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 O diabo esconde-se nos detalhes.


Normalmente esta frase é dita como que a dizer: " vês, os pormenores são importantes".


Só que o diabo está ao virar da esquina e, quando se vira uma esquina tudo pode ser surpreendente.


Esta crónica não é sobre o Calimero. Ela pode parecer, mas não é. Simplesmente aconteceu.


Ela é apenas o seguimento da partilha da minha semana antes da minha primeira meia maratona oficial, logo numa das mais importantes. Mas, esta crónica é apensa sobre mais um dia, mais um episódio, mais uma lição.


Ontem li um post do Filipe Mendonça, maratonista, camarada de profissão, colega na empresa e, acredito, um amigo.


Escrevia - ele escreve bem -, grosso modo, que estava doente.


Depois de tanto trabalho, tanto esforço, tantas dores, tanto prazer, tanto desafio, tanto querer, estava doente.


Domingo é um dia importante para milhares de pessoas que vão correr.


O Filipe vai à maratona. Preparou-se como ninguém. Está doente.


Domingo não é só um dia importante; é um dia especial para o Filipe, por isso escreveu - grosso modo - "nem que vá de rastos".


Ele vai correr a maratona e a maratona não é para meninos.


A meia também não, mas, o dobro dos quilómetros e do tempo faz toda a diferença.


A não ser que tenha febre, com febre o Filipe desiste de calçar os ténis e rasgar o asfalto alfacinha durante quatro horas. Seria loucura. Pode matar e correr é prazer.


Pensei:


Estou tão bem, como nunca, sinto-me tão preparado, tão motivado, tão focado, espero que o Filipe consiga ficar bem. Como o entendo.


Pela primeira vez, nestas coisas das corridas, consegui sentir "as dores de parto" de outra pessoa.


Desejei-lhe as melhoras. Espero que esteja melhor.


Antes de ler o post do Filipe Mendonça já havia qualquer coisa a querer incomodar-me. Queria mas não conseguia.


Hoje completei o programa de treino específico que está a dois dias de ser posto em prática. Não senti grandes dificuldades no último treino antes da prova.


Sou um novato. O meu objectivo está longe do objectivo da maior parte das pessoas que conheço e que vão correr no Domingo.


Encarei este desafio e decidi-me por ele. Preparei-me. Estudei os detalhes. Li e treinei. Apenas isso, um auto-desafio.


Tive azar.


Nunca ninguém me falou, nem sequer li, onde quer que fosse, que o diabo e os detalhes por vezes transformavam-se em armadilhas para animais de porte pesado.


Hoje ao início da noite foi empurrado.


Respiração. Músculos. Nariz. Garganta. Dores de cabeça. Pânico. Filipe Mendonça. Pára!


Parei e foi fácil decidir: "Nem que seja a rastejar".


Não é um dia especial para mim, mas é um dia importante, para mim. Como para todos os que vão correr. Especial para alguns. Importante para todos.


Só espero não ter febre. Vou descansar à séria. Febre é que não.


Afinal, se no Domingo as dores do corpo não me largarem, se respirar pior do que quando fumava, se a vontade for zero, pouco importa. I


sso fartou-se de acontecer neste ano de corridas. Faz parte e ultrapassa-se com mais tempo, menos ritmo, mais coragem, menos velocidade, mais capacidade de seguir, menos prazer, ultrapassa-se.


Febre é que não. A dois dias do grande dia, nem pensar.


Agarrem-me senão eu vou. Vou. Ponto.


Com febre é que não!

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publicado às 00:09



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