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Escrevo a uma hora em que já devia estar a dormir.


Como se houvesse horas para escrever, para dormir!


Ontem falhei e não escrevi a crónica diária sobre a minha primeira meia-maratona, tal como me tinha comprometido, desde logo, comigo.


Falhar de novo era imperdoável. Há objectivos para cumprir.


Depois, um tipo vem das notícias às duas da manhã, vem cheio de adrenalina - mesmo que não a sinta - e dormir passa a ser a menor das prioridades, mesmo com uma meia-maratona à porta. Na verdade ainda falta uma semana, posso dar-me a este luxo.


Entre as opções que se colocam - a esta hora da madrugada - ver tv não me parece. Saí agora de lá de dentro dela. Das entranhas do chroma.


Jogar PS - nada de confusões - a esta hora ia espevitar-me os neurónios.


Toda a gente dorme.


Estou na varanda, só eu, a ouvir os cães lá ao longe, os grilos - aqui no campo ouvem-se os grilos - e um já familiar ruído de fundo do poste de alta tensão lá à frente.


Dizem que a humidade em contacto com as poeiras alojadas nos cabos de alta tensão provocam este ruído e não é prejudicial para o ser humano.


Pelo menos os pássaros nunca morreram de choque eléctrico, que eu bem os observo. Adiante.


A crónica de hoje tem razão de ser. As outras também.


Deixei de fumar e já aguentei duas horas e quarenta e um minutos.


Eu descompenso mesmo, quando deixo de fumar.


Depois de sair da Box, a fábrica, para os mais chegados e, como sempre faço, a caminho de casa, detive-me com os meus pensamentos.


A corrida também me dá isso; momentos só meus.


Sou por assim dizer um animal anti - social. Gosto muito do eu, de estar comigo - as folgas durante a semana são tempo meu -  de ter momentos em que a única pessoa para quem falo, a única que me escuta, sou eu.


Durante a corrida - normalmente uma hora, quatro a cinco vezes por semana - chego a semi-cerrar os olhos, não os posso fechar por motivos óbvios, e consigo perceber que a minha cabeça esta vazia.


Sim, uma espécie de côco, mas sem nada lá dentro.


Sigo a música e o bater do coração. A passada. O ritmo. Deixo-me ir enquanto observo o rio e a margem do lado de lá.


O truque é simples:


Vais bem se conseguires contar -te o filme que viste ontem. Em voz alta, como na tv. Sim, corro sozinho, conto-me o filme. O que eu quiser, desde que em voz alta. Às vezes devem achar que sou doido.


Se a respiração não o permitir, então, abrando. Retomo o ritmo do prazer. A culpa é das endorfinas, dizem os estudiosos, que eu leio sobre a matéria em consideração. São como sereias. Gozo o momento. Atraem.


Simples.


São os especialistas quem o diz.


Não sei mentir.


Eu já corri três meias maratonas. Esta é a primeira oficial. Oficial não quer dizer competição, longe disso, para mim.


Em dezembro, janeiro e fevereiro. Duas horas e cinquenta e seis, duas e quarenta e seis, duas e trinta e seis. Sem querer.


Saí para treinar à noite. A noite estava fresca. Fui indo, cinco, oito, dez, quinze, dezasseis.


Aqui, parei. Quase parei. Sim, admito, parei mesmo.


Estava prestes a entrar no patamar dos duros.


É a partir dos dezasseis quilómetros, mais coisa menos coisa, que as pernas se transformam em blocos de cimento.


A cabeça só pensa em parar. O corpo também.


E pensas. Pensas que estás a apenas cinco quilómetros de te superares. De chegares a algum lado.


E segues. Vais indo. Atrás da música. Já não pensas.


Arrastas os blocos de cimento. Dezoito. Faltam três e uns metros.


É nesse momento que tens uma certeza: eu faço três quilómetros em dezoito minutos. Se fizer em vinte aguento. E segues. Vais indo.


No último quilómetro decides corrigir a posição, alinhar a passada, os movimentos. O rosto muda. queres parecer bem à chegada. Não é sempre assim?


Parece que estás a começar a corrida.


Vês a linha de chegada. Olhas o relógio oficial, só por curiosidade. Não importa. Chegaste.


Mesmo que nada disto exista no meio da Lezíria.


Na Lezíria Grande, aqui no Ribatejo puro, existem touros e cavalos que passam o dia conversando e comendo, dormindo e correndo. Os touros e os cavalos também correm na Lezíria.


Seja a que horas for. Seja com o sol campino que nos dá este tom meio árabe - depois conto a história da influência árabe na cultura, na genética e na geografia da nossa tribo.


Corre-se na Lezíria, mesmo que os trinta graus reflectidos no feno dos campos pareçam cinquenta graus no corpo.


Corre-se sem pontos de abastecimento. Na Lezíria não há torneiras nos campos.


Refresco-me nas bombas de gasolina. Já me conhecem. Às vezes até me fiam uma bebida energética para os quilómetros finais. Pago no dia seguinte.


Vem isto a propósito de deixar de fumar, agora já é histórico; duas horas e cinquenta e oito, que deixei de fumar.


Na viagem para casa - agora já me deu o sono - dei comigo a pensar - tenho pensado muito nos últimos dias - que quando começar a minha primeira meia-maratona, como viu as outras três não tinham público sequer - sorriso - estarei sem fumar há uma semana e dois dias, tipo oito dias ou assim.


Nunca me senti tão bem fisicamente. Estou leve, sem dores musculares - que saudades, acompanhavam-me há um ano - a ganhar confiança e a tomar umas cenas que uma amiga me aconselhou e que só fazem é bem. É tudo natural. Como o ar.


Portanto, se o meu primeiro objectivo para o próximo dia cinco de outubro é correr os vinte e um quilómetros e cem se mantém intacto, correr e terminar bem.


Correr significa correr bem, sem problemas, sem náuseas, sem quebras de açúcar, se grandes dores nos gémeos, não significa correr como os outros. Sou um novato, ainda por cima gosto de correr sozinho. Vou correr sozinho entre uma multidão, durante muito tempo.


Dizia, se o primeiro objectivo se mantém intacto, o segundo acaba de ser revisto. Agora quero mesmo estrear-me numa meia-maratona, a minha primeira-meia maratona, e quero correr a distância em menos de duas horas e meia.


Isto de ter deixado de fumar - deixo de um momento para o outro - vai ser "aquilo" que me faltava.


Vamos ser sinceros: é bem mais difícil correr a meia-maratona que deixar de fumar.


Nem os quenianos me agarram, no fim, quando receber a medalha, de participação e voltar para casa, de carro, obviamente.


E quando cortar a meta irei levantar os braços e terei aplausos, nem que seja um ou dois, os meus.


Cheguei ao fim!

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publicado às 03:16



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