter não dá, a discussão sobre o tema é com outros seguidores..."

"Gab, está confirmado pela PGR, comunicado..."

Tudo isto a acontecer enquanto continuo a ver, receber e debitar informação.

"Gab, bebe água, estás a perder a voz..."

Estava. Pausei. Bebi, com o braço encostado à mesa, inclinado, a relaxar o corpo, estava de pé, diz que fico mais magro e o formato é assim. E é, em ambos os casos.

Expliquei ao espectador(a) o que estava a fazer.

Em emissões longas e imprevisíveis como esta existe uma técnica que bem utilizada funciona a nosso favor. Funciona sempre, desde que a utilizemos: comunicar individualmente com que está a ver a emissão.

Resulta. As pessoas querem saber o que se passa e nós somos o seu mensageiro. Falamos para milhares, mas olhos nos olhos com cada um.

Devemos ser sinceros com o espectador. Ele é extremamente inteligente e observa-nos ao detalhe.

Digo sempre isto aos meus alunos. Esta segunda-feira vamos conversar sobre a cobertura mediática da detenção do antigo PM.

Uma da manhã.

A informação chegava a um ritmo alucinante, mas as peças do puzzle já me permitiam construir uma história e utilizar a técnica do "loop" e improviso sem erros e sem me perder, apesar de sempre saber para onde caminhava.

Contar a história, introduzir uma nova informação, enquadrar e repetir.

Improviso. O teleponto morreu há muito.

É só assim que se faz um directo "sem rede". Não conheço outras formas, se existirem informem-me que da próxima também as utilizo.

"Gab o X diz está a dar-nos os parabéns...bora"

O Y também.

Era uma e meia da manhã.

Aqueles parabéns foram, para mim e, penso que para a equipa, não lhes perguntei, o gel que tomo quando corro longas distâncias. Um boost. Bebi litro e meio de água. Sim, foi uma corrida de fundo, como gosto.

Primeiro, nos primeiros quilómetros, costumo rebentar, cansar, até aquecer.

É a longa distância que amo. As emissões "sem rede"!

Uma e meia da manhã.

"Gab, os três detidos não são alto-quadros da empresa, a empresa emitiu comunicado..."

Correcção feita. Informação nova. Enquadramento. Loop.

Nesta última hora e meia o teleponto esteve sempre em branco, costuma ser preto, com as letras GEN FINAL - FECHO.

Gosto.

Permite-me focar ainda mais o olho do espectador. Porque, na verdade, imagino-o para lá das letras.

Assim não tenho distracções no teleponto. As letras e palavras e frases são uma distracção. Para mim.

Corridas longas. Energia extra.

Senti, naquele momento, que a equipa estava sólida. Não senti, senti-me finalmente confiante. Em mim, foi mais isso, por causa deles.

Houve quem tenha entrado várias vezes no estúdio, durante a noite.

Trocas de olhares, olhos encarnados, um encolher de ombros. Um sorriso. Um fixe!

Durante duas horas e meia a minha maior preocupação foi não me desviar um milímetro sequer das informações que estava a receber, só assim conseguia proteger-me, dar-me protecção, aquela que ali só eu me posso dar, mais ninguém.

"Srobronne", disse várias vezes, de cabeça. Com a perfeita consciência que não dizer Sorbonne correctamente me ia penalizar.

Mas, também ensino aos meus alunos, em tv temos que criar prioridades. A minha era não me matar em directo. Antes não dizer correctamente a puta da universidade que trocar o nome ao homem.

Falei de vários nomes e nunca os troquei.

Em directo, do aeroporto, a jornalista. Rápido.

Mais tarde, junto a sede da PJ.

E "loop". Uma noite em "loop", só para sortudos. Uma noite em "loop" é uma noite interminável no tempo.

Foi chegada a altura em que senti que, ou havia um rasgo qualquer, ou pela primeira vez na minha carreira, o avião podia começar a ter dificuldades para continuar a voar. Confiante e aflito ao mesmo tempo. Eu sou assim, de dualidades permanentes.

Confiava em mim e na crew, no entanto.

No entanto, há vinte anos fiz um acordo com N. Senhora de Fátima: ela não fazia filmes e eu não fazia milagres. Eu tenho violado o acordo várias vezes com a ajuda dos "santinhos".

O Observador.

O Observador é um projecto de que gosto.

"Gab, David Diniz, no Observador...vai miúdo..."

"Directo TVi 24, agora com a sede do jornal online Observador, David Diniz, director, boa noite..."

A caminho de casa enviei-lhe um sms: "quando te vi no monitor virei Cão de Fila, filo e não te largo mais, foi o que pensei".

Trocámos um abraço virtual.

Depois de uma longa noite de duas horas e pouco, depois de ter saltado do cimo do vulcão, depois de ter montado o puzzle, depois de ter estado a voar a uma velocidade assustadora, agora sim, em velocidade de cruzeiro, tinha uma entrevista para fazer, com alguém com uma profunda inteligência política, jornalística. Inteligência.

Tentámos não nos "entalar" mutuamente no "ar". É um dos códigos.

Mas, não era uma entrevista fácil.

Toda a tensão que corre por estas linhas abaixo estava ali, numa enorme poça, aos nossos pés, perante o seu olhar.

A informação era conhecida. Naquele momento não havia mais. José Sócrates estava nos calabouços. Ponto. O "show" seguia no dia seguinte.

A questão política esgotou-se, a jurídica também. Embora a conversa tenha sido deliciosa, por isso passou a correr.

"Gab...vamos acabar..."

Fiz sinal para a câmara como que a dizer: a entrevista ou o jornal...

"Tudo..."

Nesse momento sorri.

"David Diniz, apesar de não haver a tua newsletter ao sábado, a tua newsletter começa com: enquanto dormia acontecia isto...hoje sería...enquanto estive acordado aconteceu isto...muito obrigado, bom trabalho, a noite será, seguramente - sem qualquer provocação- longa".

"Despede-te..." disseram-me ao auricular.

Desta vez não me gritaram.

"Ponto final nesta vigésima quinta hora, no dia em que Portugal foi abalado por um terramoto de dimensões imprevisíveis - mais ou menos isto -, foi um prazer. Em nome de toda a equipa, deixo votos de um fantástico fim de semana".

E, ouço, "entra genérico...aguenta...ainda tás no ar...saímos..."

Saí de dentro do estúdio uns cinco minutos depois. Subi para mudar de roupa, a roupa que levava vestida de casa. Voltei para trás.

E lá estavam eles.

Fomos poucos.

Demos abraços.

Desejámos boas-noites, sentidas, bom fim de semana, boa folga, bom trabalho. Sorrisos em caras brutalmente tensas, mas sorrisos e um sorriso é do tamanho de um oceano e de uma devoção. É verdadeiro.

Acho que o abraço que eu e ela demos, no fim de tudo, diferente de qualquer outro, e já nos conhecemos há vinte anos, já passámos por muitas provas de fogo, esse abraço, que eu e ela demos, apertado, foi tanto...Foi tudo.

Acho que estávamos comovidos, e sentimos que esse abraço foi dado a todos. Alguns observaram. Apertado. Ficou tudo dito ali, para todos. Que noite! que noite!

Ainda não conheço as audiências. Se calhar perdemos. Os números...

Uma coisa penso que ganhámos: muito mais respeito uns pelos outros.

Foi na noite em que fizemos televisão.

No fim do Dia Mundial da Televisão, um dia que marca a história da televisão e da democracia.

É por isso que ser jornalista é isto mesmo. Estar dentro da História. Contá-la.

Amo contar histórias.

Tudo o resto é o diz-que-disse.

Logo, as sete da tarde, vou falar às minhas alunas - são só alunas -, vou contar-lhes um exemplo prático, elas já escrevem bem para tv, do que é "escrever" para tv sem imagens, sem letras ou frases.

Por palavras ditas.

Depois, na segunda hora, um dos melhores do mundo vai falar-lhes sobre imagens.

Elas também já vão adiantadas em Linguagem Televisiva.

Vamos falar da noite de sexta e das imagens de sabado e domingo também.

Elas merecem conhecer esta história, se escolheram esta vida.

E, acho que lhes vou passar este texto por email.

Remeto-me ao silêncio, tal como fiz durante estas 48 horas. Dou a aula em silêncio. Aprendo também.

Cheguei a casa perto das três da manhã.

Senti ter corrido uma longa corrida, cansado mesmo.

Estive tentado a ir correr.

Corri no dia seguinte, sábado e domingo e acho que ainda ando com os pés nas nuvens, porque não vi notícias, recusei-me, porque acho que continuo dentro de uma bolha.

Meti mais uns paus na lareira.

Adormeci às seis.

 

Hoje volto para o "grande ginásio" onde todos transpiram.

O Dia Mundial da Televisão foi na sexta-feira.

O meu.

Este texto podia terminar como eu gosto, com uma frase, uma ideia fortes. Mas não.

Este texto acaba com um gigantesco obrigado a todos os que estiveram ligados a mim, a incentivar-me, a corrigir-me, a dar-me feedback, a apoiar-me, através do Facebook.

Mesmo - alguns - depois do final de tudo.

Pobre AC, que só foi "prá nite" às três da manhã, por minha causa.

É para eles que escrevo e descrevo esta experiência. E para as minhas alunas. E para mim. E para os que fizeram televisão nesta longa sexta-feira das nossas vidas.

A mais exigente da minha carreira.

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