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A MARIA E ABRIL

por The Cat, em 25.04.15

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Todos os anos, neste dia, desde que existem as redes sociais, conto a mesma história.

No dia 25 de Abril andava à roda. Era uma quinta-feira. Nessa altura andava à roda às quintas-feiras. Era o sorteio da lotaria.

Não me lembro se há 41 anos chegou a haver sorteio, mas andou à roda.

Nessa quinta-feira, como habitualmente, era dia de ir à escola.

Eu andava na segunda classe. Fiz a primeira classe em um dia e saltei logo para a segunda. Era muito inteligente, dizia a professora. Recordo-me das sardas que tinha na cara.

Nessa altura andava nas piscinas. Nas piscinas municipais funcionava uma escola, nessa altura. As piscinas só enchiam de gente nos meses de Verão, quando a escola terminava.

Só depois fui para a escola do Bacalhau, na vila, onde andou a minha mãe e os meus filhos.

Nessa altura, em que eu andava na escola, nas piscinas, só era obrigatório estudar até à quarta classe. Os professores estavam autorizados para agir com autoridade, precisamente. Nunca me confrontei com professores assim. Recordo-os(as) a todos(as) no coração. Mas, tinhamos que saber os nomes dos rios, das estações de combóios, das Colónias e das províncias.

Os homens ainda iam para a guerra.

Nessa quinta feira, faz hoje 41 anos, não fui à escola e tive dificuldades em ver os chaimites a passar em frente à minha casa.

Era muito baixinho, estava a caminho dos cinco anos, dificilmente conseguia estar à altura do meu pai, do lado esquerdo da varanda e da minha mãe, do lado direito. Eu, naquele espaço, mesmo ao meio, qual gato a tentar amarinhar pelas paredes.

O meu pai pegou em mim e elevou-me.

Os militares sorriam para nós à sua passagem. Quase olhos nos olhos.

Explicou-me, mais tarde, a minha mãe, num registo rebelde, como os dos jovens, a minha mãe tinha pouco mais do que vinte anos, e o meu pai, num registo revolucionário, como o dos metalúrgicos, explicou-me também o que era aquilo, mais tarde, a minha avó, num registo cicatrizado por 48 anos de vida sem liberdade, também ela me deu uma visão diferente daquilo.

Mais tarde, sempre mais tarde, repetidamente, como aqui, explicaram-me os professores, de esquerda, de direita, antigos republicanos, monárquicos, revolucionários, pensadores, todos eles à sua maneira, seguindo a sua própria visão das coisas, da vida e dos acontecimentos, explicaram-me todos, toda esta gente o que foi o 25 de Abril. Aquele dia.

Naquela quinta feira eu estava a ver a liberdade a nascer, ali, mesmo em frente a mim.

Vila Franca de Xira fica às portas de Lisboa.

Em 1974 ir da vila a Lisboa não era assim tão fácil quanto parece. Ir a Queluz era uma longa viagem, hoje vou e venho todos os dias, em meia hora.

O quartel do RALIS faz fronteira com a grande cidade e os arrabaldes, que naquela altura fervilhavam. Fervilhavam mesmo. Era ali que se fazia a luta.

Nos arrabaldes ficavam as grandes fábricas, as grandes empresas, o tecido produtivo. A cintura industrial e as suas gentes e dinâmicas próprias. Os subúrbios.

Nos subúrbios de Lisboa cresciam bairros construídos pelos donos das fábricas. Lá viviam famílias, nos bairros. Lá cresceram gerações de gente marcada pelo aço e pelos calos na alma.

O bairro da Soda Póvoa, o bairro da Quimigal, o da Petrogal, tantos.

Nos arrabaldes de Lisboa ficavam a Covina, a Corame, a Sores, a Argibay, a Cimpor, a Cimianto, era a indústria pesada, a indústria naval, milhares e milhares de postos de trabalho, dinâmicas próprias, camadas sociais peculiares. Famílias.

Havia as Casas de Pessoal nas fábricas, espécie de supermercados, em conta, havia as Casas do Povo, onde se praticava desporto, onde se assistia ao teatro, onde se via concertos, havia os cine - teatros, casas de cinema, imponentes. Havia mundo, aqui, de onde lhe escrevo.

Os subúrbios fervilhavam porque era nos subúrbios que a actividade produtiva existia, era dali que partiam os que iam trabalhar para a capital e era ali que muitos trabalhavam. Havia trabalho, naquela altura. Havia indústria, comércio - até havia a Associação dos Inválidos do Comércio - havia vida.

Era lá que toda esta sinergia dava força aos sindicatos e ao movimento sindical. A luta da classe operária.

Disso tudo eu lembro-me, daquela Quinta - Feira, 25 de Abril, lembro-me menos. Pouco.

- Mãe, não vou à escola?

Perguntei, estranhando o facto de o meu pai estar ali àquela hora.

Àquela hora ele devia estar na Corame, em Santa Iria da Azóia. O meu pai era serralheiro mecânico. Tinha aprendido o ofício nas oficinas da Casa Pia, em Lisboa e na Previdente, no Sobralinho.

A Previdente não era uma fábrica, era uma vida. Uma cidade.

Era só apanhar o combóio, quatro estações depois desaguava mesmo junto à fábrica da Corame.

A Corame foi entregue a uma das famílias que sempre foi uma das várias donas disto tudo. Fechou. Despediram toda a gente. Hoje, a Corame - passei lá há dias - é um enorme stand de camiões de marca alemã. O combóio já não pára lá.

Costumava ir lá com a minha mãe, às sextas-feiras, próximo da hora da saída do meu pai, fazer as compras para a semana, na Casa do Pessoal.

Lembro-me do nome do velhinho Pastor Alemão que dormitava junto à entrada, era o Leão.

O meu pai também trabalhou na Mague.

O meu pai é um gajo de esquerda, mas não politizado, vincado apenas, por esses tempos, admirador de Álvaro Cunhal e Jerónimo de Sousa, com quem trabalhou.

Era e é de esquerda por motivos óbvios, mas também porque tinha pouco mais de vinte anos, tinha-se safado da guerra, ele foi à guerra, mas safou-se. Era condutor e esteve na ilha da Madeira e em São Tomé. Chegou a ser condutor do comandante, até que um dia entrou na Parada a fazer peões e levou o primeiro carimbo vermelho na caderneta.

Hoje, o meu pai ainda é de esquerda e ainda trabalha na indústria pesada.

Trabalha na Holanda.

É Pipe Fitter e ganha um ordenado muito bom. Na Holanda.

Tem 63 anos, está a fazer 64 e adora o que continua a fazer. Ele constrói plataformas petrolíferas. Verdade. E eu tenho muito orgulho nele.

O aeroporto, ponto estratégico, também faz fronteira entre os arrabaldes e Lisboa, fica quase junto ao RALIS, à entrada da capital do império.

Nessa quinta feira não fui à escola.

Vi os militares que vinham na retranca de Salgueiro Maia. Como se os estivesse a ver neste momento. Sorriam.

Era a última coluna que chegava à cidade do regime às primeiras horas do dia, sim, que naquela altura entrávamos cedo na escola, às oito.

Às sete já estava tudo pronto para sair, não é como agora que é sempre a pisar o risco. Tem razão de ser, estamos em democracia. Ou quase.

Eles sorriam para nós, para todos os que estam à janela, às janelas do prédio.

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Vejo-o todos os dias, duas vezes por dia, já lá vão 41 anos, ao meu antigo prédio.

Vejo o meu velhinho prédio quando passo para Lisboa e depois quando volto a casa.

É que o meu velhinho prédio fica a menos de 100 metros da auto - estrada, ao nível da auto - estrada.

Nós morávamos no quarto andar, o último.

Os chaimites, com os militares que nos acenavam, passavam ao nível do nosso olhar, que os acompanhava como que em slow motion.

Tal como os nossos acenos e os nossos sorrisos.

- "Está alguma coisa a acontecer".

O meu pai, apesar de viver quotidianamente num ambiente de esquerda pura, não se tinha apercebido de nada nos dias anteriores.

A minha mãe, apesar de andar a aprender costura em casa de uma família, uma das mais importantes na luta anti - fascista, onde se reuniam aqueles que lutavam contra os fascistas, também não se tinha apercebido de nada.

Só soubemos nessa manhã.

Ouvimos a telefonia, toda a gente estava a ouvir a telefonia. Aqueles que não estavam nas ruas. Ainda era cedo. Ainda havia medo.

Daqui para a frente lembro-me pouco. Lembro-me que pela tarde as ruas da vila pareciam carreiros de formigas. Havia cada vez mais gente a sair de casa. As notícias chegavam também pela televisão. Pelo fim da tarde as ruas estavam cheias de gente.

Uns festejavam. Outros procuravam os bufos. Naquela altura havia os bufos, como hoje. Tal e qual.

Outros, ainda, tentavam evitar linchamentos desses bufos, que ainda hoje lhes lembramos as caras e as vozes.

A maioria celebrava. Algo de novo. Estranho. Desejado.

Passaram 41 anos.

A democracia suspendeu-se.

Veste Prada, como o diabo, usa Montblanc, sempre tinta azul, como um qualquer hipócrita e sorri, democratica e cinicamente.

A democracia suspendeu-se.

É arrogante, autoritária, sem compaixão, mete nojo.

A democracia suspendeu-se.

Até os espanhóis repararam.

Diz assim o maior jornal espanhol, o El País:

“Portugal celebra este fim de semana os 41 anos da liberdade de expressão no país, mas parece que ela não chegará aos 42. Governo e socialistas portugueses de acordo em censurar a imprensa”.

“Na calada da noite, com uma velocidade desconhecida neste país, os três partidos maioritários – os partidos do governo PSD e CDS e o principal grupo da oposição, os Socialistas – chegaram a um acordo para aprovar um projeto de lei que restabelece a censura prévia dos meios de comunicação na próxima campanha eleitoral".

Hoje, fui almoçar com a minha filha Maria.

Disse-lhe que se ela estivesse comigo há 41 anos o nosso almoço talvez não fosse possível e expliquei-lhe porquê.

A Maria ama ouvir as minhas secas sobre coisas que são muito minhas.

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Hoje emocionei-me, por ser o dia de Abril, por ver que mesmo virtualmente há Abril. Sou um gajo que se emociona facilmente com coisas bonitas, como a Maria.

- Maria, quero mesmo saber, sabes quem foi salgueiro Maia?

- Sei, papi. Foi o capitão que fez o 25 de Abril.

- Não foi só ele, mas sim. Lembras-te da história do Monte do Sobral?

Pronto, ele é um desses.

Enquanto davamos cabo de uma picanha contei-lhe a história toda, o antes, o dia e os 41 anos passados.

Ela ama ouvir e eu amo dizer-lhe.

Amanhã vamos almoçar no Estoril Open e vamos ver ténis. 

Amamos fazer programas juntos, em liberdade.

- Sabes porque é que te contei isto tudo, Maria?

- Sei.

O 25 de Abril diz-me pouco, porque foi há muito tempo, mas sei o que foi, o que custou e porque foi. E sim sei quem foi Salgueiro Maia.

A Maria sabe.

Muitos daqueles que se sentam na casa da democracia, muitos daqueles que devem defender em primeiro lugar a democracia, muitos daqueles que todos sabem quem são, não sabem quem foi, na verdade, Salgueiro Maia.

Nem muitos daqueles que falam Abril, que o sentem na pele. Aqueles que se demitem de votar para retirar a tirania da vida. O voto não existia há 41 anos.

As elites não sabem quem foi Salgueiro Maia. O povo não sabe quem foi Salgueiro Maia.

Conhecem-lhe o nome.

A Maria sabe!

Ponto final.

 

 

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publicado às 21:14



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