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A CANDIDATA ALICE

por The Cat, em 16.11.16

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Dia 44

15/11/2016

 

Sobre actividade política...

 

 

Acho muito bem que os miúdos comecem a ter consciência política logo em miúdos.

Nunca fiz parte daquela esmagadora maioria de sabedores, aqueles que pensam com a corrente dominante. Aqueles que acham que os miúdos devem é viver a vida.

Entender aquilo que os rodeia também é viver a vida.

Tenho a sorte de ter dois filhos esclarecidos com a vida, miúdos, que sabem o nome do terrível e odioso ministro das finanças alemão, ou o nome do novo secretário geral indigitado da ONU.

Gostam de notícias, de saber o que é que afinal os rodeia.

Nunca os impeli a nada, no que às tomadas de decisões deles diz respeito.

Se gostam de touros é porque nasceram, vivem e crescem com a charneca ao fundo do horizonte dos seus olhos. Se gostam das festas tradicionais é porque o cheiro da sardinha assada lhes é irresistível. Se gostam de Xutos é porque os foram ouvindo ecoar na sua vida. Se gostam de futebol é porque é mesmo assim que tem que ser.

Nunca os impeli.

A não ser no baptismo, não que eu fizesse questão, mas não morreram por isso, mantivemos a tradição de uma facção da família e eles, como eu, acreditam no seu próprio deus.

Os meus filhos, miúdos esclarecidos, miúdos normais, que não criam problemas, que têm comportamentos exemplares, que gostam de notícias, também saem aos fins de semana à noite, ele também anda com as calças a cair pelo rabo, também têm muitos amigos, o seu próprio espaço e são felizes.

Vem tudo isto a propósito de Alice.

O Rodrigo acaba de chegar do treino; treina quatro vezes por semana, tem explicações, acorda(m) sempre cedo, chega ao fim do dia cansado, como um adulto, tais são as exigências. Afinal os miúdos, a partir de uma determinada idade, passam a enfrentar os seus próprios desafios, cada vez mais exigentes, até que um dia estão como eu, carregados de responsabilidades, compromissos, exigências, sim, que o mundo exige-nos.

Os meus filhos concorrem numa lista à associação de estudantes do liceu.

Claro, fiquei surpreendido quando soube. Eles, a Marta, o Tiago, a Carolina, e um bando de amigos, numa lista, concorrem contra outro bando, seus amigos, para liderarem a parte política dos estudantes, na escola.

Ora, quando o Rodrigo chegou, há momentos, as meninas estavam na cozinha.

Alice, Maria e Carla.

“Eu vi logo que alguma coisa não estava bem”, diz-me o Rodrigo, quando veio à sala cumprimentar-me.

“Então?”

“Estão a fazer queques, mas não é para hoje, é para amanhã”.

Maria lembrou-se, às dez da noite, de ir fazer queques para venderem na escola (já têm um vídeo gravado com Júlio Isidro, Manuel Luís Goucha e Cristina Ferreira, a apelarem no voto da “Lista Genius”), angariação de fundos para suportar as actividades de campanha eleitoral.

A mãe, as mães...

A mãe recusou-se mudar de roupa e vir relaxar, continua na cozinha a ajudar Maria a fazer queques.

“Não posso deixar a minha filha a fazer queques sozinha”!

Alice ajuda.

Daqui da sala consigo perceber que anda entre as cadeiras da cozinha, quando um tabuleiro de inox faz mais barulho, ou junto às pernas das meninas, quando estão a polvilhar as formas com farinha.

Aposto que neste momento Alice já sabe que os queques se fazem assim:

  • 125 g de açúcar
  • 60 g de manteiga
  • 1 colher de chá de fermento
  • 2 ovos
  • 250 g de farinha
  • Raspa de limão
  • 90 g de leite
  • Manteiga e açúcar
  • Canela
  • Colocar a manteiga aos pedaços, o açúcar e o fermento, no copo, programar 3 min,37°,vel 3.
  • Juntar a raspa de limão, os ovos e o leite, 30s,vel 3
  • Acrescentar a farinha 20,vel 3.
  • Aquecer o forno a 200°.
  • Encher as formas até meio, previamente untadas e polvilhadas de açúcar.
  • Deixar repousar 20 a 30 min e polvilhar com açúcar e canela, colocar no forno 5min a 200° depois descer para 180° e deixar mais 20 a 25 min.

Já cheira, Alice está a fazer companhia a Rodrigo, enquanto janta, ambos observam Carla e Maria de um lado para o outro.

Já cheira.

São quase onze da noite. A sessão de pastelaria está quase a terminar.

Acredito que no fim dispensem um queque ao Rodrigo e outro a mim, que gosto de doces e de bolos quentes.

Por certo Alice também vai querer, mas o açúcar faz mal aos miúdos, mesmo quando são gatas.

Queques, Alice já sabe fazer (na Bimby), o que ela não sabe é que eu também fui da associação de estudantes, no liceu.

Fui eleito pela Juventude Comunista Portuguesa.

Esta na fila do bar e o miúdo atrás de mim olhou a lista dos produtos, afixada na parede.

O Mars estava esgotado, então ele colocou o sinal de “idem” em todos os produtos, por ali abaixo.

Eu ri-me.

Como era, digamos, popular no liceu, imediatamente me convidou a integrar a lista.

Só não me tinha dito que ele era da JCP, o David.

Assinei os papéis, e quando recebi o meu cartão, dois dias depois, o meu pai, comunista, mandou-me entregá-lo a quem me o deu.

Não lhe importava que eu fosse para a associação de estudantes, só não me queria metido em partidos políticos, embora se orgulhe da minha consciência política, que eu sei.

Fui comunista dois dias.

Mas, fui de esquerda toda a vida.

A minha avó, a minha maior referência e guia, vivia em frente à sede do PCP, no centro da vila.

Era lá que eu passava os meus fins de tarde e início de noites, quando era miúdo.

Jamais esquecerei as senhoras de idade a fazerem renda, as garrafas de sumo de laranja, os livros, e os queques, no Centro de Dia.

É daí que me vem a paixão por queques.

Estão quase.

Já cheira.

Tomara que a “Lista Genius” ganhe.

É que os meus filhos não pertencem a qualquer juventude partidária. Por vontade deles.

Ao contrário de mim, que era da Associação Cristã da Mocidade, um grupo oficial de escuteiros.

Um certo dia, numa tarde de sábado, o meu pai entrou na sede e foi buscar-me.

Não queria cá nada que tivesse a ver com a palavra “Mocidade”. Lembrava-lhe Salazar e a "Mocidade Portuguesa", de nada me valeu as explicações que lhe dei, nem as da minha jovem mãe.

Eles eram jovens, os meus pais, eu era miúdo.

Foi contra a minha vontade, que deixei os escuteiros, ao contrário dos meus filhos, que não precisam de se filiar em nada, para exercerem as suas obrigações, direitos, também.

Os queques estão no forno.

Depois digo se estão bons.

Alice não aparece na sala já lá vai mais de uma hora.

De duas uma, ou aprendeu a gostar de queques, ou então está a preparar-se para entrar na vida política.

Se eu gostava.

Quem sabe, um dia.

De queques já gosto.

 

 

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publicado às 22:49



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