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A MINHA CABEÇA A ANDAR À RODA

por The Cat, em 15.01.17

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“O que é que andas aqui a fazer?”.

“Existo”.

“Este pode ser o ponto de partida. Partimos sempre para chegar”.

“Existo”.

“Como qualquer um de nós, também tu já imaginaste alguma vez encontrar o Santo Graal da vida”.

“Não, como poucos de nós, limito-me a existir”.

“Existir ou viver?”.

“Uma e a mesma coisa”.

“O Santo Graal da Vida, a sua busca, é a corrente que faz o rio fluir para a sua foz. O homem busca algo, busca a vida”.

“O homem busca algo na vida, ele não busca a vida, ele é incapaz de, apenas, existir.”.

“Isso torna-o em alguma coisa?”.

“Transforma-o em um indigente da alma, num pedaço de matéria, ávida por agarrar o Graal, que ninguém jamais agarrou, nem Jesus.

Era fake news, essa coisa do Cálice”.

“Estamos na era da pós-verdade, verdade?”.

“Mentira.

Estamos na era da mentira, da crueldade intelectual, na era das fake news, que matam as real news, que se misturam, em cumplicidades obscenas, em hard news híper-reais.

Mais que a era das fake news, vivemos a era das híper-real news”.

“E, dizes apenas que existes?!”

“Viver, existir é viver.

Começaste por perguntar o que andava aqui a fazer. Respondi-te: existo!”.

“E eu questionei se existir era viver!”.

“E eu respondi afirmativamente.

Insististes em puxar-me para o banal. O Santo Graal, o mal do mundo, que o mundo julga ser o seu mais precioso bem”.

“Achas, por isso, que a maldade existe?”.

“Não é a busca que move o homem, o homem que não vive, que não se dá conta que existe, a busca pelo seu Santo Graal personalizado?”.

“E, isso torna-o mau?”.

“Isso descompensa os tempos. Desde o início do tempo.

Abriga o pior do diabo.

Passeia-te pela política, senta-te na esplanada da Justiça, na bancada do futebol, liga-te, por segundos apenas, ao mundo virtual, espreita a janela das notícias, e vê se ainda lhes descobres as diferenças. Faz tudo isso”.

“Porque cada um busca o seu Santo Graal?”.

“E, perde a capacidade de olhar, a nada, olha a nada, e pisa, e passa por cima e por baixo, e chuta para o lado, e descarta, e empurra, e violenta, e viola, e infringe, e impune, sempre impune, mesmo no dia em que é algemado”.

“Isso era uma prisão da alma, pensar que a busca do Graal é o que move cada cabeça”.

“Vivemos, por dentro. Enquanto não nos limitarmos a existir”.

“Toca a utopia!”.

“Não é o Santo Graal isso mesmo?”.

“Depende, se tiveres um Porsche, uma casa enorme, uma conta bancária sem fundo, uma vida feliz, é isso mesmo, poder, ter”.

“E, não existes.

Morres por dentro, enquanto festejas por fora”.

“No fim, morremos todos!”.

“E, não acredito que alguém se volte a lembrar do Santo Graal, puta que o pariu!”.

 

 

 

 

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publicado às 23:27


2 comentários

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De Maria G. a 05.02.2017 às 10:43

Excelente texto.
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De The Cat a 25.03.2017 às 19:26

Não sei o que me terá passado pela cabeça :)

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