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Solidariedade.


Manifesta-se quando queremos. Em qualquer momento. Basta querer.


Nas corridas também é assim. Fiz uma meia-dúzia, apenas, mas percebe-se claramente que há ali muito de solidariedade.


Não por parte de todos que há uns que correm mesmo para ganhar. Esses são uma minoria.


A mancha corre porque gosta de correr. E há entre-ajuda. Às vezes basta um olhar cruzado.


Já pedi água, já ofereci água. Um bom exemplo para ilustrar o que acabo de escrever. Dar e receber.


Por isso insisto: correr é tão só uma analogia da própria vida. Em tudo o que ela encerra.


Esta crónica é escrita a três dias da minha primeira meia maratona, mas ela remonta ao quarto dia antes. Ontem (senão falho pela segunda vez e assim hoje quem gosta de me ler tem duas crónicas).


Vem ela a propósito do mesmo de sempre; coisas felizes, lições, propósitos.


Conheço este amigo há alguns anos. Bom...


Conheço-o há anos mas falámos apenas uma vez. Ele lembrava-se de mim. Eu não me lembrava dele. Costuma ser assim; as pessoas lembram-se de mim, por vezes não me lembro de todas. As pessoas conhecem-me, na maioria das vezes não sei quem são. É sempre assim. Desta vez não foi assim.


Mas há depois o advento das redes sociais e, um dia, ele apareceu.


Depois daquela conversa habitual percebi então de quem se tratava.


Fomos conversando.


Este amigo não é do meu círculo próximo. Estreitámos a amizade há pouco tempo.


Desde então, ele tem-me ajudado, eu tenho-o ajudado. Ele ajuda muitas pessoas, uma vez por semana, à noite, fria ou chuvosa. Não falha uma noite por semana.


Ao fim de semana levanta-se ainda o sol está a começar a acordar. Faz o que tem a fazer e volta para trás.


Volta para trabalhar.


Passa assim a vida. A trabalhar, a ajudar.


Num destes dias, depois de me contar a sua história, depois de eu perceber que encontrei um amigo sem qualquer interesse que a amizade, disse-me que tinha começado a correr. Devagar porque estava pesado. Cinco quilómetros.


Este meu amigo teve um acidente estúpido. Fez das tripas criação e lutou com tudo e com todas as forças.


Ganhou.  Aprendeu a lição. Tornou-se melhor.


Dissertei sobre o pouco que tenho aprendido e vivido com este ano de corridas.


Atravessado o caminho dos espinhos, este meu amigo subiu o mais alto dos cumes do orgulho e ainda por cima corre. Devagar. E corre.


Umas semanas passaram até que voltámo-nos a encontrar. Há muito poucos dias.


A conversa andou à volta de uma injustiça filha da puta, dos sem-abrigo que ele ajuda juntamente com um enorme - cada vez maior - grupo de gente apenas interessada em ajudar os outros, sem questionar, sem colocar condições. Dignidade.


E, claro, a conversa foi até às corridas.


Quis saber como me sentia a poucos dias de fazer a minha primeira meia maratona oficial, se me sentia bem, que no Facebook parecia que sim, que achava que eu me ia sair bem.


Dissertei, com sempre, sobre a corrida. Desta vez sobre os últimos dias antes da prova, sobre a forma como a planeei mentalmente, sobre a forma como a simulei.


Falei-lhe do meu penúltimo treino, no ginásio. Da corrida curta que ainda me falta fazer, da última sessão de ginásio, das massagens, da alimentação, dos truques. Até da música nova lhe falei. Expliquei-lhe que a quebra da rotina, os sons aos quais não estou habituado vão ajudar-me a libertar a mente e focar apenas na corrida, na passada, na respiração, depois, na viagem, nos outros, nas cores, na paisagem, no asfalto, nas lombas, nos carrinhos de bebés.


Contei-lhe que pela primeira vez na vida defeni um objectivo solitário. Planeei-o meticulosamente como se fosse um profissional. Pela primeira vez na vida desafiei-me!


Contei-lhe isso.


No dia seguinte a esta nossa última conversa, o meu amigo, vítima de uma daquelas injustiças, viu aumentar a insensibilidade dos Homens, até ao limite da estupidez.


Um dia bastou. O dia seguinte.


Um dia bastou para que muitos dessem as mãos e lhe acabassem com o tormento. Um dia de solidariedade, como nas corridas.


Segunda-feira lá estará a ajudar os outros, depois de um fim de semana com alvorada antes do sol nascer. E de manhã, à tarde, à noite lá vai estar a trabalhar, como sempre.


Estive para o convidar para vir comigo no domingo. Não o fiz. Pela madrugada tem que trabalhar. Por agora só corre cinco quilómetros. Só que agora corre praticamente todos os dias.


Um dia havemos de correr uma meia maratona juntos.


Por agora, sou eu quem tem que seguir o exemplo.


Cortar a meta do aconchego nos olhos dos outros.


Uma destas segundas feiras vou contigo à noite à estação dos combóios.


Depois, depois então iremos correr uma meia maratona juntos.


Por eles e por nós. No fundo, por todos.


Tudo isto aconteceu ontem.


Hoje faltam três dias. Ontem faltavam quatro. Quantos dias é a vida?!


A corrida sei que será abaixo das duas horas e vinte. Nem que me chame Zé. Zé Gab só para os amigos como tu.


Esta vai por ti, amigo!

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publicado às 03:37



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