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A CORRIDA NÃO PÁRA

por The Cat, em 03.04.15

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Coloco as mãos nas maçanetas das duas portas do armário do hall de entrada.

Faz-se silêncio.

Aperto ambas as maçanetas com ambas as mãos antes de abrir as duas portas e encarar aquelas criaturas de frente. Manda quem pode.

Aperto-as com mais força e num quase golpe marcial puxo-as e largo-as deixando abrirem-se livremente. Quase uma cena de filme.

Os seis, ali, olhares espantados, olhos abertos, doze olhos, seis pares de olhos, seis ténis, três pares. Bah!

Lancei-lhes um sorriso rasgado, como que a dizer: tenham tino, boys.

- Tenho estado a ouvir-vos. Gostava que esta conversa terminasse aqui.

Há uma coisa que queria que ficasse bem clara; vocês são importantes para mim, todos, os seis. São vocês que me permitem e permitiram fazer uma das coisas que mais gosto que é correr.

Os cor de laranja iam para abrir a boca. Os amarelos deram-lhe um ligeiro toque com o cotovelo. Os novos eram a noite depois de terem sido o dia. Caladinhos, assustados, via-se nos olhares, como um estagiário em início de carreira. Ninguém abriu a boca.

- Correr é aquilo que nos une. É por isso que escrevo e me dou ao capricho de o fazer sobre vocês.

Meus caros cor de laranja, não me esqueço da vossa coragem, naquela tarde em que chovia e cada passada atascava na lama. O que vocês sofreram quando a lama secou o tecido. O que vocês se divertiram quando vos lavei com a mangueira, lá em baixo no jardim do condomínio. O vosso valor, a vossa lealdade serão para sempre.

Os amarelos já pressentiam que vinha aí uma onda de elogios mas, via-lhes nas linguetas franzidas alguma preocupação, não fosse eu rasgá-los de alto a baixo.

- Meus caros amarelos, lembro-me bem daquela noite de Natal...

- Aniversário, gato.

- Desculpem, aquela noite de aniversário, não foi nada, foi noite de Natal.

- Aniversário, gato.

- Natal. Lembro-me bem dessa noite. Não começámos logo a correr. Em primeiro lugar pelo respeito que os laranjas me/nos mereciam. Em segundo lugar porque vocês eram tão deslumbrantes que não podia cometer tal sacrilégio...

- Nós lembramo-nos, andaste um mês connosco, não foi?

- Um pouco menos. Vivemos momentos fantásticos.

- Bom, já que tiveste que abrir as portas e colocar a conversa no seu devido lugar, deixa-nos aproveitar e pedir-te desculpa. Aquela corrida na praia...

- A culpa não foi vossa. Não lembra a ninguém correr sem meias.

- Mas, o sentimento de culpa acompanhou-nos, até hoje.

- Lembro-me dessa corrida na praia e das últimas que fizemos. A vossa sola já gasta fazia-me sentir todas as pedras pequenas na planta do pé que por acaso é aquela que tem dores, vocês sabem porquê.

- Não fizemos de propósito.

- Eu sei, também por isso tenho uma profunda estima por vocês.

Os ténis novos estavam pálidos. Entraram de peito feito e agora não passavam de um simples par de ténis novos.

- Vocês, vocês são a minha paixão. Eles são o meu amor. Pode amar-se de várias formas, há várias formas de amor, algumas inventam-se. As corridas também são assim.

No dia em que deixarem de correr lembrem-se desta conversa. Não é porque as atenções se viram para vocês que são melhores, por isso. No dia em que deixarem de correr têm que ter corrido mais um quilómetro que os cor de laranja e mais um quilómetro que os amarelos. Nesse dia serão - detesto usar este tipo de tempo verbal - dignos de ficar nesse armário, junto a esses dois fantásticos pares que comigo sofreram, riram, correram, saltaram, tomaram banho de piscina e de praia, apanharam sol, choraram em alguns casos, dignos.

Os novos tinham agora os atacadores completamente desapertados. Quase que lhes faltava o ar. Dava para perceber.

- Por isso, saltem daí. Entrem na mochila, se faz favor, que amanhã temos oito quilómetros para correr.

- Podemos dizer uma coisa?

- Podem.

- Cor de laranja, amarelos, desculpas são pouco. Uma vénia. Vamos embora.

- E vocês portem-se bem. Eles voltam daqui a 1.501 quilómetros, têm ar de quem vai aguentar, de quem vai perceber os valores com que se escreve a tal palavra que dá direito à prateleira dourada; dignidade.
Há muito vento, muita chuva, muito sol, muita areia, muita lama, muita vida para correr.

Fechei as duas portas. Dentro do armário ficaram dezenas de histórias corridas a pé que um dia contarei, outras que fui contando.

Cá fora eu e os novos.

Amarelos, verdes, cinza prata, pretos, tudo muito colorido. Como a vida. Agora é hora de provar. A vida é uma prova constante. Não é para ser vivida a correr. Correr é estar vivo. Coisas diferentes.

As portas estão fechadas. Fez-se silêncio. Finalmente.

Amanhã há mais, porque quando pensas em desistir lembras-te porque começaste.

É por isso que a corrida não pára.

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publicado às 01:03



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